Após restrições impostas pela Arquidiocese, pároco mantém pregação social em celebração marcada por apoio popular e críticas à cúpula católica
A atmosfera na capela da Universidade São Judas, na zona leste de São Paulo, extrapolava o rito religioso tradicional na manhã deste domingo (21). Entre fiéis e ativistas, o sentimento predominante era de resistência. A celebração marcou a primeira aparição pública do padre Júlio Lancellotti após as recentes determinações de dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, que proibiram o clérigo de transmitir suas missas e atualizações pelas redes sociais.
Durante o momento de maior comoção da cerimônia, Lancellotti reafirmou sua postura diante das restrições e da visibilidade que seu trabalho alcançou: “Não quero ser exemplo para ninguém, só quero ser irmão de todos vocês, especialmente irmão dos mais pobres, dos abandonados”.
Restrições digitais e intervenção administrativa
O silenciamento digital do padre, conhecido por sua atuação junto à população em situação de rua, foi oficializado há uma semana. Além do veto às transmissões ao vivo, o pároco interrompeu a atividade em seus perfis oficiais, onde costumava debater teologia e questões sociais. A medida da Arquidiocese de São Paulo foi acompanhada pelo anúncio de uma auditoria financeira na Paróquia de São Miguel Arcanjo, onde Lancellotti atua há quatro décadas.
Questionado sobre as motivações, dom Odilo Scherer limitou-se a descrever o episódio como um “assunto de um bispo com seu padre”, enquanto a defesa de Lancellotti classificou o momento como um “período de recolhimento temporário”. No entanto, para os presentes, a ação é lida como uma retaliação política ao perfil progressista do clérigo.
O discurso social e a geopolítica da fé
Mesmo sob monitoramento, o tom da pregação não recuou. Lancellotti utilizou simbolismos para criticar o que chamou de “Ocidente prepotente” e o Norte global, em defesa das nações do Sul. No âmbito local, dirigiu críticas severas à desigualdade paulistana, afirmando que “os lugares mais iluminados de São Paulo” são justamente onde “não entra Jesus, lá não entram os pobres”. Segundo o religioso, “essas luzes ofuscam e não fazem chegar Jesus”.
A cerimônia contou com forte presença de grupos vulnerabilizados, incluindo mulheres transgênero que exibiam cartazes contra o silenciamento do amor ao próximo. O suporte da comunidade foi reforçado pela leitura de um manifesto por Raul Huertas, porta-voz da pastoral da comunicação, que declarou: “Quando ferem o padre, ferem também nossa paróquia”. Huertas ainda defendeu a conduta do líder religioso, pontuando que “muitos dizem que o padre é o santo, e somos suspeitos para opinar sobre isso. No entanto, podemos afirmar que o seu dia a dia é profundamente humano, pois ele faz exatamente o que Jesus nos pediu”.
Mobilização e acusações de censura ideológica
Fora do altar, a mobilização ganhou contornos políticos. Um abaixo-assinado em solidariedade ao padre já colhe centenas de assinaturas, atraindo inclusive pessoas não católicas. Entre o público, a percepção de perseguição é explícita. A professora Teresinha Pinto, presente no local, atribuiu as sanções a uma divergência ideológica, classificando as ordens superiores como um cerceamento injustificado de um trabalho de evangelização moderno e necessário.
O sentimento foi compartilhado por fiéis que vestiam camisetas em apoio ao padre. Para os apoiadores, a proibição do uso das mídias sociais configura um ato de censura contra uma obra assistencial que possui relevância pública. Ao final, Lancellotti manteve a identidade de seu ministério ao promover itens de um bazar beneficente, incluindo uma camiseta com a frase “Meu partido é o pão partido” — uma resposta direta aos slogans de polarização política que dominam o país.



