Disputa por governadores revela vantagem do petista no Nordeste, avanço da direita no Sul e Centro-Oeste e indefinição nos maiores colégios eleitorais do país
Base nordestina sustenta Lula, mas mostra sinais de desgaste
A pouco mais de meio ano do pleito presidencial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro intensificam a articulação de alianças estaduais em um cenário ainda pulverizado. Com pesquisas apontando equilíbrio, o apoio de governadores passou a ocupar papel central na estratégia de ambas as campanhas.
Mapeamento recente, publicado pelo Estadão, indica que Lula mantém hegemonia política no Nordeste, onde os nove governadores estão formalmente alinhados ao governo federal. A região segue como um dos pilares históricos do petista, embora apresente sinais de erosão. Levantamento do Datafolha mostra que a avaliação positiva do governo entre eleitores nordestinos recuou de 49% no início do mandato para 41% em março.
Apesar da base consolidada, divergências locais ainda exigem ajustes finos para evitar fissuras que possam comprometer a coesão regional.
Ofensiva de Flávio busca romper barreiras no Nordeste
De olho nesse cenário, Flávio Bolsonaro iniciou sua pré-campanha justamente pela região mais favorável ao adversário. A estratégia, segundo aliados, é ampliar a presença da direita em um território tradicionalmente resistente ao bolsonarismo.
Com agenda recente no Rio Grande do Norte e na Paraíba, o senador aposta em uma combinação de expansão territorial e consolidação de redutos já favoráveis. O movimento segue a orientação do senador Rogério Marinho, coordenador da pré-campanha, que resume: “O foco total agora está na construção, ampliação e estruturação dos palanques”.
Sul e Centro-Oeste consolidam base bolsonarista
Enquanto tenta avançar no Nordeste, Flávio reforça sua presença em regiões onde o bolsonarismo já demonstra força eleitoral. Sul e Centro-Oeste aparecem como territórios estratégicos, sustentados por alianças com governadores influentes.
Entre os principais apoios estão Jorginho Mello e Mauro Mendes. Ainda assim, o campo conservador enfrenta divisões internas, especialmente diante da possibilidade de candidaturas alternativas.
No Paraná, por exemplo, o governador Ratinho Júnior tende a apoiar um projeto próprio do PSD, evidenciando a fragmentação do bloco.
Sudeste concentra disputa decisiva
O eixo determinante da eleição, no entanto, está nos três maiores colégios eleitorais: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Juntos, os estados reúnem cerca de 63,8 milhões de eleitores — 41% do eleitorado nacional, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Para o cientista político Vinicius Alves, do IDP São Paulo, o peso desses estados é determinante: “A grande questão é que as eleições têm sido cada vez mais decididas por margens muito estreitas. Por isso, esses Estados que têm os maiores contingentes eleitorais se tornam arenas em que a disputa tende a se intensificar”.
Em Minas Gerais, o ex-governador Romeu Zema deixou o cargo para disputar a Presidência, transferindo o comando ao vice Mateus Simões. Embora mantenha candidatura própria, Zema é apontado como possível aliado de Flávio em um segundo momento.
Já em São Paulo, o senador conta com o respaldo do governador Tarcísio de Freitas, enquanto o campo governista aposta no ex-ministro Fernando Haddad para fortalecer a presença petista no estado.
No Rio de Janeiro, a saída de Cláudio Castro após confirmação de inelegibilidade pelo TSE adicionou instabilidade ao cenário, embora o estado permaneça como bastião do bolsonarismo.
Segundo o cientista político Leandro Consentino, do Insper, o quadro atual favorece Flávio nesses três estados-chave: “O Rio tem histórico bolsonarista; em São Paulo, há o apoio de Tarcísio; e, em Minas, Zema tende, em algum momento, a compor com Flávio”.
Estratégias regionais moldam campanha do PT
Diante desse cenário, o PT adota uma abordagem diferenciada por região. No Sudeste, a prioridade é ampliar alianças e construir frentes amplas contra o bolsonarismo. Já no Sul, a aposta recai sobre candidaturas mais ideológicas, enquanto no Nordeste o objetivo é consolidar nomes diretamente vinculados a Lula.
O deputado Rogério Correia destaca a importância dessa adaptação: “Os palanques estão sendo organizados com estratégia definida e tendem a ser decisivos no processo eleitoral, especialmente diante do cenário das pesquisas”.
A coordenação das alianças é conduzida pelo Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE), responsável por monitorar os cenários estaduais e ajustar a estratégia nacional.
Empate técnico reforça peso das alianças estaduais
O equilíbrio da disputa é evidenciado por pesquisas recentes. Levantamento Atlas/Bloomberg indica Flávio Bolsonaro com 47,6% das intenções de voto, contra 46,6% de Lula em um eventual segundo turno — um empate técnico.
Para analistas, esse cenário reforça o papel dos palanques regionais como fator decisivo. Como resume Consentino: “Em eleições competitivas, são esses arranjos que acabam inclinando o resultado para um lado ou para o outro”.
(Com Hugo Henud/Estadão)



