Não são três pessoas.
Sou eu.
Uma única vida atravessando o tempo, dividida em imagens que não competem entre si. Elas apenas se reconhecem. O menino, o jovem e o velho não se olham por vaidade. Se olham por gratidão. O tempo passou, mas não apagou quem fui.
Há histórias que não cabem em linha do tempo.
Cabem na memória.
O menino aparece primeiro. Pequeno no corpo, atento no olhar. Nasci na fazenda. Foi ali que vivi até os doze anos. A infância teve chão de terra, silêncio largo e aprendizado cedo. A vida não era fácil, mas era formadora. Aprendi a respeitar o tempo, o trabalho e os limites.
O menino observava mais do que falava.
Aprendia mais do que perguntava.
Guardava mais do que entendia.
A terra ensinava sem pressa. Nada vinha pronto. Nada crescia sem cuidado. O menino não sonhava alto ainda. Ele apenas vivia. E viver, naquele tempo, já era muito.
O tempo avançou.
E eu fui com ele.
Veio o jovem. Agora na cidade. Novo cenário, novos desafios. Estudei. Trabalhei. Descobri o mundo fora da porteira. Casei. Formei família. Troquei o horizonte aberto da fazenda pelas ruas, pelos compromissos, pelas responsabilidades.
O jovem tinha pressa.
Tinha planos.
Tinha certezas que o tempo trataria de revisar.
Foi a fase das escolhas. Algumas fáceis, outras nem tanto. O jovem acreditava que o amanhã estava sob controle. Não estava. Mas seguia assim mesmo. E isso também é viver.
O tempo não pede licença.
Ele simplesmente passa.
Hoje, aos 81 anos, não corro mais atrás do tempo, caminho com ele. Não preciso provar nada. O rosto traz marcas que não me incomodam. São registros. Cada linha é um dia vivido, não desperdiçado.
O velho olha diferente.
Não busca o futuro.
Revisa o caminho.
É agora que escrevo memórias. Não para ficar no passado, mas para organizá-lo dentro de mim. Escrever é revisitar, compreender, agradecer. Descobri que lembrar também é uma forma de permanecer.
E a fazenda?
Ela não permaneceu.
Onde nasci e cresci, hoje existem pastagens e lavouras. A casa não está mais lá. As cercas sumiram. O chão mudou de dono e de função. O tempo apagou o cenário, mas não a essência. Porque há lugares que deixam de existir no mapa, mas continuam vivos na memória.
A infância não mora mais na terra.
Mora em mim.
O rio da vida seguiu seu curso. Passou pela infância simples, pela juventude urbana, pela maturidade consciente. Nunca foi o mesmo, mas nunca deixou de ser rio. Assim foi a minha vida: mudou de forma, não de sentido.
“As Faces da Vida” não falam de idade. Falam de soma. O menino ainda vive em mim. O jovem ainda decide em silêncio. O velho aprende, todos os dias, a agradecer.
A vida não me dividiu em fases.
Ela me construiu em camadas.
E quando o tempo resolve parar por um instante, como nesta imagem, ele me lembra de algo essencial: não caminhei sozinho. Caminhei acompanhado de quem fui.
No fim, a maior vitória não é a força que passou, nem os sonhos que mudaram. É a consciência tranquila de ter vivido com verdade.
Porque o tempo passa.
Mas quem vive com sentido permanece.

“Entre saudades, natureza e memórias, Wilton lapida palavras como quem guarda tesouros do tempo.”



