Com 23% das reservas mundiais, o país busca superar a exportação de minério bruto para se tornar uma potência tecnológica na era da energia limpa
Os elementos de terras raras (ETR) tornaram-se o novo “ouro” da economia moderna, ocupando o centro de uma acirrada disputa geopolítica. Esses minerais são componentes vitais para a transição energética e para a segurança nacional, sendo fundamentais na fabricação de desde semicondutores para smartphones e motores de carros elétricos até sistemas avançados de defesa, como radares e mísseis guiados.
Embora a China ainda exerça uma hegemonia dominante — detendo cerca de 40% das reservas e 60% da produção global — o Brasil consolida-se como o segundo maior detentor desses recursos. Estima-se que o subsolo brasileiro abrigue 21 milhões de toneladas de terras raras, o equivalente a 23% do total mundial, posicionando o país como uma alternativa estratégica para as cadeias de suprimento ocidentais.
Onde se concentram as maiores reservas brasileiras
De acordo com o mapeamento da Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Serviço Geológico do Brasil (SGB), a riqueza mineral brasileira está distribuída em diversas regiões, cada uma com características geológicas específicas:
- Goiás (Minaçu): Atualmente o principal polo de exploração. A região destaca-se pelas argilas iônicas, que facilitam a extração de elementos pesados e leves.
- Minas Gerais (Araxá, Poços de Caldas e Tapira): Depósitos associados a rochas alcalinas. A área é rica não apenas em ETR, mas também em nióbio, mineral no qual o Brasil já é líder mundial.
- Amazonas (Pitinga): Presença de xenotima em depósitos graníticos, representando uma fronteira importante para a mineração no Norte.
- São Paulo (Jacupiranga e Itapirapuã): Reservas históricas ligadas a complexos minerais específicos.
- Litoral (Rio de Janeiro e Bahia): Potencial em depósitos de monazita e ilmenita, localizados em paleoplaceres ao longo da costa.
De promessa a operação: o caso da Mina de Serra Verde em Goiás
Apesar do vasto potencial, a produção brasileira ainda é incipiente em comparação à escala global. Em 2024, o país contribuiu com apenas 20 toneladas, uma fração mínima das 390 mil toneladas produzidas mundialmente. Contudo, este cenário está em rápida transformação.
A operação da mina Serra Verde, em Minaçu (GO), iniciada em 2024, é o grande marco da produção comercial de ETR no Brasil. Sob o controle de consórcios internacionais, o projeto prevê a exportação de 5 mil toneladas métricas de óxido de terras raras ($REO$) por ano a partir deste ciclo de 2026. O sucesso deste empreendimento é acompanhado de perto por outras empresas, como a CBMM e a Foxfire Metals, que avançam em pesquisas em Minas Gerais.
O desafio da agregação de valor e o apelo da ciência nacional
O maior obstáculo para que o Brasil se torne competitivo não é a disponibilidade do minério, mas a sua industrialização. Atualmente, o país ainda foca na exportação do material bruto, perdendo a oportunidade de liderar a produção de ímãs permanentes e componentes de alta tecnologia.
Em uma carta publicada em agosto de 2025, o professor Osvaldo Antônio Serra, da USP, representando a SBPC e a SBQ, enfatizou a urgência de uma visão estratégica:
“Este pode ser o nosso momento de virada. O que a China fez nos anos 1980, o Brasil pode fazer agora. Investir em ciência. Criar políticas que obriguem a agregação de valor. Financiar tecnologias de separação. Reconstruir plantas-piloto. Fortalecer empresas brasileiras para inovar. Ligar a mineração à metalurgia, à química, à ciência de materiais e à indústria de ponta. Nós possuímos as reservas. Possuímos o conhecimento: inúmeros grupos de terras raras no Brasil, embora poucas patentes. Possuímos excelentes universidades. O que nos falta é visão estratégica e coragem política”.
Para especialistas, o momento é de transição: ou o Brasil se consolida como um fornecedor de insumos de alto valor agregado, ou continuará sendo apenas uma reserva estratégica para o desenvolvimento de potências estrangeiras.



