Especialistas alertam que dormir menos de cinco horas por noite acelera o envelhecimento biológico do coração e compromete a saúde arterial tanto quanto o hábito de fumar
Embora o tabagismo seja historicamente consolidado como um dos principais vilões da longevidade, a medicina moderna volta seus holofotes para um hábito cotidiano muitas vezes negligenciado: a má qualidade do descanso noturno. Estudos recentes indicam que a privação crônica de sono pode ser tão — ou mais — prejudicial à saúde cardiovascular do que o cigarro, atuando como um catalisador do envelhecimento biológico do coração e elevando drasticamente a incidência de patologias graves.
O impacto fisiológico da ausência de descanso
A insuficiência de repouso não gera apenas fadiga; ela desencadeia uma cascata de reações bioquímicas que fragilizam o sistema circulatório. A médica psiquiatra Beverly J. Fang destaca que a vulnerabilidade é acentuada em janelas de descanso muito curtas. Segundo a especialista, “O risco é ainda maior quando o tempo de sono é inferior a cinco horas por noite. Alguns estudos indicam que essa relação pode ser especialmente acentuada entre as mulheres”.
A explicação reside na ativação exacerbada do sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de “luta ou fuga”. Sob privação, o corpo mantém níveis elevados de cortisol e uma frequência cardíaca persistente, o que culmina na hipertensão arterial sistêmica. O cardiologista Jack Wolfson detalha o dano vascular direto: “Os vasos sanguíneos perdem a capacidade de produzir óxido nítrico, o que dificulta o relaxamento das artérias. Com o tempo, dormir mal e por poucas horas aumenta significativamente o risco de infarto e insuficiência cardíaca”.
Desregulação sistêmica e envelhecimento precoce
Diferente de toxinas externas, a falta de sono corrompe a regulação interna do organismo. A quebra do ritmo circadiano — o relógio biológico — impede que o coração recupere sua homeostase, favorecendo estados inflamatórios permanentes. De acordo com o consenso entre especialistas, “Fumar é uma toxina cardiovascular poderosa, mas a privação crônica de sono provoca uma desregulação sistêmica em todo o organismo. Dormir mal leva à ativação constante do sistema nervoso simpático, inflamação crônica, desequilíbrios hormonais, disfunção metabólica e envelhecimento biológico acelerado”.
Diretrizes para a higiene do sono e preservação cardíaca
Para mitigar esses riscos, a medicina do sono recomenda a adoção de uma etiqueta noturna rigorosa, visando a redução de estímulos que mantêm o cérebro em estado de alerta.
Condutas a serem evitadas antes do repouso:
- Conflitos e Estresse: Iniciar discussões complexas ou conversas emocionalmente densas nas duas horas que antecedem o sono dificulta o relaxamento mental.
- Luminosidade Artificial: A exposição a luzes intensas inibe a produção de melatonina. Recomenda-se reduzir a iluminação ambiente três horas antes de deitar.
- Tecnologia e Telas: O uso de smartphones e televisores atua como um estimulante cognitivo, atrasando o início do ciclo de descanso.
- Alimentação Tardia: Ingerir alimentos imediatamente antes de deitar pode sobrecarregar o sistema digestivo e causar refluxo, fragmentando o sono.
- Ausência de Ritual: A falta de uma rotina de relaxamento impede que o corpo sinalize a diminuição da frequência cardíaca necessária para o sono profundo.



