Proposta com 20 pontos prevê pacto de não agressão com a Rússia, retirada de tropas em regiões estratégicas e pacote de reconstrução econômica para a Ucrânia
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, detalhou nesta quarta-feira (24) uma nova proposta de paz apoiada pelos Estados Unidos para encerrar a guerra iniciada com a invasão russa em fevereiro de 2022. Estruturado em 20 pontos, o plano estabelece um acordo de não agressão com a Rússia, sustentado por garantias internacionais de segurança e por um amplo programa de recuperação econômica para o país.
Segundo Zelenski, o documento foi formulado após negociações entre Kiev e Washington e já teria sido encaminhado ao governo russo. O presidente afirmou a jornalistas que há expectativa de avanços nas conversas com o Kremlin nos próximos dias.
Negociações e mudanças no texto original
De acordo com o presidente ucraniano, a versão atual do plano é resultado de semanas de ajustes em relação a uma proposta anterior, que continha 28 pontos e incorporava demandas consideradas mais favoráveis à Rússia. As alterações, afirmou, aproximaram o texto das posições defendidas por Kiev e podem servir de base para futuros acordos destinados a pôr fim ao conflito.
O plano também prevê acordos bilaterais complementares entre Estados Unidos e Ucrânia, voltados à segurança nacional e à reconstrução do país após quase três anos de guerra.
Garantias militares e retirada de tropas
Entre os principais pontos, a proposta estabelece que a Ucrânia manteria forças armadas com cerca de 800 mil integrantes, além de receber compromissos formais de aliados para apoio à sua defesa. A retirada das tropas russas das regiões de Dnipropetrovsk, Mykolaiv, Sumy e Kharkiv é apontada como condição indispensável para a entrada em vigor do acordo.
Zelenski afirmou que, em caso de nova ofensiva russa, todas as sanções internacionais contra Moscou seriam automaticamente restabelecidas, além de uma resposta militar coordenada por aliados.
Impasses territoriais e a usina de Zaporizhzhia
Dois temas centrais seguem sem consenso: a questão territorial e o futuro da usina nuclear de Zaporizhzhia, ocupada por forças russas desde 2022. O presidente ucraniano declarou disposição para negociar uma solução para o Donbass, região que engloba as províncias de Luhansk e Donetsk, parcialmente ocupadas pela Rússia.
Enquanto Moscou insiste na cessão total dos territórios que reivindica, Kiev prefere o congelamento da linha de frente atual. Outra alternativa em discussão seria a criação de zonas econômicas especiais, hipótese que, segundo o governo ucraniano, exigiria garantias adicionais de segurança.
Nesse cenário, Zelenski afirmou que qualquer retirada de tropas ucranianas dependeria de validação por meio de referendo nacional e da presença de forças internacionais para impedir novas incursões russas.
Quanto à usina de Zaporizhzhia, a proposta prevê uma gestão conjunta entre Ucrânia, Estados Unidos e Rússia. O presidente, no entanto, demonstrou reservas, classificando a ideia como inadequada e pouco realista nas condições atuais.
União Europeia, ajuda internacional e referendo
O plano não menciona a adesão da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), tema sensível nas negociações. Zelenski reiterou que abrir mão dessa aspiração não está em discussão, embora reconheça resistências dentro da aliança.
Por outro lado, o texto prevê a entrada da Ucrânia na União Europeia em um prazo definido, além de acesso preferencial ao mercado europeu. Também está previsto um programa internacional de desenvolvimento, com a criação de um fundo específico, participação de empresas norte-americanas e linhas de financiamento do Banco Mundial.
Caso a Rússia aceite a proposta, o acordo deverá ser submetido a referendo popular na Ucrânia, aprovado pelo Parlamento e implementado em paralelo à realização de novas eleições presidenciais. Todo o processo estaria condicionado a um cessar-fogo inicial de 60 dias.
Reação de Moscou
Questionado sobre a proposta, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a posição russa será definida com base nas informações repassadas pelo enviado presidencial Kirill Dmitriev, que se reuniu recentemente com representantes dos Estados Unidos na Flórida. Peskov evitou comentar detalhes e afirmou que Moscou considera inadequado conduzir negociações por meio da imprensa.



