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Casa Artigos

A gaita, o rio e o tempo – Por Wilton Emiliano Pinto 

Jeverson by Jeverson
11 de abril de 2026
in Artigos
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A gaita, o rio e o tempo   – Por Wilton Emiliano Pinto 
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Tem horas em que o tempo parece desistir de seguir em frente.

Basta o sopro de uma gaita, dessas simples, de som meio chorado, para que tudo ao redor se dissolva, e eu me veja outra vez lá, na Barra do rio do Peixe com o Araguaia, naquele pedaço de mundo que a gente chamava de Viúva.

O vento vinha manso, trazendo o cheiro do rio, misturado com terra úmida e mato aquecido pelo sol do dia. A água corria preguiçosa, como se também quisesse descansar. E era quase sempre no cair da tarde, quando o céu se vestia de laranja e dourado, que ele puxava a gaita.

Ronan.

Encostado, tranquilo, com aquele jeito quieto de quem não precisava dizer muito. Levava a gaita à boca e deixava o som sair, às vezes meio torto, às vezes repetido, sem compromisso de acertar.

Naquele tempo, não era algo que chamasse atenção. Era apenas o Ronan soprando sua gaita.

Mas hoje…

Hoje aquele som volta diferente.

Volta bonito.

Volta cheio de vida.

Eu me vejo ali, ainda firme, com o corpo obedecendo sem reclamar, pisando leve na terra batida. A Itacira por perto, presença constante, dessas que dão equilíbrio à vida sem fazer alarde. Às vezes sentada, às vezes caminhando devagar, mas sempre compondo aquele cenário que hoje vive inteiro dentro de mim.

A gente não sabia, mas estava vivendo dias grandes.

Dias simples, é verdade, sem luxo, sem pressa, mas grandes no essencial.

E havia também as pescarias…

Se é que se pode chamar assim.

Porque o peixe era o que menos importava.

O que valia era sair cedo, com o sol ainda nascendo devagar, e entrar no rio como quem entra em casa. O barco deslizava manso sobre as águas, quase em silêncio, enquanto a brisa tocava o rosto e levava embora qualquer preocupação.

Eu e Itacira seguíamos juntos.

Às vezes em silêncio, às vezes com poucas palavras, mas sempre em sintonia. Havia uma paz ali que não precisava ser explicada.

As varas iam montadas, as iscas preparadas, tudo conforme o costume. Mas, no fundo, não havia cobrança. Se o peixe viesse, vinha. Se não viesse, não fazia falta.

Porque o essencial já estava ali.

O balanço do barco.

O som da água.

O canto distante dos pássaros.

E aquela liberdade mansa, que só o rio sabe dar.

Havia momentos em que eu deixava a linha na água e me perdia olhando o horizonte, acompanhando o encontro das águas, sentindo o tempo se alongar.

Itacira, às vezes, sorria quieta.

E naquele sorriso estava tudo.

Mas havia também os dias de silêncio mais profundo.

Dias em que eu saía sozinho.

Entrava no barco, apontava para um canto qualquer do rio, com a intenção, ou talvez só o pretexto, de fisgar um pintado. O motor me levava até onde o instinto mandava, e ali eu parava.

Ficava. Sozinho.

Ou melhor…

Nunca completamente só.

Era eu, Deus e a natureza.

A linha na água, o corpo quieto, a mente leve.

Às vezes o peixe vinha, às vezes não.

E isso pouco importava.

O tempo passava diferente nesses dias. Sem pressa, sem medida. Quando dava por mim, a noite já tinha chegado de mansinho, cobrindo tudo com aquele silêncio mais profundo ainda.

Lá pelas 20 horas, eu ligava o motor.

A lanterna era fraca, quase simbólica.

Na maior parte do caminho, era a lua quem me guiava.

E como guiava bem…

O rio, que de dia era largo e claro, à noite se tornava um mistério sereno. A luz da lua desenhava o caminho sobre a água, e o barco seguia devagar, como se respeitasse aquele momento.

Era uma travessia silenciosa.

Quase sagrada.

E ali, naquele percurso de volta, eu sentia algo difícil de explicar, uma paz funda, dessas que parecem vir de dentro e de fora ao mesmo tempo.

Hoje, quando escuto uma gaita, às vezes longe, às vezes só dentro de mim, tudo isso volta.

A gaita do Ronan.

O riso quieto da Itacira.

O balanço do barco.

O rio correndo sem pressa.

As pescarias que não eram sobre peixe.

E as noites de lua, em que eu navegava entre o céu e a água.

Curioso como a vida transforma as coisas.

Aquilo que um dia foi simples, quase despercebido, se tornou o mais precioso dos tesouros.

A gaita, que nem era tão bonita assim…

Virou a mais melodiosa das músicas.

Porque agora não é só som.

É memória.

É vida vivida.

É saudade.

E, no fundo, é também um jeito bonito de agradecer.

Onde a memória encontra abrigo, Wilton faz nascer sentido.
Tags: A GaitaArtigosO Rio e o TempoWilton Emiliano Pinto
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