A fé move montanhas – mas, muitas vezes, em um mundo de interesses poderosos que se impõem até sobre o amor verdadeiro, a montanha removida acaba por cair sobre o próprio fervoroso crente. E ele ali fica, preso, sem autonomia para conduzir a própria vida, necessitando de auxílio até para afirmar, para si mesmo, quem é.
Nada é absoluto em si. Tudo carrega o suficiente para ser e não ser aquilo que aparenta. A aparência, portanto, é apenas um estágio transitório do que ainda deixará de ser. Naquilo que é essencial, há inúmeras miudezas que parecem dispensáveis, mas sem elas a estrutura não se sustenta. Tudo que é pode deixar de ser — e, por vezes, deveria não ser, se o amor verdadeiro assim exigisse. Este, afinal, é maior do que tudo o que se diz e até do que se cala.
Daí a indagação que ensina: “Se o seu burro cair num poço, deixá-lo-á lá, porque é sábado?”. A lição é clara: não se deve agir guiado por rigidez sem sentido. Vá e salve o necessitado, porque “o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado”.
O valor do ser humano não se submete ao trabalho que realiza. Gente é o que se constrói por si, ainda que pelo próprio esforço — mas o trabalho jamais deve se sobrepor à dignidade de quem o executa.
Afonsinho era um menino diferente. Conversava com a própria sombra, com o vento, gritava para os passarinhos como outras crianças gritavam entre si. Ria das formas das nuvens vagando no céu. O pai costumava dizer: “Esse menino nasceu p’ras coisas que não adianta a vida: é avoado, não compreende as coisas ensinadas no falar da gente. Mas, óia, sempre atende o mando: vê a gente fazer e faz igual, mas no seu prazo…”.
Na pequena roça para onde era levado, mais como tentativa de ocupá-lo do que por necessidade, Afonsinho realizava todas as tarefas com dedicação. Carpía, obedecia, executava tudo com esmero, no seu próprio ritmo, sem queixas ou preguiça. Trabalhava em silêncio, com uma alegria serena e quase desconcertante, como se não conhecesse o cansaço. Com o tempo, o pai passou a nutrir um afeto ainda maior por ele — e até certa culpa ao lhe impor tarefas: “Será certo pedir isso pr’ele?”
Com o passar dos anos, veio o reconhecimento: “Afonsinho é trabalhador!”. Ainda assim, mantinha seus hábitos singulares — falava sozinho, sorria sem motivo aparente, não se preocupava com ganhos ou resultados materiais.
Diante das dificuldades com a escola e das zombarias dos colegas, o pai decidiu retirá-lo dos estudos. “Margarida, antes e além de escola tem vida”, disse à esposa. “Vamos deixar o bichinho viver sem essa agonia. Ele não tem futuro com o saber dado lá.”
A mãe discordou. Como toda mãe, mantinha esperança de que o filho pudesse aprender. Carregava, com ele, as dores e inquietações de um mundo que exige normalidade e produtividade. “José, ele precisa de aprender o que a gente não sabe dar. Quem sabe, de repente, ele consiga…”, insistiu.
Prevaleceu a decisão do pai. Não por dureza, mas por proteção — queria poupar o menino das crueldades alheias. Sabia, ainda que intuitivamente, que o mundo guarda espaços onde germinam maldades, mesmo nas pequenas frestas da convivência.
Afonsinho cresceu. Tornou-se rapaz e aprendeu pouco das letras — apenas escrever o próprio nome: Afonso dos Santos Pereira. Mas desenvolveu uma habilidade rara: observava atentamente. Via, absorvia, compreendia. E então afirmava com convicção: “Eu fazo também!”.
Aprendeu o essencial da vida prática: capinar, colher, varrer, buscar lenha. Mas foi além. Desenvolveu talento para o trabalho com couro — fazia laços, arreios, bolsas, esculpia cabos de ferramentas. Tinha um cuidado quase artístico com o que produzia.
Frequentava a oficina de Salviano Guasqueiro, onde permanecia em silêncio, observando cada gesto. Assistia à precisão dos cortes, à delicadeza das costuras, ao manuseio das ferramentas. Às vezes, imitava os movimentos no ar, como se já dominasse o ofício. E sorria, encantado, ao ver o resultado final.
Não sentia falta da escola. Encontrava sentido na convivência com o pai, no trabalho, nos animais, na natureza. Parecia compreender a vida por uma via própria, sensível e silenciosa.
Mas o mundo nem sempre compreende o que foge ao padrão. Muitos o olhavam com desdém, incapazes de enxergar o valor de sua simplicidade. Não percebiam a riqueza invisível de quem vive sem interesse material, guiado apenas pelo sentir.
A mãe, por sua vez, vivia entre a preocupação e o amor. Perguntava-se sobre o futuro do filho. “José, como ele vai viver quando a gente não estiver mais aqui?”. O pai respondia com serenidade: “Viverá dele mesmo, do que ele é”.
Um dia, na casa de farinha, Margarida percebeu algo que lhe trouxe paz. Ao observar o cuidado e a satisfação de Afonsinho no trabalho, compreendeu: ele já era o que precisava ser.
Tomada por emoção, aproximou-se, acariciou-lhe a cabeça e o abraçou com ternura. “É trabalhador, meu filho”, disse, quase num sussurro.
José sorriu, satisfeito. Mas Margarida, ainda inquieta, completou: “Os outros precisam enxergar Afonsinho assim, também…”.



