Kiev não exibe mais os sinais de guerra que marcaram o início da invasão russa, três anos atrás. As lojas estão abertas, as ruas movimentadas, e os moradores, presos nos engarrafamentos do dia a dia, seguem suas rotinas com certa normalidade. No entanto, desde que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, realizou uma longa e controversa conversa com Vladimir Putin, presidente da Rússia, em fevereiro deste ano, as sombras dos pesadelos de 2022, sobre a possível extinção nacional da Ucrânia, ressurgiram.
O pesadelo do medo da extinção nacional vivido pela Ucrânia em fevereiro de 2022 está de volta
Antes, o descontentamento ucraniano era voltado à forma com que o presidente Joe Biden administrava o envio de armamentos, muitas vezes limitando o uso estratégico deles. Contudo, os ucranianos ainda sabiam de que lado os Estados Unidos estavam. Já Trump, com suas declarações recheadas de exageros e distorções, ecoou a narrativa de Putin, desqualificando o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e, em um de seus discursos mais falaciosos, alegou que a Ucrânia havia iniciado a guerra. A estratégia de Trump de oferecer concessões antes mesmo de as negociações avançarem, favorecendo abertamente a Rússia, colocou-o contra a Ucrânia, ignorando os direitos internacionais que foram violados pela invasão russa.
A postura de Trump, ao oferecer a Rússia garantias de que a Ucrânia não se juntaria à OTAN e aceitava a permanência de territórios tomados à força, foi vista como um sinal de fraqueza por Putin, que, historicamente, não cede diante de concessões. No entanto, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, logo reiterou as exigências de Putin, que incluem a não presença de tropas da OTAN na Ucrânia e o controle de mais territórios.
Em Kiev, o impacto das declarações de Trump gerou inquietação. Ihor Brusylo, alto conselheiro de Zelensky, expressou a dificuldade do momento: “São tempos muito desafiadores. Não diria que agora é mais fácil do que em 2022. Estamos revivendo tudo novamente.” Apesar das dificuldades, Brusylo ressaltou a determinação dos ucranianos em defender sua soberania e continuidade como parte da Europa.
Uma professora do lado de fora de um hospital após o bombardeio da cidade ucraniana de Chuguiv, em 24 de fevereiro de 2022 – GETTY IMAGES
Durante os primeiros dias da invasão, a cidade de Kiev foi marcada por um cenário de destruição e evacuação. Milhares de civis fugiam para o oeste, enquanto a cidade se preparava para resistir. O presidente Zelensky, contra as expectativas, não deixou a capital, mas se manteve junto aos seus compatriotas, trocando seu traje presidencial por uniforme militar. A resistência ucraniana fez com que a retirada das forças russas de Kiev, em março de 2022, fosse um marco na guerra.
Embora a cidade de Kiev tenha se recuperado, a linha de frente de combate continua sendo o epicentro do conflito. A guerra agora se intensifica no leste da Ucrânia, nas regiões de Donetsk e Luhansk, com as forças russas avançando lentamente, mas a um alto custo. A linha de batalha, que se estende por mais de 1.000 quilômetros, continua devastando vilas e cidades. A Ucrânia, por sua vez, tenta reverter a situação, avançando também em território russo, como em Kursk, onde tropas ucranianas continuam a pressionar.
O conflito continua moldando a Ucrânia, dividida entre os que lutam e os que buscam maneiras de evitar o serviço militar. Entre os soldados, há uma sensação de que a ajuda internacional não pode durar para sempre, e que, em um futuro próximo, a Ucrânia precisará ser mais autossuficiente, especialmente em relação à produção de armas.
Em regiões como Kursk, o cenário de guerra é implacável. A linha de frente exige coragem, disciplina e determinação. Muitos soldados, como Evhen, que há dez meses luta no front, encaram as dificuldades de frente, sabendo que a guerra não tem prazo para acabar. “A ajuda não é algo que pode durar para sempre”, ele observa com uma calma que só a experiência de combate pode proporcionar. “Estamos fabricando mais armas, mais drones, mas sem a ajuda americana, a situação se complica.”
O conflito se estende ao ponto em que a linha de batalha se confunde com os próprios limites do território, e o futuro da Ucrânia continua em jogo. Para muitos, o objetivo de Putin permanece claro: a subordinação total da Ucrânia, a destruição de sua autonomia política e a implementação de um regime sob a égide de Moscou.
Assim, mesmo com a guerra distando dos olhos do mundo, ela segue no terreno ucraniano, onde jovens como Maxsym e Dmytro, que em 2022 eram estudantes, hoje enfrentam a dura realidade do front de batalha. A guerra transformou a vida desses jovens, assim como a de milhares de outros ucranianos, que continuam a lutar pela sua independência e pelo futuro de sua nação.
( Com BBC NEWS BRASIL )