Em mensagem antecipada para o Dia Mundial da Paz, o pontífice condena a corrida armamentista e o uso bélico de inteligência artificial em zonas de conflito
Na noite desta quarta-feira (24), o Papa Leão XIV presidiu sua primeira celebração de Natal na Basílica de São Pedro, no Vaticano, marcando o início de um novo ciclo para a Igreja Católica sob sua liderança. Em meio às tensões geopolíticas que assolam regiões como Gaza, Ucrânia e Sudão, o pontífice elevou o tom diplomático, exortando as nações a abandonarem a lógica da violência em favor de um modelo de coexistência inspirado na trajetória histórica de Jesus Cristo.
Uma doutrina de desarmamento e cultura de paz
A Santa Sé antecipou as diretrizes da mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial da Paz, a ser celebrado em 1º de janeiro de 2026. No documento, o Papa apresenta o conceito de uma paz “desarmada e desarmante”, incentivando tanto cidadãos comuns quanto autoridades políticas a adotarem uma postura de “não-violência ativa”.
O líder da Igreja Católica criticou severamente o recrudescimento da corrida armamentista e o aumento exponencial dos orçamentos militares globais. Para o Papa, o discurso contemporâneo tem sido pautado pela disseminação da ideia de que a segurança nacional é indissociável do poderio bélico, o que ele classifica como um equívoco humanitário. Leão XIV defendeu que cada comunidade ao redor do globo deve se transformar em uma “casa de paz”, onde a hostilidade seja neutralizada pelo exercício do perdão e da justiça.
O alerta contra a “desresponsabilização” pela inteligência artificial
Um dos pontos mais contundentes da encíclica papal é a condenação do uso de inteligência artificial (IA) em campos de batalha. Citando o caso de Gaza, onde drones operados por algoritmos foram empregados para vigilância e ataques, o pontífice alertou para os riscos éticos da automação da guerra.
De acordo com o texto papal, a delegação de decisões letais a softwares representa um perigo à essência da civilização. “Está-se a delinear até mesmo um processo de desresponsabilização dos líderes políticos e militares, devido ao crescente ‘delegar’ às máquinas as decisões relativas à vida e à morte das pessoas”, denunciou. Para o sucessor de Pedro, essa tendência configura “uma espiral de destruição sem precedentes, que compromete o humanismo jurídico e filosófico do qual qualquer civilização depende e pelo qual é protegida”.
Repercussão ecumênica e o desafio do diálogo
No Brasil, as palavras de Leão XIV encontraram ressonância entre lideranças de diversas vertentes religiosas. O teólogo e pastor batista Marco Davi de Oliveira ressaltou a importância da paz interior como premissa para a paz social. Ao analisar a fala do pontífice, Oliveira destacou que “o papa está correto em falar da paz desarmante. Ele nos ajuda a compreender que devemos usar todas as nossas estratégias, nossa fé, nossa compreensão de mundo, para produção da paz. Primeiro, em nós mesmos, e, depois, no outro”.
Essa visão foi compartilhada pelo cantor gospel Kleber Lucas, que vê no Papa um “agente do Reino de Deus em um mundo que precisa praticar mais a paz”. Pela Federação Espírita Brasileira, o vice-presidente Geraldo Campetti reforçou a sintonia doutrinária: “o papa foi certo na sua análise, e o espiritismo vai na mesma sintonia, porque todos nós queremos ser felizes, não é? E não há como ser feliz plenamente se não houver paz”.
Contudo, vozes como a do babalaô e professor da UFRJ, Ivanir dos Santos, ponderaram que o impacto real da mensagem depende da coerência entre discurso e prática dentro da própria estrutura religiosa. Santos alertou que “o papa fala em uma direção, mas tem autoridades cristãs católicas que têm ação diferente”, cobrando que as palavras do Vaticano se convertam em gestos concretos de tolerância e combate ao desvio da fé para interesses políticos escusos.



