Esta crônica nasceu de uma conversa simples.
Daquelas que não anunciam profundidade, mas acabam abrindo um abismo manso dentro da gente.
Dias atrás, eu e minha irmã Hosana trocávamos fotografias antigas pelo WhatsApp.
Retratos amarelados.
Poses cuidadosas.
Olhares sérios, quase solenes.
Nossos pais.
Parentes.
Gente que já partiu há muito tempo, mas que ainda ocupa espaço na memória, como móveis antigos que a gente se recusa a jogar fora.
Entre uma foto e outra, depois de um silêncio que dizia mais do que qualquer comentário, ela escreveu:
“As gerações vão se passando, umas indo, outras chegando, o grau de parentesco vai se distanciando, até se perder no tempo.”
A frase ficou.
Não pediu resposta.
Não exigiu explicação.
Ficou ali, ecoando.
À primeira leitura, parece simples.
Mas basta deixá-la repousar um pouco dentro da gente para que revele seu peso real.
Ela não fala apenas de gerações.
Fala de despedidas silenciosas, daquelas que acontecem enquanto a vida segue normalmente.
O tempo não anda ao nosso lado.
Ele escorre.
Discreto, quase educado.
E, enquanto escorre, leva consigo rostos conhecidos, vozes familiares, gestos pequenos que um dia foram o centro do mundo.
Leva sem alarde.
Sem pedir licença.
Houve um tempo em que os mais velhos ocupavam o centro da casa.
Sentavam-se à cabeceira da mesa.
Repetiam histórias que já sabíamos de cor.
Ofereciam conselhos que pareciam óbvios demais para quem ainda não havia sido testado pela vida.
Naquele tempo, não sabíamos que estávamos vivendo um privilégio.
Acreditávamos que tudo aquilo era permanente.
Que aquelas presenças estariam sempre ali.
Hoje, muitos desses rostos vivem apenas nas fotografias.
Ou na lembrança que surge de repente, sem aviso, no meio de um dia comum.
E, ainda assim, continuam nos ensinando.
Talvez até mais do que antes.
As gerações se sucedem como ondas.
Uma se desfaz na areia enquanto outra se forma mais ao fundo, sem perceber que repete o mesmo movimento.
Quem chega traz pressa, sonhos grandes, planos longos.
Quem parte leva consigo um acervo invisível: experiências, erros, acertos, afetos.
Entre uma e outra, existe um intervalo delicado.
É ali que a saudade se instala.
Com o tempo, os laços mudam de nome.
O pai vira avô.
O avô vira bisavô.
Depois, transforma-se apenas numa fotografia guardada numa gaveta que quase não se abre mais.
O parentesco vai se esticando, afinando, perdendo contorno.
Chega um momento em que já não se sabe exatamente quem foi quem.
“Parente distante”, dizemos.
Distante no sangue.
Distante na convivência.
Distante na memória.
Mas houve proximidade.
Houve colo, houve riso, houve repreensão, houve cuidado.
Nada disso desapareceu.
Apenas mudou de lugar.
É curioso perceber como aquilo que parecia permanente se revela frágil.
As casas mudam.
As cidades crescem.
Os costumes se transformam.
O que antes era rotina vira raridade.
O que era óbvio passa a ser estranho.
E nós, quase sem perceber, vamos nos tornando os “antigos” da vez.
Aqueles que contam histórias enquanto os mais novos escutam com atenção educada, sem conseguir sentir tudo o que existe por trás das palavras.
A saudade nasce justamente aí.
Não como tristeza pura, mas como um misto de gratidão e ausência.
Saudade é lembrar com carinho e aceitar que não se pode voltar.
Ainda assim, algo resiste.
Enquanto alguém lembra.
Enquanto alguém conta.
Enquanto alguém escreve.
Cada memória compartilhada é uma pequena vitória contra o esquecimento.
Cada nome dito em voz alta reacende uma chama que parecia apagada.
Talvez esse seja o nosso papel ao envelhecer: servir de ponte.
Ligar o que foi ao que será.
Oferecer às novas gerações não apenas datas, mas sentidos.
Não apenas fatos, mas humanidade.
Porque o tempo pode até distanciar o parentesco,
mas não precisa apagar aquilo que nos une.
No fim, as gerações passam.
Umas vão, outras chegam.
Mas aquilo que foi vivido com amor nunca se perde totalmente.
Apenas muda de morada.
Sai do mundo visível
e passa a habitar o território sagrado da memória.




