O dia chegou.
O sorteio passou.
O sonho, educadamente, despediu-se.
Não bateu porta.
Não fez escândalo.
Apenas sorriu, deu um aceno e foi descansar por um tempo, como quem sabe que cumpriu sua função.
E foi bom enquanto durou.
Sonhar é isso: uma pequena ousadia do coração.
Um ensaio geral de alegria.
Uma licença poética da realidade que, às vezes, pesa mais do que deveria.
Durante alguns dias, a mente passeia livre.
Visita casas amplas, estradas longas, contas pagas com um simples gesto.
Tudo legítimo.
Tudo humano.
Nada exagerado, apenas o desejo silencioso de facilitar a vida.
O sonho não promete, apenas sugere.
E nessa sugestão mora o encanto.
Mas a vida, velha e sábia professora, lembra com delicadeza:
sorte é visita rara.
Trabalho é morador antigo.
E eu sigo com ele.
Volto, sem tristeza, aos padrões conquistados com esforço, disciplina e muitas renúncias.
Às conquistas pequenas, porém sólidas.
Àquilo que não deslumbra, mas sustenta.
A maturidade ensina algo precioso:
nem todo sonho foi feito para se realizar;
alguns existem apenas para nos lembrar que ainda sabemos desejar.
E isso já é uma forma de riqueza.
Não precisa ter 81 anos, para aprender que a verdadeira sorte não costuma fazer barulho.
Ela chega cedo, acorda junto, acompanha o café.
Está na saúde possível, não perfeita.
No corpo que responde.
Na mente que ainda reflete.
A sorte esteve em criar filhos, em compartilhar a vida, em construir histórias que não cabem em números.
Esteve nos erros que ensinaram mais que os acertos.
Esteve nas quedas que não impediram o recomeço.
O trabalho me deu sustento.
O esforço me deu dignidade.
A constância me deu equilíbrio.
E a vida, generosa sem alarde, ofereceu o suficiente, que quase sempre é muito.
Hoje sigo em frente como sempre segui.
Com menos pressa.
Com mais compreensão.
Com gratidão madura, daquela que não exige explicações.
Não guardo ressentimento do sonho que passou.
Ele cumpriu seu papel.
Trouxe leveza aos dias.
Deu assunto às conversas silenciosas.
Provou que o coração ainda sabe brincar, mesmo quando a razão já fez as contas.
Agora sigo vivendo como vivi antes:
com os pés firmes no chão,
o olhar sereno,
e a certeza tranquila de que nem tudo precisa acontecer para ter valido a pena.
Porque, no fim das contas,
a maior maturidade é perceber
que a vida já foi generosa demais.
E isso, convenhamos,
é sorte grande.



