Investigação sobre morte de professora revela dosagem letal e manipulação irregular; especialistas alertam para os riscos da saturação química em ambientes fechados
Novos desdobramentos sobre a tragédia na academia C4 Gym, na Zona Leste de São Paulo, revelam um cenário de negligência técnica extrema. Peritos e investigadores da Polícia Civil apuraram que a quantidade de cloro manipulada no dia do incidente equivalia ao volume que deveria ser utilizado ao longo de uma semana inteira de manutenção. A carga excessiva, concentrada em um único preparo, foi o estopim para a liberação da nuvem tóxica que vitimou a professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos.
A revelação agrava a situação dos proprietários, já indiciados, e acende um alerta sobre a falta de profissionais qualificados no manejo de substâncias perigosas em centros esportivos.
A química do desastre: saturação e vaporização
O erro não residiu apenas na quantidade, mas na forma de manuseio. Ao concentrar uma dosagem semanal em um balde para aplicação imediata ou deixá-la exposta, o funcionário — que não era piscineiro profissional — provocou uma reação de saturação. Em ambientes com pouca ventilação, o cloro granulado ou líquido, quando mal diluído, libera gás cloro (cloro gasoso), uma substância altamente irritante e asfixiante.
- Dosagem Letal: O uso de sete vezes a dose diária recomendada em um curto espaço de tempo altera drasticamente o pH da água e a qualidade do ar circundante.
- Exposição Direta: “A inalação dessa concentração maciça causa danos imediatos aos alvéolos pulmonares”, explicam especialistas em toxicologia. No caso de Juliana, a reação levou a uma parada cardiorrespiratória em poucos minutos.
Falta de responsabilidade técnica
A investigação confirmou que o estabelecimento operava sem um Responsável Técnico (RT) e sem o alvará de funcionamento exigido pela Vigilância Sanitária. A manutenção de piscinas de uso coletivo não é uma tarefa meramente operacional, mas um procedimento de segurança química regulamentado.
“O manuseio de saneantes e produtos para piscinas exige conhecimento sobre estequiometria básica e proteção respiratória. Tratar uma piscina como se estivesse lavando um piso comum é um erro que custa vidas”, afirma a perícia técnica.
O estado das vítimas e o inquérito
Enquanto o marido de Juliana permanece internado em estado grave, a Polícia Civil analisa os livros de registros de manutenção da academia — que se mostraram inexistentes ou incompletos. O Ministério Público de São Paulo (MPSP) investiga agora se essa prática de “supercloração” era recorrente na unidade para compensar a falta de uma filtragem adequada ou de manutenção diária regular.
| Parâmetro de Segurança | Padrão Recomendado | Situação na Academia |
| Frequência de Cloração | Diária (ajustada conforme o uso) | Semanal concentrada em 1 dia |
| Profissional Responsável | Piscineiro certificado ou Químico | Funcionário sem treinamento |
| Equipamento de Proteção | Máscara, luvas e local ventilado | Preparo próximo aos alunos |
| Documentação | Alvará e RT ativos | Inexistentes |



