Endividamento recorde em países do G7 pressiona juros, limita investimentos públicos e reduz margem de reação a crises
O avanço persistente da dívida pública, historicamente associado a países pobres, tornou-se um fator de preocupação crescente nas economias mais desenvolvidas. Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália e Japão acumulam passivos em níveis recordes ou próximos disso, cenário que pode comprometer o crescimento econômico e aumentar a instabilidade financeira internacional.
Internamente, o impacto é direto: recursos que poderiam ser destinados a saúde, infraestrutura, moradia, inovação tecnológica e educação passam a ser direcionados ao pagamento de juros. O aumento da necessidade de financiamento também eleva o custo do crédito, pressionando empréstimos empresariais e ao consumo, financiamentos imobiliários e o uso de cartões de crédito, além de contribuir para pressões inflacionárias.
Outro ponto de alerta é a redução da capacidade de resposta dos governos em momentos de crise. Mesmo em contextos de atividade econômica relativamente sólida e desemprego baixo — como ocorre nos Estados Unidos — o alto nível de dívida limita o espaço fiscal para ações emergenciais. “Você quer poder gastar alto e rápido quando precisar”, afirmou Kenneth Rogoff, professor de economia de Harvard.
Espaço fiscal mais estreito em tempos de incerteza
A combinação de dívida elevada e novas demandas de gasto preocupa autoridades. Uma eventual crise financeira, nova pandemia, conflito armado ou necessidade de ampliar redes de proteção social — seja por mudanças provocadas pela inteligência artificial ou por desastres climáticos — exigiria expansão rápida das despesas públicas. Com o endividamento já elevado, tomar recursos adicionais se torna mais difícil e caro.
Nos bastidores do Fórum Econômico Mundial, em Davos, ministros da área econômica demonstraram preocupação com a capacidade de financiar uma lista crescente de prioridades, que inclui desde o reforço de estruturas militares até a modernização de redes elétricas.
O aumento expressivo da dívida começou após a crise financeira de 2008, quando governos ampliaram gastos para amparar famílias e empresas enquanto a arrecadação caía. A pandemia de Covid-19 intensificou esse movimento, com programas de auxílio, paralisação das atividades e custos de saúde em alta, num contexto em que os juros passaram a superar o ritmo de crescimento econômico.
Segundo o Fundo Monetário Internacional, em seis países do G7 a dívida pública já equivale ou supera a produção anual de bens e serviços.
Envelhecimento, crescimento fraco e pressão por investimentos
Mudanças demográficas e baixo dinamismo econômico ampliam o desafio fiscal. Na Europa, no Reino Unido e no Japão, o envelhecimento populacional elevou despesas com saúde e aposentadorias, enquanto diminui o contingente de trabalhadores que sustentam a base tributária. Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de investimentos em infraestrutura e tecnologia.
Estudo encomendado pelo braço executivo da União Europeia aponta que o bloco precisaria ampliar em cerca de US$ 900 bilhões os gastos em áreas como inteligência artificial, redes energéticas integradas, supercomputação e qualificação profissional para manter competitividade. No Reino Unido, a modernização da infraestrutura na próxima década pode superar 300 bilhões de libras, além de recursos adicionais para o sistema público de saúde.
Tentativas de ajuste fiscal têm gerado forte reação social. Na Itália, onde a dívida corresponde a 138% do PIB, cortes em saúde e educação enfrentam resistência. Na França, a elevação da idade de aposentadoria provocou protestos, e o impasse político em torno do orçamento resultou em rebaixamento da classificação de risco do país.
Gastos militares e instabilidade geopolítica
O ambiente internacional mais tenso adiciona nova camada de pressão. As disputas entre Estados Unidos e China, a guerra na Ucrânia e a percepção de ameaça russa sobre a Europa impulsionam a ampliação dos orçamentos de defesa. Países da Otan concordaram em elevar gradualmente os gastos militares, enquanto o Japão também amplia significativamente sua área de defesa — apesar de já possuir uma das maiores dívidas do mundo, superior ao dobro de sua produção anual.
No Japão, a perspectiva de aumento adicional das despesas se intensificou com a convocação de eleições antecipadas e promessas de expansão de gastos e cortes de impostos. Propostas como a suspensão de tributos sobre alimentos e bebidas não alcoólicas podem custar dezenas de bilhões de dólares por ano.
O país financiou seu endividamento por longo período com juros muito baixos, mas o Banco do Japão iniciou a reversão dessa política em 2024. Segundo Rogoff, a mudança ocorre de forma gradual devido ao receio de instabilidade, já que títulos públicos estão amplamente distribuídos pelo sistema financeiro.
A elevação dos rendimentos dos títulos japoneses gerou turbulência nos mercados e levantou a possibilidade de que investidores do país — historicamente grandes compradores de títulos do Tesouro dos EUA — redirecionem recursos para o mercado doméstico, pressionando os custos de financiamento americanos.
Estados Unidos no centro das atenções
Os títulos do Tesouro dos EUA ainda são vistos como porto seguro, mas analistas apontam que a condução econômica e as disputas comerciais recentes aumentam incertezas. A dívida americana alcança cerca de US$ 38 trilhões, o equivalente a aproximadamente 125% do PIB.
Promessas de ampliação de gastos, incluindo forte aumento do orçamento militar, somam-se a um quadro de despesas com juros em alta. Os pagamentos líquidos de juros triplicaram nos últimos cinco anos, aproximando-se de US$ 1 trilhão e consumindo cerca de 15% do orçamento federal — atrás apenas da Previdência Social.
Para o economista William G. Gale, a trajetória de endividamento ameaça a liderança econômica americana e pode abalar a confiança de investidores no dólar e nos títulos do Tesouro. Além disso, transfere custos para as próximas gerações. Como resume o pesquisador, quanto maior o consumo atual financiado por dívida, menor será a capacidade de consumo no futuro.
(Com The New York Times)



