Disputa presidencial mais fragmentada desde 1974 ocorre em meio à ascensão da direita radical e desperta apreensão na comunidade brasileira
A comunidade brasileira em Portugal acompanha com atenção redobrada a reta final da eleição presidencial marcada para este domingo (18). Com 11 candidatos, o pleito é o mais pulverizado desde a redemocratização do país e reflete um cenário de forte instabilidade política e crescente polarização.
Ao longo da campanha, pesquisas chegaram a apontar empate técnico entre cinco postulantes. Mesmo nos dias finais, cerca de metade do eleitorado admite que ainda pode mudar o voto, o que amplia a incerteza sobre o desfecho.
Para a socióloga Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil de Lisboa, a principal preocupação é o fortalecimento do discurso anti-imigração, impulsionado por André Ventura, candidato do partido Chega.
“Boa parte da comunidade brasileira está apreensiva, com receio do que pode resultar desta eleição. Há mudanças em curso na política migratória e o risco é de um endurecimento ainda maior, além do aumento da discriminação e da xenofobia”, afirma.
Disputa fragmentada e avanço da direita radical
Ventura lidera as sondagens mais recentes, com 22,5% das intenções de voto, segundo o agregador do jornal Observador. Em seguida aparecem António José Seguro, ex-líder do Partido Socialista, com 20,9%, e João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, com 18,4%.
O grupo é completado pelo almirante Henrique Gouveia e Melo, conhecido por comandar a campanha nacional de vacinação contra a covid-19, com 15,1%, e por Luís Marques Mendes, apoiado pelo PSD, com 14,9%.
Analistas ouvidos pela BBC News Brasil consideram provável que Ventura avance ao segundo turno, marcado para 8 de fevereiro, embora avaliem como reduzidas suas chances de vitória, devido ao índice de rejeição superior a 60%.
“Ainda assim, um desempenho entre 30% e 35% no segundo turno representaria uma vitória política relevante, capaz de legitimar a agenda do partido e reforçar a percepção de crescimento”, afirma o cientista político António Costa Pinto, da Universidade Lusófona.
Fundado em 2019, o Chega saltou de 1,3% para mais de 20% dos votos em poucos anos. Nas eleições legislativas de 2025, conquistou 60 cadeiras, tornando-se a segunda maior força no Parlamento.
O papel do presidente no sistema português
Portugal adota um regime semipresidencialista, no qual o presidente é eleito por voto direto, mas o poder executivo cabe ao primeiro-ministro. Ainda assim, o chefe de Estado exerce influência decisiva no equilíbrio institucional.
“O presidente funciona como um poder moderador. Pode vetar leis, dar posse ao primeiro-ministro e, em situações extremas, dissolver o Parlamento”, explica a professora Joana Ricarte, da Universidade de Coimbra.
Por essa razão, as campanhas presidenciais tendem a valorizar atributos pessoais dos candidatos, mais do que suas vinculações partidárias.
Instabilidade política
A eleição ocorre em um ambiente de fragilidade governamental. Desde 2022, Portugal realizou três eleições legislativas, duas delas antecipadas. O atual governo, liderado pelo PSD, não possui maioria parlamentar e depende de acordos pontuais para aprovar projetos.
Nesse contexto, o presidente eleito poderá ter papel decisivo na duração e na estabilidade do governo, além de influenciar eventuais tentativas de derrubada do Executivo por meio de moções de censura.
Regras sobre imigração e nacionalidade
Outro ponto sensível é a política migratória. No ano passado, mudanças na Lei de Estrangeiros restringiram vistos de trabalho, dificultaram o reagrupamento familiar e eliminaram a possibilidade de regularização para quem entra como turista.
Além disso, o Parlamento aprovou alterações na Lei da Nacionalidade, elevando de cinco para sete anos o tempo mínimo de residência exigido para brasileiros. A norma foi vetada pelo atual presidente após questionamentos do Tribunal Constitucional e deverá ser reformulada.
“Esse tema continuará no centro do debate parlamentar, e um Chega fortalecido tentará pressionar por regras mais rígidas”, afirma Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa.
Cabe ao presidente vetar leis que considere incompatíveis com a Constituição, embora esse instrumento costume ser utilizado com cautela, sobretudo no primeiro mandato.
Xenofobia e discriminação
O possível fortalecimento do Chega também levanta temores sobre o aumento de episódios xenófobos. Embora Ventura evite ataques diretos aos brasileiros, seu discurso de exclusão direcionado a outros grupos é visto como um fator de normalização da discriminação.
“Quando esse tipo de discurso passa a ser legitimado no debate público, as agressões tornam-se mais frequentes e atingem todos”, alerta Ana Paula Costa.
Segundo ela, já há registros de aumento tanto no número quanto na gravidade de ataques contra brasileiros nos últimos anos.
A campanha de Ventura incluiu ações controversas, como outdoors direcionados a imigrantes asiáticos e mensagens contra a comunidade cigana, algumas retiradas por decisão judicial.
“Não podemos achar que estamos protegidos apenas porque não há ataques explícitos aos brasileiros. O ambiente de intolerância afeta a todos”, conclui Costa.
Um resultado com impacto além das urnas
Com inflação acumulada de 2,3% em 2025 e alta no custo de vida, a eleição presidencial de 2026 ocorre em um momento de sensibilidade social e política. O resultado poderá não apenas redefinir o equilíbrio institucional do país, mas também influenciar diretamente o futuro da política migratória e o clima social enfrentado por mais de meio milhão de brasileiros que vivem em Portugal.



