Hoje, ao me recolher em mim mesmo, sinto que o tempo já não corre como antes. Ele caminha ao meu lado, em silêncio, como um velho companheiro que não precisa mais dizer nada para ser compreendido.
Estou no meu entardecer.
E, curiosamente, não encontro tristeza nessa palavra. Encontro beleza.
Outro dia, tive contato com a mensagem do livro “Ao Entardecer de uma Existência”, trazido pela sensibilidade de Alceu Costa Filho, sob a inspiração de Cornélio Pires. Ali vi retratada a história de alguém que chegou ao fim da vida carregando pesos, silêncios e ausências.
Confesso que me detive por instantes.
Pensei em mim.
Pensei nos caminhos que trilhei, nas escolhas que fiz, nos momentos em que poderia ter sido mais e não fui. Porque, sim, também tenho minhas faltas, meus desvios, minhas imperfeições, como todo ser humano que se propôs a viver.
Mas, ao contrário daquele personagem, não me encontrei vazio.
Encontrei-me cheio.
Cheio de lembranças que me aquecem.
Cheio de rostos que ainda vivem em mim.
Cheio de histórias que o tempo não conseguiu apagar.
Percebi, então, que o entardecer não é igual para todos.
Há quem chegue a ele com o peso do que não viveu.
E há quem chegue com a leveza do que, mesmo imperfeito, foi vivido com verdade.
Hoje, quando olho para trás, não vejo apenas o que faltou. Vejo, sobretudo, o que foi possível.
Vejo as decisões difíceis que tomei.
Vejo o trabalho que escolhi quando poderia ter escolhido o descanso.
Vejo a família que construí com amor.
Vejo os amigos, as perdas, as saudades e até as dores, que também foram mestras silenciosas.
Se há arrependimentos, eles existem, mas não me paralisam. Eles apenas me lembram que fui humano.
E talvez seja isso que mais me conforta, saber que vivi.
Não uma vida perfeita, mas uma vida real.
O livro me ensinou que há quem desperte apenas no final da jornada. Eu, com humildade, agradeço a Deus por ter despertado ao longo do caminho, ainda que lentamente, ainda que entre erros e acertos.
Hoje, sinto que dentro de mim há mais gratidão do que lamento.
Gratidão pela esposa que caminhou ao meu lado.
Gratidão pelos filhos que a vida me confiou.
Gratidão pelos dias simples, que na época pareceram comuns, mas hoje se revelam preciosos.
E, acima de tudo, gratidão por ainda estar aqui, sentindo, pensando, recordando, escrevendo.
Se este é o meu entardecer, eu o recebo de braços abertos.
Porque ele não me fala de fim.
Ele me fala de continuidade.
Sinto, no mais íntimo do meu ser, que a vida não se encerra no apagar da luz do corpo. Ela apenas muda de paisagem, como o sol que desaparece de um lado para nascer do outro.
E eu, que aprendi a contemplar a luz, não tenho medo da noite.
Hoje, escrevendo estas palavras, percebo que o maior presente que a vida me deu não foram os bens, nem as conquistas, nem os planos realizados.
Foi a consciência.
Consciência de que amar valeu a pena.
Consciência de que tentar já foi uma vitória.
Consciência de que viver sempre foi o verdadeiro propósito.
Se eu pudesse resumir o que sinto neste momento, diria apenas:
Estou em paz.
Porque, ao olhar para minha história, não vejo apenas o homem que fui.
Vejo, com serenidade, o homem que me tornei.
E isso, para mim, já é tudo.




