Recorde de visitantes impulsiona economia, mas expõe falhas de planejamento, conflitos sociais e riscos ambientais em destinos brasileiros e internacionais
Enquanto o Brasil comemora o maior fluxo de turistas estrangeiros de sua história, o avanço acelerado do turismo de massa tem ampliado tensões em destinos populares, especialmente em cidades com infraestrutura limitada e áreas ambientalmente sensíveis. Especialistas alertam que, sem planejamento, o crescimento pode comprometer tanto a qualidade de vida dos moradores quanto a preservação dos próprios atrativos.
Crescimento sem controle e conflitos à vista
Casos recentes em Porto de Galinhas (PE) e Balneário Camboriú (SC), onde houve agressões envolvendo barraqueiros e visitantes, evidenciaram os efeitos colaterais da superlotação. As ocorrências foram associadas à ausência de regras claras, fiscalização insuficiente e crescimento urbano desordenado.
Após o episódio em Porto de Galinhas, a prefeitura de Ipojuca proibiu a cobrança de consumação mínima nas barracas de praia. Medidas semelhantes foram adotadas em outros destinos: Niterói (RJ) fixou teto para aluguel de barracas; Florianópolis (SC), Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP) reforçaram a fiscalização.
Taxas e limites entram no radar
Além das regras comerciais, cresce a adoção de mecanismos de controle de acesso em áreas de proteção ambiental. Jericoacoara (CE), Ilha Grande (RJ) e Morro de São Paulo (BA) enfrentam disputas judiciais relacionadas à cobrança de taxas de visitação. Já nos Lençóis Maranhenses (MA), reconhecidos como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, gestores avaliam estabelecer um limite diário de visitantes.
A tendência segue exemplos internacionais. Monte Fuji, Machu Picchu, Veneza e destinos espanhóis como Mallorca adotaram restrições, redução de horários ou tarifas para conter a pressão turística.
Recorde histórico de turistas
Em 2025, o Brasil recebeu 9,28 milhões de turistas internacionais, um aumento de 37% em relação ao recorde anterior. Argentinos lideraram o ranking, seguidos por chilenos, norte-americanos, paraguaios e uruguaios. Paralelamente, o turismo doméstico também avançou de forma significativa.
Para a secretária-executiva do Ministério do Turismo, Ana Carla Lopes, o desafio é construir uma política integrada entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil, respeitando as particularidades de cada destino.
— A cobrança de taxa de visitação é um ponto de atenção. Em alguns casos, ela é necessária para conter o turismo de massa e preservar áreas mais vulneráveis — afirmou.
Porto de Galinhas como retrato do problema
O episódio de violência em Porto de Galinhas resultou no indiciamento de 14 pessoas e desencadeou novas denúncias de desordem urbana. Em 2025, a praia recebeu 1,2 milhão de visitantes, número muito superior aos 937 mil registrados em 2019.
Apesar do turismo ter elevado Ipojuca ao terceiro maior PIB de Pernambuco, o município ainda enfrenta problemas de saneamento, favelização e ocupação irregular. Estudos da Universidade Federal de Pernambuco já apontavam, desde os anos 2000, o risco do crescimento sem planejamento.
— Porto de Galinhas repete um padrão visto em várias cidades litorâneas: expansão urbana sem controle, infraestrutura deficiente e atraso na reação do poder público — resume o urbanista Zeca Brandão.
Lençóis Maranhenses sob pressão
Em Santo Amaro, uma das portas de entrada dos Lençóis Maranhenses, o número de visitantes saltou de 61 mil, em 2021, para quase 300 mil no ano passado. O Parque Nacional registrou aumento de 191% nas visitas desde a pandemia.
A principal preocupação, segundo empresários e gestores locais, é o risco de contaminação do lençol freático. Por isso, discute-se a criação de um teto diário de visitantes, além de regras mais rígidas para operadores turísticos.
— O turismo transformou a economia regional, mas os números atuais exigem cautela. Sem limites, os impactos ambientais podem ser irreversíveis — afirma o empresário Matteo Soussinr.
Planejamento ainda é exceção
Para a pesquisadora da USP Mariana Aldrigui, o Brasil ainda atua de forma reativa na gestão do turismo.
— As políticas públicas priorizam a promoção dos destinos, mas deixam de lado o ordenamento urbano. Quando o problema aparece, a cidade já está pressionada pela especulação imobiliária e pela falta de serviços — avalia.
Pressão também nos parques nacionais
Em 2024, os parques nacionais brasileiros receberam 12,4 milhões de visitantes, novo recorde. O ICMBio reconhece que o turismo de massa é uma realidade e afirma que trabalha para ampliar a infraestrutura sem comprometer a biodiversidade, com monitoramento constante e ajustes nas regras de uso.
O Ministério do Turismo, por sua vez, diz investir na diversificação da oferta turística e em programas de turismo responsável, como o Lixo Zero e a atualização do Mapa do Turismo Responsável.
Desafio do futuro
O avanço do turismo confirma seu papel estratégico para a economia brasileira. No entanto, especialistas alertam que, sem políticas consistentes de ordenamento e preservação, o próprio sucesso da atividade pode se tornar seu maior risco. O equilíbrio entre crescimento, qualidade de vida e proteção ambiental passa, cada vez mais, de escolha política a condição de sobrevivência dos destinos.
