Com quase 5 milhões de brasileiros vivendo fora do país, escolha do destino exige planejamento, análise de mercado e atenção às regras migratórias
Quase cinco milhões de brasileiros residem atualmente no exterior, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores. As motivações para deixar o país variam: busca por segurança, estabilidade econômica, melhor qualidade de vida ou a vontade de vivenciar novas experiências. Em grande parte dos casos, no entanto, a decisão é diretamente influenciada por oportunidades profissionais.
É nesse contexto que atua a consultora em carreira internacional Rachel Alvarez, de 40 anos. Após viver por dez anos em Londres, onde trabalhou na área de recursos humanos, ela retornou ao Brasil e, desde 2016, orienta profissionais que desejam construir carreira fora do país ou que já estão no exterior.
Planejamento antes da mudança
Para quem pretende trabalhar fora do Brasil, o ponto de partida deve ser uma análise detalhada do mercado de trabalho no país escolhido. Entender as exigências da função, identificar se há demanda por profissionais qualificados e avaliar como as próprias competências se encaixam nesse cenário é essencial. Outro fator decisivo é acompanhar o momento migratório do destino.
Segundo Alvarez, o visto não deve ser a primeira preocupação. “O foco inicial precisa ser conquistar a vaga. A parte migratória vem depois”, afirma. A elaboração do currículo também exige atenção especial. Diferentemente do padrão brasileiro, diplomas e certificados têm peso menor em processos seletivos internacionais. O que conta, segundo a especialista, são resultados concretos e experiências profissionais relevantes.
Destinos mais promissores para 2026
Não existe um país ideal para todos os profissionais. A escolha depende da área de atuação, do estágio da carreira, se a mudança será individual ou em família e do que se busca no exterior, como retorno financeiro, estabilidade ou qualidade de vida.
Alemanha
A Alemanha aparece no topo da lista elaborada pela consultora. Mesmo enfrentando desafios econômicos recentes, o país mantém uma das economias mais sólidas da Europa, além de oferecer infraestrutura de qualidade e políticas migratórias mais flexíveis para trabalhadores estrangeiros, incluindo brasileiros.
Profissionais ouvidos por veículos internacionais destacam a cultura organizacional, a segurança e a estabilidade financeira como pontos positivos. Desde 2024, o governo alemão permite que imigrantes qualificados permaneçam no país por até um ano enquanto procuram emprego, iniciativa que reforça a estratégia de atração de mão de obra.
Canadá
Outro destino de destaque é o Canadá, impulsionado por políticas migratórias consideradas favoráveis. O país abriga mais de 130 mil brasileiros, de acordo com o Itamaraty. Um dos diferenciais é o modelo de vistos voltado a casais, que permite que um dos parceiros trabalhe enquanto o outro estuda.
A consultora, no entanto, alerta para possíveis mudanças. Comunicados oficiais indicam que o governo canadense pretende endurecer regras nos próximos anos, o que transforma 2026 em uma janela estratégica para quem planeja a mudança. Em junho, autoridades anunciaram alterações no sistema de asilo e sinalizaram redução na concessão de vistos temporários de trabalho e residência.
Irlanda
Com uma comunidade brasileira estimada em 80 mil pessoas, a Irlanda também figura entre os destinos mais atrativos. A localização facilita o deslocamento pela Europa a baixo custo, e o país oferece atualmente três modalidades de visto de trabalho.
A recomendação, segundo Alvarez, é voltada a profissionais com boa qualificação. Brasileiros que vivem no país destacam a segurança e as oportunidades profissionais, embora apontem desafios como o inverno rigoroso, o alto custo de vida e a dificuldade de moradia.
Espanha
Ainda fora do grupo dos destinos mais procurados, a Espanha pode ganhar relevância nos próximos anos. Em maio, entrou em vigor uma norma que busca regularizar a situação de imigrantes em condição irregular, o que pode ampliar oportunidades legais de permanência.
A especialista sugere analisar a demanda de trabalho por província e acompanhar informações oficiais de imigração. O país também aparece entre os dez melhores destinos do mundo para aposentadoria, segundo levantamento da revista International Living.
Alternativas fora do eixo tradicional
Países com menor concentração de brasileiros também despontam como opções para 2026. Austrália, Nova Zelândia e Malta surgem como alternativas, especialmente para quem domina o inglês e possui qualificação alinhada às demandas locais.
Na Austrália, o clima semelhante ao brasileiro é um atrativo adicional. Já a Nova Zelândia enfrenta maior resistência, por ser considerada mais distante e fria, além de concentrar vagas em serviços gerais. Ainda assim, o país tem se mostrado interessante para profissionais do setor agrícola, que apresentou crescimento nos últimos anos.
Para cargos mais sêniores, China e Japão também entram no radar. Nesses casos, Alvarez aponta que a estratégia mais viável costuma ser a transferência interna por meio da empresa em que o profissional já atua no Brasil.
Destinos menos favoráveis em 2026
A avaliação sobre o “pior” país para trabalhar varia conforme o perfil do profissional. Ainda assim, alguns fatores são praticamente consensuais. Os Estados Unidos, embora continuem atraentes para áreas como engenharia, tecnologia e enfermagem, deixaram de ser a principal porta de entrada.
O endurecimento das regras migratórias reduziu a competitividade do país como primeira opção. Medidas recentes incluem a suspensão de novos pedidos de green card, o reforço na exigência de registro para estrangeiros e restrições à entrada de cidadãos de determinados países.
O Reino Unido também perdeu atratividade após o Brexit. Segundo a consultora, o país adotou uma postura mais restritiva em relação à imigração. Desde abril, turistas que antes não precisavam de visto passaram a ter de solicitar uma autorização de viagem, mesmo para estadias curtas. O visto de trabalho ficou mais limitado, embora ainda seja uma alternativa para profissionais altamente qualificados em áreas específicas, como saúde, engenharia e arquitetura.
Currículo e estratégia fazem a diferença
Independentemente do destino, a chance de sucesso no exterior está mais ligada à demanda do mercado do que ao prestígio da carreira no Brasil. Um erro frequente, segundo Alvarez, é apenas traduzir o currículo. “Currículo não se traduz, se adapta”, afirma.
A orientação é definir o país com base em uma pesquisa de mercado e, só então, ajustar o currículo aos padrões locais antes de iniciar as candidaturas. O uso de inteligência artificial nesse processo também exige cautela. “Recrutadores no exterior identificam facilmente quando uma candidatura foi feita por IA”, alerta a especialista.



