A luz da manhã sempre chega primeiro.
Antes mesmo de abrirmos os olhos, ela se infiltra por alguma fresta esquecida na cortina e desenha no chão um traço tímido, quase um sussurro dourado.
É o mundo avisando, sem alarde, que a noite recolheu seu manto azul e devolveu o palco ao dia.
Não há espetáculo mais discreto.
E, ainda assim, nenhum mais grandioso.
Porque o nascer do dia nunca é apenas um nascer do dia.
É um convite.
E ninguém precisa vê-lo para que ele exista, basta perceber.
Há instantes que o mundo lá fora jamais imagina que testemunhamos. Como aquele segundo exato em que o sol toca o telhado, desperta a copa das flores e troca o silêncio por calor.
É simples.
É cotidiano.
Mas há algo ali que fala direto ao peito, como quem diz, em voz baixa:
Olha… você tem outra chance.
A vida, às vezes tão dura, tão urgente, tão carregada de deveres, entrega de mãos abertas um novo compasso.
O ontem, com suas sombras, mágoas, erros e poeiras, ficou para trás.
O tempo soprou.
Varreu.
E o hoje, esse recém-nascido, repousa em nossas mãos como um abraço oferecido.
Que cada amanhecer seja isso:
um bilhete de entrada para o que realmente importa.
Um lembrete suave, sem culpa, sem peso, sem marcas, de que ainda somos livres para escolher ser felizes.
O dia à nossa frente é uma folha em branco.
E há algo de profundamente humano, quase comovente, em ter o direito de reescrever, apagar, tentar outra vez.
A luz da manhã sempre avisa:
Você pode começar de novo.
A casa acorda devagar.
O cheiro do café sobe pelas paredes e faz morada no ar.
É curioso como esse perfume diz mais do que qualquer discurso.
Ele diz que a vida continua.
Que o mundo segue girando, mesmo quando estamos cansados demais para perceber.
Ninguém precisa comentar nada.
Basta sentir.
Porque recomeçar é um milagre silencioso, tão comum que, às vezes, passa despercebido.
Mas é milagre, ainda assim.
Abrir a janela é abrir o peito.
É permitir que o acaso entre, mova as coisas de lugar, traga respostas que só chegam quando deixamos de procurá-las com desespero.
A felicidade não mora no futuro, nem está guardada para um dia especial.
Ela vive aqui.
No intervalo entre um pensamento e outro.
No agora.
E isso muda tudo.
Não existe promessa de céu sem nuvens.
A vida não funciona assim, e ainda bem.
Às vezes chove.
E chove forte.
Mas até a chuva carrega um propósito:
limpar, preparar o terreno, amolecer o solo para que algo floresça.
A vida flui.
Sempre.
Mesmo quando não entendemos.
Mesmo quando parece que tudo parou.
E então, mais uma vez, o refrão silencioso do dia ecoa dentro de nós:
Que cada amanhecer seja um convite.
Que a luz da manhã lembre: nada está totalmente decidido.
O dia é seu.
A página é sua.
O risco é seu.
Aceite o presente que o sol deposita à sua porta:
a simples, corajosa e imensa possibilidade de viver.
O sol chamou.
A porta abriu.
O dia sorriu.
E, se você permitir…
Hoje pode ser lindo.
Hoje pode ser leve.
Hoje pode ser seu.
Seja feliz.


