Pesquisas deslocam foco de alimentos isolados para hábitos alimentares consistentes, com impacto sobre inflamação, metabolismo e obesidade
Ao longo das últimas décadas, a ciência tem acumulado evidências robustas sobre a relação entre alimentação e risco de câncer. A abordagem atual vai além da busca por “superalimentos” e antioxidantes específicos e passa a observar o padrão alimentar mantido ao longo dos anos como fator determinante para a saúde.
Especialistas ressaltam que nenhum caso individual de câncer pode ser explicado apenas pela dieta, já que a doença resulta de múltiplos fatores, incluindo genética e ambiente. Ainda assim, quando os dados são analisados em larga escala populacional, tendências consistentes emergem.
Padrões alimentares à base de vegetais ganham destaque
Dietas que priorizam grãos integrais, frutas, verduras e fontes magras ou vegetais de proteína estão associadas de forma recorrente a menor risco de doenças cardiovasculares, diabetes e diferentes tipos de câncer. Um dos mecanismos envolvidos pode ser o impacto desses hábitos sobre os níveis de insulina e inflamação no organismo.
Níveis cronicamente elevados desses dois fatores são marcas da obesidade e da síndrome metabólica, condições que contribuem para o desenvolvimento do câncer. Segundo o epidemiologista Fred Tabung, da Universidade Estadual de Ohio, insulina e inflamação altas estimulam divisão celular excessiva, crescimento desordenado, danos ao DNA e bloqueio da morte celular — processos ligados à formação de tumores.
Alimentos como grãos integrais, frutas, hortaliças, leguminosas e oleaginosas concentram fibras, associadas a menor risco de câncer. A fibra acelera o trânsito intestinal, reduzindo o tempo de contato com possíveis carcinógenos, e ainda nutre bactérias benéficas do intestino, que ajudam a controlar a inflamação. Verduras de folhas verdes e vegetais de coloração amarelo-escura também aparecem ligados a melhores marcadores metabólicos quando inseridos em um padrão alimentar equilibrado.
Carnes processadas e vermelhas exigem moderação
A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classifica carnes processadas — como bacon, salsichas e embutidos — como carcinogênicas para humanos. Já a carne vermelha é considerada “provavelmente carcinogênica”. O tipo de ferro presente nesses alimentos, além de compostos formados no preparo em altas temperaturas, como grelhas e defumações, pode gerar substâncias capazes de danificar o DNA. Nitratos e nitritos usados na conservação também entram na lista de preocupações.
Pesquisadores recomendam evitar carnes processadas e restringir a carne vermelha a duas ou três porções semanais. Marinadas ácidas, com cítricos ou vinagre, podem reduzir a formação de compostos nocivos durante o preparo. Peixes, por outro lado, aparecem em estudos associados a menor risco de câncer.
Ultraprocessados sob suspeita crescente
Alimentos ultraprocessados — entre eles refrigerantes e produtos ricos em açúcar — vêm sendo cada vez mais ligados ao câncer. Além do alto teor calórico, que favorece obesidade e resistência à insulina, estudos laboratoriais indicam que aditivos químicos podem alterar a microbiota intestinal e prejudicar a barreira do intestino, favorecendo inflamação.
Uma grande pesquisa de coorte na França apontou que conservantes comuns estão associados ao aumento do risco de vários tipos de câncer, com destaque para mama e próstata. Parte significativa desses aditivos vem de produtos ultraprocessados, embora também estejam presentes em bebidas alcoólicas e alimentos industrializados, como frutas enlatadas.
A orientação é priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, ingredientes frescos ou congelados e preparações caseiras com itens tradicionais da cozinha.
Álcool: quanto menos, melhor
O consumo de álcool está relacionado ao aumento do risco de diversos cânceres, inclusive em níveis considerados leves. O risco é maior em quem bebe em excesso ou pratica episódios de consumo intenso, mas não há um nível totalmente seguro quando o assunto é câncer.
O organismo transforma o álcool em acetaldeído, substância tóxica para as células. A bebida também eleva o estrogênio — ligado a alguns cânceres de mama —, aumenta o estresse oxidativo e pode interferir no reparo do DNA. Estudos indicam que a ingestão elevada e constante de álcool ao longo da vida aumenta o risco de câncer colorretal, enquanto a interrupção do consumo tende a reduzi-lo.
Café, chá e laticínios entram na conta
O consumo moderado de café e chá — até três xícaras por dia — está associado a menores níveis de resistência à insulina e inflamação. As bebidas contêm compostos bioativos que ajudam a proteger as células contra danos, desde que não sejam acompanhadas de açúcar em excesso.
Laticínios e o cálcio presente nesses alimentos parecem exercer efeito protetor contra o câncer colorretal. Produtos fermentados, como iogurte natural, kefir e alguns queijos, também estão ligados à melhora da saúde intestinal e à redução de marcadores inflamatórios.
Obesidade é elo central entre dieta e câncer
A conexão mais sólida entre alimentação e câncer ocorre por meio da obesidade. Um vasto conjunto de pesquisas relaciona o excesso de gordura corporal a mais de uma dúzia de tipos de câncer, incluindo mama, colorretal, endométrio, fígado, rim e pâncreas.
O tecido adiposo eleva os níveis de estrogênio e, especialmente na região abdominal, estimula inflamação e resistência à insulina. Embora o peso corporal seja influenciado também por atividade física, genética e outros fatores, a dieta tem papel central nesse processo.
A prática regular de exercícios — ao menos 30 minutos de atividade moderada na maioria dos dias da semana — melhora a sensibilidade à insulina, reduz inflamação e auxilia no controle do peso. Pesquisas iniciais ainda investigam se medicamentos da classe GLP-1 podem impactar o risco de câncer, mas as evidências permanecem limitadas.
Manter um peso saudável e um bom perfil metabólico, afirmam especialistas, é uma das estratégias mais amplas de proteção — não apenas contra o câncer, mas também contra diabetes, doenças cardiovasculares e até demência.
(Com The New York Times)



