Negócio envolvendo Augusto Lima ocorreu dias após o Banco Central denunciar indícios de crimes ao MPF; empresário é um dos investigados na Operação Compliance Zero
O Banco Central autorizou, em julho de 2025, a transferência de controle do Banco Voiter — então ativo do Banco Master — para o empresário Augusto Lima, mesmo com investigações em curso sobre suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito consignado. A decisão foi tomada poucos dias depois de a autarquia comunicar ao Ministério Público Federal indícios de irregularidades envolvendo o próprio Master.
Lima, ex-sócio relevante da instituição, foi preso em novembro na Operação Compliance Zero ao lado de executivos do banco, incluindo o controlador Daniel Vorcaro. Todos foram liberados mediante uso de tornozeleira eletrônica. O empresário e outros dirigentes foram convocados pela Polícia Federal para depor entre os dias 26 e 28 de janeiro.
Investigação sobre carteiras consignadas
As apurações tiveram início após a identificação de um fluxo atípico de R$ 12,2 bilhões do BRB para o Master, referente à compra de carteiras de crédito consignado nos primeiros meses de 2025. Questionado, o banco informou que os créditos haviam sido originados por duas associações de servidores da Bahia: Asteba e Asseba.
Após análise, o Banco Central concluiu que as entidades não tinham capacidade financeira para gerar os volumes declarados. Em nova resposta, o Master afirmou ter firmado parceria com outro originador de crédito. A partir desse ponto, a autarquia identificou uma série de novas inconsistências.
Em 15 de julho, o BC formalizou representação criminal ao MPF. Nove dias depois, em 24 de julho, autorizou a transferência do Banco Voiter para Lima.
Do Voiter ao Banco Pleno
O Voiter, antigo Indusval, encerrou 2024 com R$ 7,5 bilhões em ativos e estava sob controle do Master desde fevereiro daquele ano. Após a aquisição por Lima, a instituição passou a se chamar Banco Pleno, com foco em empresas.
Depois da prisão do empresário, o BC determinou seu afastamento da gestão cotidiana do banco, que continua operando normalmente.
Ligações com associações baianas
A decisão judicial que embasou as prisões aponta indícios de que Lima mantinha vínculo direto com as associações da Bahia usadas para justificar a origem das carteiras. Segundo o juiz federal Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília, o empresário possuía procurações para representá-las junto a instituições financeiras e compartilhava dados de contato com empresas de sua propriedade.
As duas entidades também foram alvo de mandados de busca e apreensão.
Trajetória no crédito consignado
Natural de Salvador, Augusto Lima construiu carreira no setor financeiro a partir da privatização da Ebal, em 2018. Do braço financeiro da antiga estatal surgiu o Credcesta, cartão de benefício consignado para servidores públicos.
Em 2019, Lima firmou parceria com o Banco Master para compartilhar o produto e, no ano seguinte, tornou-se sócio da instituição. O cartão se expandiu nacionalmente e passou a ser um dos principais motores do crescimento do banco no segmento consignado.
Em 2024, o Credcesta estava presente em 176 municípios de 24 estados. Relatórios financeiros apontavam avanço expressivo na carteira vinculada ao INSS.
Reclamações e suspensão pelo INSS
No fim de 2024, a intensificação da venda de carteiras passou a gerar reclamações, sobretudo na Bahia. Parte dos consumidores afirmava não reconhecer a contratação dos empréstimos.
Em outubro de 2025, o INSS suspendeu o convênio do consignado oriundo do Master, citando irregularidades como alto volume de queixas e ausência de autorização expressa dos tomadores.
Questionamentos sobre a aprovação do BC
Especialistas em direito financeiro afirmam que a transferência de controle de um banco exige análise rigorosa de solvência, liquidez e histórico do comprador, conforme a resolução 4.970 do Conselho Monetário Nacional.
Para o advogado José Andrés Lopes da Costa, do DCLC Advogados, a venda para um ex-sócio em meio a investigações deveria ter ampliado o nível de escrutínio. Segundo ele, o risco de atuação como terceiro interposto não pode ser ignorado.
O Banco Central, procurado, afirmou que não comenta casos relacionados ao Master por causa do sigilo. Técnicos da autarquia sustentam que a decisão seguiu os critérios legais.
No histórico apresentado ao TCU, o BC informou que Lima preenchia os requisitos normativos para assumir o Voiter.
Divergências sobre o vínculo com o Master
Há controvérsia sobre a data efetiva da saída de Lima do Master. Embora comunicados oficiais não tragam seu nome entre os dirigentes, registros da Receita Federal ainda o listavam como diretor. A decisão judicial o qualifica como sócio e diretor, classificação contestada pela defesa.
Os advogados afirmam que Lima deixou o banco em maio de 2024 e que as operações investigadas ocorreram após sua saída.
A Folha teve acesso ao acordo de desligamento, assinado em 28 de maio de 2024, prevendo a transferência de 33,3 milhões de ações ordinárias a Daniel Vorcaro, equivalentes a 18,62% do capital.
Estrutura societária opaca
No início de 2024, documentos indicavam que Lima detinha 25,89% do Master. Ao fim do ano, ele e Maurício Quadrado já não figuravam no quadro societário, substituídos por fundos que não revelam o investidor final.
Outro ex-sócio teve pedido negado
No mesmo dia em que aprovou a transferência do Voiter para Lima, o BC negou a compra do Letsbank por Maurício Quadrado, também ex-sócio do Master. A autarquia apontou incapacidade financeira e ausência de comprovação da origem lícita dos recursos.
Quadrado foi alvo de busca e apreensão na segunda fase da Operação Compliance Zero. Sua corretora, a Trustee DTVM, também aparece em investigações relacionadas a Daniel Vorcaro e ao empresário Nelson Tanure, além de ter sido citada na Operação Carbono Oculto por suspeita de vínculos com recursos ligados ao PCC.
Fundamentação da prisão
Na decisão, o juiz Ricardo Leite afirma que Lima teria papel central na estrutura que viabilizou a captação fraudulenta de recursos, utilizando associações de servidores como suporte para a narrativa de cessão legítima de carteiras de crédito.
Segundo o magistrado, a participação do empresário seria indispensável para o esquema que culminou na venda das carteiras ao BRB.
Linha do tempo societária
Daniel Vorcaro, Augusto Lima e Maurício Quadrado formaram o núcleo de controle do Master ao longo dos últimos anos:
2018 – Consórcio com participação de Lima adquire a Ebal e estrutura o Credcesta.
2019 – Vorcaro assume o Banco Máxima, que depois se tornaria o Master.
2020 – Lima e Quadrado ingressam como sócios.
2024 – Master compra o Banco Voiter; Lima assina acordo de saída.
2025 – BC questiona origem de R$ 12,2 bilhões em carteiras, denuncia indícios ao MPF e autoriza a transferência do Voiter para Lima.
Novembro de 2025 – Lima e executivos são presos na Operação Compliance Zero.
Dia seguinte – BC decreta a liquidação extrajudicial do Master.
(Com Folhapress)



