Tratado vai além do comércio, amplia autonomia estratégica da região e oferece alternativa à influência de Estados Unidos e China
A assinatura do acordo de livre-comércio entre a União Europeia e os países do Mercosul, prevista para este sábado em Assunção, no Paraguai, marca uma inflexão na forma como a América do Sul enxerga sua inserção internacional. O debate, antes centrado nos ganhos econômicos, passou a ser dominado por considerações geopolíticas, em meio à reorganização do equilíbrio de poder global.
Mais do que um tratado comercial, o acordo passou a ser interpretado como uma oportunidade de reposicionamento estratégico diante de um mundo caracterizado por tensões entre grandes potências, protecionismo crescente e instabilidade institucional.
Reação ao novo unilateralismo internacional
A mudança de percepção ocorre, em grande parte, em resposta à política externa dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump. O aumento unilateral de tarifas, o afastamento de organismos multilaterais e a interferência em assuntos internos de outros países levaram União Europeia e Mercosul a apostar em um caminho oposto, baseado em previsibilidade, regras e cooperação.
Para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o acordo é “histórico sobretudo por sua importância geopolítica”, ao oferecer uma alternativa à lógica de confronto que domina parte das relações internacionais.
O analista político Thomas Traumann avalia que o nacionalismo econômico norte-americano acabou acelerando a conclusão do tratado. Segundo ele, ficou evidente, em ambos os blocos, a necessidade de diversificar parcerias e reduzir vulnerabilidades.
Segurança regional e fortalecimento institucional
No Mercosul, o acordo também é visto como um fator de segurança política. As intervenções e ameaças militares dos Estados Unidos em países da região reforçaram a percepção de que Washington busca consolidar sua influência hemisférica.
Para o Brasil, defensor histórico dos princípios de soberania e não intervenção, o tratado amplia o peso internacional do bloco e contribui para sua coesão interna. O chanceler uruguaio, Mario Lubetkin, classificou o momento como um “salto de qualidade” para toda a América do Sul.
O cientista político Oliver Stuenkel define o acordo como uma decisão estratégica de longo alcance. “Europa e América do Sul ampliaram suas opções e demonstraram que ainda é possível firmar compromissos baseados em regras”, afirmou à DW.
Minerais críticos e cadeias globais de valor
O tratado também reposiciona o Brasil no mercado internacional de matérias-primas estratégicas. O país concentra cerca de 20% das reservas globais de minerais críticos, essenciais para a produção de baterias, semicondutores, tecnologias energéticas e sistemas de defesa.
Em um contexto de forte dependência da China, que domina grande parte desse mercado, o acordo fortalece o papel brasileiro como fornecedor relevante e diversifica os fluxos comerciais.
Além disso, segundo Stuenkel, a América do Sul passa a ganhar maior atratividade para investimentos e mais peso em futuras negociações comerciais.
Assimetrias e riscos estruturais
Do ponto de vista econômico, no entanto, o tratado revela interesses assimétricos. Enquanto o Mercosul amplia o acesso para produtos agrícolas, a União Europeia obtém redução tarifária para bens industriais de maior valor agregado.
Estudo da Fundação Getulio Vargas aponta o risco de o acordo reforçar o papel da região como fornecedora de produtos pouco processados. “Há o perigo de os países do Mercosul permanecerem presos a uma estrutura primária de exportação”, afirma Mariana Fleischhauer, uma das autoras do levantamento.
Segundo ela, a concorrência europeia pode pressionar as indústrias locais, tornando indispensável a adoção de políticas industriais consistentes pelos governos sul-americanos.
Impacto econômico limitado
As projeções macroeconômicas também são moderadas. A FGV estima que o impacto de longo prazo sobre o PIB do Mercosul fique entre 0,3% e 0,5%, com maior efeito em economias menores, como Uruguai e Paraguai.
Os principais ganhos estariam na estabilidade de preços, previsibilidade regulatória e margens comerciais, mais do que em uma expansão significativa dos volumes exportados.
Ainda assim, o comércio com a União Europeia é visto como menos volátil do que com a China e mais previsível do que com os Estados Unidos, o que reforça seu valor estratégico.
Alternativa entre duas potências
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, que define a América Latina como área de influência de Washington, e o livro branco da China sobre a região, no qual Pequim explicita suas ambições, aumentaram o receio de que os países sul-americanos fiquem presos entre dois polos de poder.
Nesse cenário, o acordo UE-Mercosul surge como uma terceira via, capaz de ampliar o espaço de manobra diplomático e econômico da região.
Expectativas sob análise
O professor José Augusto Fontoura Costa, da Universidade de São Paulo, pondera que o tratado não deve ser superestimado. Para ele, o acordo busca conter a erosão das normas do comércio internacional, mas não é suficiente para restaurar o protagonismo europeu nem para alterar profundamente as estruturas de desenvolvimento da América do Sul.
No caso brasileiro, avalia, a dependência de commodities e de grandes parceiros continuará sendo um desafio estrutural.
Já a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, destaca que o acordo faz parte de uma estratégia mais ampla de diversificação comercial do Mercosul. Nos últimos anos, o bloco avançou em negociações com Singapura, EFTA, Emirados Árabes Unidos, Índia, Vietnã, Indonésia e Canadá.
Mais que comércio
Para analistas, o tratado confirma que o acordo UE-Mercosul ultrapassa em muito a lógica comercial. Trata-se de um instrumento de ampliação da autonomia estratégica da América do Sul em um mundo cada vez mais marcado por disputas de poder.
Manter opções abertas, diversificar alianças e preservar capacidade de escolha tornou-se, segundo Stuenkel, a principal estratégia possível para a região diante do novo cenário global.
( Com DW )


