Proposta americana amplia exigências e Teerã reage com condições duras para cessar-fogo
Os Estados Unidos e o Irã enfrentaram, nesta quarta-feira, obstáculos para iniciar negociações formais sobre um possível acordo de paz, em meio a um cenário em que ambos os lados sustentam publicamente estar em posição de superioridade no conflito.
Diplomatas ouvidos sob condição de anonimato indicam que Washington apresentou um plano com 15 pontos, que inclui a exigência de desmantelamento integral do programa nuclear iraniano, além da imposição de restrições severas ao desenvolvimento e à posse de mísseis.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que as forças iranianas teriam sido enfraquecidas após semanas de ofensivas conduzidas por Estados Unidos e Israel. “É por isso que vocês estão começando a ver o regime buscando uma saída”, declarou.
Irã impõe regras e nega intenção imediata de negociar
Autoridades iranianas, contudo, rejeitam a narrativa de derrota. Em pronunciamento transmitido pela televisão estatal, um porta-voz do governo afirmou que qualquer interrupção das hostilidades dependeria de compensações financeiras por danos de guerra e do reconhecimento, por parte de Washington, do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz — uma das rotas mais estratégicas para o escoamento global de petróleo.
Segundo o representante, Teerã não aceitará que o presidente americano “ditasse o momento do fim da guerra”. Em linha semelhante, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, declarou em entrevista que o país não tem intenção, neste momento, de abrir negociações formais.
Apesar do discurso público, interlocutores indicam que autoridades iranianas sinalizaram, em conversas reservadas realizadas na véspera, disposição para discutir um possível cessar-fogo, o que mantém aberta uma janela diplomática.
Israel intensifica ofensiva para enfraquecer capacidades militares iranianas
Diante da possibilidade de um acordo antecipado, Israel ampliou sua atuação militar. O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu autorizou uma série de ataques concentrados ao longo de 48 horas, com foco em estruturas ligadas à indústria de defesa iraniana, segundo fontes com conhecimento direto das decisões.
O movimento reflete a preocupação de Tel Aviv com a hipótese de encerramento do conflito antes que objetivos estratégicos — como a neutralização do programa de mísseis balísticos e a contenção das capacidades nucleares iranianas — sejam alcançados.
Escalada regional amplia riscos e tensão internacional
O conflito também se intensificou em diferentes frentes no Oriente Médio.
As forças iranianas afirmaram ter lançado mísseis de cruzeiro contra o porta-aviões americano Abraham Lincoln, conforme noticiado pela agência semioficial Mehr. O ataque teria ocorrido após alertas de autoridades navais iranianas sobre a aproximação da embarcação.
No campo marítimo, o Estreito de Ormuz permanece como ponto crítico. O Irã comunicou à autoridade marítima da ONU que embarcações consideradas “não hostis” poderão transitar com segurança. Ainda assim, analistas avaliam que a sinalização dificilmente será suficiente para restaurar a confiança de grandes operadores do transporte de petróleo.
No Líbano, forças israelenses realizaram ataques na região sul de Beirute — área de influência do Hezbollah — além de outras localidades ao sul do país. Segundo autoridades, também foram atingidas infraestruturas financeiras associadas ao grupo.
Já no Iraque, o governo convocou um representante diplomático dos Estados Unidos para apresentar uma “carta de protesto contundente”, após um ataque que deixou sete mortos e 13 feridos em uma base militar vinculada às Forças de Mobilização Popular. A autoria da ação não foi confirmada, mas episódios semelhantes envolvendo milícias alinhadas ao Irã têm desencadeado respostas militares americanas.
Número de vítimas evidencia dimensão humanitária do conflito
O impacto humano da guerra continua a crescer. De acordo com o embaixador iraniano nas Nações Unidas, ao menos 1.348 civis morreram no país desde o início das hostilidades — número que não é atualizado desde 11 de março. Organizações independentes elevam essa estimativa para mais de 1.440 mortes.
No Líbano, autoridades locais relatam cerca de 1.100 mortos. Em Israel, ao menos 15 pessoas perderam a vida em ataques atribuídos ao Irã. Já entre militares americanos, foram confirmadas 13 mortes até o momento.
O cenário reforça a complexidade de uma eventual negociação, em um conflito que avança simultaneamente nos campos militar, diplomático e humanitário.

