Presidente brasileiro conversou por 50 minutos com Donald Trump e condicionou eventual adesão do Brasil à definição clara de escopo e ao fortalecimento do sistema multilateral
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a proposta americana de criação de um Conselho da Paz e sugeriu que a iniciativa tenha atuação restrita à Faixa de Gaza. A conversa ocorreu às 11h desta segunda-feira e durou cerca de 50 minutos, conforme informou a assessoria do Palácio do Planalto. Durante o diálogo, os dois chefes de Estado trataram de “temas relacionados à relação bilateral e à agenda global”.
Ao abordar o convite dos EUA para que o Brasil integre o novo organismo, Lula defendeu que o foco da estrutura seja exclusivamente a situação em Gaza e que haja previsão de assento para a Palestina. Segundo o governo brasileiro, o presidente também reiterou a necessidade de uma reforma ampla da Organização das Nações Unidas (ONU), incluindo a ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança.
Escopo do conselho e posição brasileira
Embora Trump tenha mencionado o território palestino como eixo central da proposta, a Faixa de Gaza não aparece de forma explícita no estatuto do órgão. A indefinição sobre a abrangência do Conselho da Paz é um dos pontos que geram cautela em Brasília.
Os dois presidentes ainda acertaram uma visita de Lula a Washington, a ser realizada após compromissos do brasileiro na Índia e na Coreia do Sul, previstos para fevereiro. A data da viagem aos Estados Unidos será definida posteriormente, de acordo com o Planalto.
Resistências internacionais à proposta
Países de peso no cenário internacional já rejeitaram o convite americano ou ainda avaliam a iniciativa. Reino Unido, França, Espanha e Itália — aliados históricos de Washington na Europa — estão entre os que declinaram participação até o momento. Outras nações alegam precisar de mais tempo para compreender os objetivos e os limites do novo conselho.
O Brasil, assim como China e Rússia, segue analisando a proposta. A tendência, segundo interlocutores do governo, é de resistência, sobretudo diante da percepção de que o órgão — cuja presidência vitalícia foi assumida por Trump — poderia funcionar como instrumento da política externa americana.
De acordo com relatos de bastidores, caso o escopo seja formalmente limitado à situação em Gaza, aumentariam as chances de adesão brasileira. Auxiliares do presidente afirmam que o país não pretende conceder um “cheque em branco” à iniciativa, avaliando que isso poderia enfraquecer ainda mais o papel da ONU.
Críticas à falta de clareza
Na semana passada, o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Celso Amorim, declarou que ainda não há definição suficiente sobre a natureza e as implicações do convite americano. Segundo ele, o conteúdo da carta é confuso e se amplia ao longo dos anexos, o que, na prática, poderia representar um esvaziamento do papel da ONU, especialmente na área de paz e segurança — cenário classificado como “inaceitável”.
Reforma da ONU volta ao centro do debate
Em Brasília, a leitura é de que a proposta de Trump recoloca em evidência a discussão sobre a reforma do sistema multilateral, em especial do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Avalia-se que, sem mudanças estruturais, iniciativas paralelas tendem a ganhar espaço em um contexto de questionamentos ao multilateralismo.
Atualmente, o Conselho de Segurança tem cinco membros permanentes: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. A diplomacia brasileira sustenta, há décadas, a ampliação do grupo para incluir países emergentes, defendendo um modelo mais representativo e legítimo.
Segundo integrantes do governo, apenas um sistema multilateral fortalecido seria capaz de responder de maneira eficaz aos conflitos contemporâneos — objetivo que, na avaliação do Planalto, não é alcançado por mecanismos unilaterais ou com escopo pouco definido.



