Pacto histórico deve levar anos para vigorar plenamente, mas projeções indicam impacto bilionário nos negócios nacionais
Em um movimento considerado histórico e que reforça a defesa do multilateralismo, a União Europeia e o Mercosul formalizam, no próximo dia 17, o maior acordo comercial entre blocos já firmado no mundo. Apesar da assinatura, o processo de implementação será longo: cada país-membro precisará aprovar internamente os termos, o que pode levar anos.
O governo brasileiro, no entanto, trabalha para que o pacto entre em vigor ainda em 2026, sem depender da aprovação de Argentina, Uruguai e Paraguai. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou esperar uma votação no Congresso Nacional já no primeiro semestre.
“Se o Congresso brasileiro votar no primeiro semestre, nós não dependemos dos demais países do Mercosul. Já entra em vigência”, destacou Alckmin.
Segundo o ministro, a União Europeia é hoje o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China, movimentando cerca de US$ 100 bilhões em 2025. Ele ressaltou que o acordo simboliza uma resposta ao cenário de instabilidade geopolítica, marcado por disputas comerciais entre Estados Unidos e China.
Resistências e expectativas
Especialistas alertam que o histórico do Congresso brasileiro não é favorável a aprovações rápidas de acordos internacionais. Para o consultor Josemar Franco, da BMJ Consultores Associados, o processo pode levar de dois a três anos, mesmo em cenário otimista. Os efeitos sobre a balança comercial, segundo ele, só seriam sentidos a partir de 2030.
Ainda assim, o agronegócio e a indústria nacional devem pressionar pela aceleração das tratativas, já que ambos setores enxergam oportunidades de ampliar vendas para o mercado europeu.
Impacto econômico
De acordo com a ApexBrasil, o pacto pode gerar um aumento de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras. A redução imediata de tarifas beneficiará setores estratégicos, como:
- Máquinas e equipamentos de transporte
- Motores e geradores de energia elétrica
- Autopeças
- Aeronaves
Também haverá ganhos em segmentos como couro e peles, pedras ornamentais, produtos químicos e cutelaria.
As commodities agrícolas terão redução gradual de tarifas, com prazo de até 10 anos para zerar impostos sobre carne bovina, aves e etanol. A União Europeia, contudo, incluiu cláusulas de salvaguarda para proteger seus produtores rurais.
Dimensão global
Para o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, o acordo representa uma vitória do multilateralismo em um cenário de retração da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Estamos falando de uma população de mais de 700 milhões de habitantes e de um PIB próximo a US$ 22 trilhões. É o maior acordo econômico do mundo”, afirmou.
Em resumo: o pacto Mercosul–UE é visto como um marco histórico, capaz de reconfigurar cadeias de valor e abrir novas frentes de negócios para o Brasil. Embora os efeitos práticos só devam ser sentidos a médio e longo prazo, a assinatura já simboliza uma mudança estrutural nas relações comerciais internacionais.



