Operação apura suposta ocultação de imóveis avaliados em mais de R$ 140 milhões; defesa ainda não se pronunciou
A Polícia Federal prendeu, na manhã desta quinta-feira (16), o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, no âmbito de uma nova etapa da operação Compliance Zero, que investiga possíveis irregularidades envolvendo negociações com o Banco Master, instituição associada ao banqueiro Daniel Vorcaro.
De acordo com os investigadores, há indícios de que Costa tenha ocultado seis imóveis — quatro localizados em São Paulo e dois em Brasília — que teriam sido recebidos como vantagem indevida. O patrimônio é estimado em mais de R$ 140 milhões e, segundo a apuração, estaria vinculado à aprovação de operações consideradas fraudulentas.
Procurada nas primeiras horas do dia, por meio de mensagem enviada às 6h45, a defesa do ex-dirigente ainda não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.
Prisões e papel dos investigados
Além de Costa, foi detido o advogado Daniel Monteiro, apontado pela investigação como responsável por estruturar contratos supostamente fraudulentos e por implementar um sistema paralelo de compliance no Banco Master.
Conforme a Polícia Federal, Monteiro também teria articulado a criação de empresas de fachada e mecanismos destinados a ocultar pagamentos ilícitos, além de obter ganhos financeiros relevantes com as operações investigadas.
Costa é alvo de apuração por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A decisão pela prisão considerou, entre outros fatores, a suspeita de ocultação patrimonial.
Defesa e trajetória no setor público
Ao longo das investigações, o ex-presidente do BRB negou irregularidades e sustentou que as decisões relacionadas às operações foram colegiadas, envolvendo diretoria, conselho de administração e comitês técnicos. Ele também afirmou que os instrumentos utilizados na aquisição de carteiras são práticas usuais no mercado financeiro.
Costa comandou o BRB entre 2019 e novembro de 2025, após indicação do então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Antes disso, teve carreira de cerca de duas décadas na Caixa Econômica Federal, onde ocupou a vice-presidência de Clientes, Negócios e Transformação Digital.
Auditoria reforça suspeitas
No início deste mês, o BRB encaminhou à Polícia Federal o relatório final de uma auditoria independente conduzida pelo escritório Machado Meyer, com apoio da consultoria Kroll.
O documento aponta que as operações de aquisição de carteiras do Banco Master eram tratadas internamente como “negócio do presidente” e conduzidas sob pressão e urgência.
Segundo o relatório, as carteiras eram fragmentadas com o objetivo de evitar a submissão ao Conselho de Administração. Em alguns casos, operações bilionárias teriam sido analisadas e aprovadas no mesmo dia, inclusive sem a apresentação de relatórios obrigatórios previstos em contrato.
Operações bilionárias sob questionamento
Entre 2024 e 2025, cerca de 83% das operações do BRB envolveram ativos ligados ao Banco Master, proporção considerada atípica diante da ausência de mecanismos robustos de mitigação de riscos.
No período, o banco público adquiriu aproximadamente R$ 21,9 bilhões em carteiras, sendo que cerca de R$ 12,3 bilhões apresentam indícios de inconsistências estruturais, falta de lastro e irregularidades documentais.
As investigações também apontam suspeitas envolvendo contratos inadimplentes e registros em nome de pessoas falecidas.
Indícios de tentativa de sustentação financeira
Um dos elementos reunidos pela Polícia Federal inclui uma anotação na agenda da ex-diretora de Controle e Riscos do BRB, Luana de Andrade Ribeiro, datada de julho do ano passado, indicando que Costa teria determinado a aquisição de carteiras com o objetivo de sustentar financeiramente o Banco Master.
A hipótese investigativa sustenta que a instituição não dispunha de recursos suficientes para honrar títulos emitidos no mercado, tendo recorrido à aquisição de papéis supostamente fabricados pela Tirreno Consultoria, sem desembolso financeiro, para posterior revenda ao BRB.
Após o Banco Central rejeitar a tentativa de aquisição do Master pelo BRB e restringir novas compras de carteiras, parte desses ativos teria sido substituída — ainda assim sob suspeita de irregularidades.
Em depoimento prestado em 30 de dezembro de 2025, Costa afirmou não haver “evidência concreta” de problemas nas carteiras originadas pela Tirreno.
Participação societária sob investigação
As apurações também alcançam operações de aumento de capital realizadas pelo BRB em 2024, que totalizaram R$ 1 bilhão.
Segundo a investigação, estruturas indiretas teriam permitido que fundos ligados ao Banco Master participassem das aquisições de ações, apesar de restrições. Após essas movimentações, Daniel Vorcaro, seu ex-sócio Maurício Quadrado e o gestor João Carlos Mansur passaram a deter, juntos, 23,5% do capital do banco.
Com base nos elementos coletados, a auditoria aponta que Costa teria articulado uma “operação triangulada e com elementos suspeitos de simulação” para viabilizar essas participações.
A defesa do ex-presidente do BRB nega irregularidades e afirma que todas as movimentações foram devidamente comunicadas ao Banco Central, incluindo a entrada do fundo Verbier como “participante qualificado” no capital da instituição.
Histórico da operação
Na fase inicial da operação Compliance Zero, deflagrada em 18 de novembro de 2025, Costa já havia sido afastado do cargo por 60 dias, por decisão judicial fundamentada em suspeitas de gestão fraudulenta, temerária e organização criminosa.
Ele foi demitido no dia seguinte pelo governo do Distrito Federal e substituído por Nelson Souza, ex-presidente da Caixa Econômica Federal.



