Vice-presidente do regime chavista chega ao comando do país em meio a operação militar dos EUA, negociações sobre petróleo e disputas internas de legitimidade
A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu interinamente a Presidência do país no sábado (3), após a captura de Nicolás Maduro por forças americanas durante uma operação militar especial conduzida pelos Estados Unidos. A mudança abrupta no comando ocorre em um cenário de forte tensão internacional, incerteza política interna e negociações estratégicas envolvendo o setor petrolífero venezuelano.
Filha de um ex-guerrilheiro marxista e figura de longa trajetória dentro do chavismo, Delcy, de 56 anos, construiu sua ascensão combinando discurso ideológico, pragmatismo econômico e articulação com setores empresariais e diplomáticos.
Perfil político e ascensão no chavismo
Delcy Rodríguez ganhou projeção no núcleo do poder após a morte de Hugo Chávez, em 2013, quando Nicolás Maduro assumiu a Presidência. Nomeada ministra da Comunicação, ela se consolidou como uma das principais vozes do novo governo e, posteriormente, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de chanceler da Venezuela.
Em 2018, foi promovida à vice-presidência e passou a exercer influência direta sobre áreas estratégicas do Estado, incluindo o comando do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN). Dois anos depois, acumulou a função de ministra da Economia, ampliando seu protagonismo na condução da política econômica.
Tecnocracia, petróleo e diálogo com o mercado
Apesar de integrar uma ala ideológica do chavismo, Delcy Rodríguez construiu uma imagem de gestora técnica e interlocutora confiável junto a empresários, investidores estrangeiros e diplomatas. Oficiais americanos ouvidos pelo The New York Times afirmam que sua atuação na administração das reservas de petróleo venezuelanas foi determinante para despertar o interesse do governo Donald Trump.
Segundo essas fontes, intermediários asseguraram a Washington que Delcy estaria disposta a preservar e estimular futuros investimentos energéticos de empresas americanas no país. Após o colapso econômico enfrentado pela Venezuela entre 2013 e 2021, ela liderou uma agenda de reformas pró-mercado, com privatização de ativos estatais e política fiscal mais conservadora, criando uma aparência de estabilidade antes da ofensiva militar dos EUA.
Contradições no discurso e disputa de legitimidade
As ambiguidades da nova fase ficaram evidentes em seu pronunciamento à nação, transmitido pela televisão estatal. Embora o presidente Donald Trump tenha afirmado que Delcy havia sido empossada como presidente interina e mantinha contato com autoridades americanas, aliados do chavismo — incluindo a própria dirigente — continuam a tratar Maduro como o líder legítimo do país.
Em suas declarações, Delcy reiterou que Nicolás Maduro seria o “único presidente” da Venezuela, enquanto a emissora estatal a apresentou formalmente como vice-presidente, evidenciando o impasse institucional e a tentativa de conciliar pressões externas e lealdades internas.
Sanções internacionais e histórico familiar
Delcy Rodríguez é alvo de sanções impostas pelos Estados Unidos, Canadá e União Europeia, acusada de participar e supervisionar ações de repressão contra opositores do regime. Sua trajetória política também carrega o peso de um passado familiar marcado pela militância radical.
Ela é filha de Jorge Antonio Rodríguez, líder marxista envolvido no sequestro do empresário americano William Niehous, mantido em cativeiro por três anos até ser resgatado em 1979. Preso e acusado pelo crime, o pai de Delcy morreu em 1976, aos 34 anos, após interrogatórios conduzidos por agentes de inteligência.
Relação com Washington e futuro incerto
O irmão mais velho de Delcy, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e principal estrategista político de Maduro, segue como figura central no xadrez político venezuelano. Já a relação do governo interino com os Estados Unidos dependerá, segundo autoridades americanas, da disposição da nova dirigente em atender às condições impostas por Washington.
Oficiais dos EUA afirmam que novas ações militares não estão descartadas caso os interesses americanos sejam contrariados. Apesar da condenação pública de Delcy à operação que resultou na captura de Maduro, um alto funcionário do governo Trump avaliou que ainda é cedo para definir sua postura definitiva e disse haver otimismo quanto à possibilidade de cooperação.
Durante coletiva em Palm Beach, Trump declarou que os Estados Unidos pretendem “governar” a Venezuela por um período indefinido e reestruturar o setor petrolífero do país. A declaração reforça a percepção de que o futuro imediato da Venezuela será moldado por uma combinação de tutela externa, disputas internas e interesses energéticos globais.
(Com The New York Times)



