Polícia Federal apreende R$ 430 mil em dinheiro vivo em imóvel de Sóstenes Cavalcante; investigação aponta indícios de lavagem de dinheiro, uso de empresas de fachada e organização criminosa
O Supremo Tribunal Federal autorizou, na sexta-feira, uma operação da Polícia Federal contra os deputados federais Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy, ambos do PL do Rio de Janeiro. Eles são investigados por suspeita de desvio de recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar, verba destinada ao custeio de despesas do mandato.
Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão, agentes federais encontraram R$ 430 mil em espécie no apartamento funcional de Sóstenes, em Brasília. O dinheiro estava acondicionado em um saco de lixo dentro de um armário. O montante é significativamente superior ao valor em espécie declarado pelo parlamentar à Justiça Eleitoral em 2022, quando informou manter recursos apenas em instituições financeiras. Atualmente, Sóstenes lidera a maior bancada da Câmara dos Deputados.
Uso de servidores e empresas de fachada
De acordo com a investigação, os parlamentares teriam utilizado assessores indicados politicamente para operacionalizar o esquema. A suspeita é que recursos públicos destinados ao aluguel de veículos tenham sido desviados e posteriormente submetidos a mecanismos de lavagem de dinheiro.
Um dos contratos sob análise envolve a empresa Harue Locação de Veículos Ltda., formalmente registrada em nome de uma mulher que recebeu auxílio emergencial no valor de R$ 4.500 nos últimos anos. Segundo a Polícia Federal, a empresa pertenceria, na prática, a um assessor ligado ao gabinete de Jordy e seria administrada por familiares. A hipótese é que pagamentos eram realizados à locadora para, em seguida, serem reembolsados por meio da cota parlamentar.
Indícios considerados “robustos” pelo STF
Na decisão que autorizou as medidas, o ministro Flávio Dino destacou a existência de indícios consistentes de irregularidades. Entre os elementos reunidos estão movimentações financeiras fracionadas, com saques e depósitos abaixo de R$ 10 mil — prática conhecida como “smurfing”, utilizada para evitar comunicações automáticas aos órgãos de controle.
As apurações também identificaram trocas de mensagens que tratariam de pagamentos realizados “por fora”, além de diálogos extraídos de celulares apreendidos. Por determinação judicial, os sigilos telefônico e fiscal dos dois deputados foram quebrados no período de maio de 2018 a dezembro de 2024.
Funcionamento do esquema sob investigação
O foco das apurações é o uso irregular da cota parlamentar, benefício que cobre despesas como aluguel de escritórios, passagens aéreas, alimentação, locação de veículos e combustível. A Polícia Federal aponta que contratos de aluguel de carros teriam sido simulados, sem a efetiva prestação do serviço.
Em um dos casos, há indícios de que um veículo alugado com recursos públicos por Sóstenes, no Rio de Janeiro, era utilizado por sua filha. Os investigadores sustentam que os valores desviados eram posteriormente reinseridos no sistema financeiro por meio de contratos fictícios, com atuação coordenada de agentes políticos, assessores e particulares.
Reações dos parlamentares
Após a operação, os dois deputados afirmaram ser alvo de perseguição. Em declaração no Salão Verde da Câmara, Sóstenes disse que o dinheiro encontrado em seu apartamento teria origem na venda de um imóvel. Segundo ele, o valor não foi depositado em conta bancária por causa da rotina intensa de trabalho.
O parlamentar, no entanto, não apresentou detalhes sobre o imóvel negociado, nem esclareceu as razões para a transação ter ocorrido integralmente em espécie, prática considerada incomum em operações desse tipo.
Nas redes sociais, Jordy classificou a investigação como uma “perseguição implacável” e acusou a existência de “pesca probatória”. Em entrevista, afirmou que cabe ao parlamentar contratar o serviço mais vantajoso, não fiscalizar a estrutura interna das empresas prestadoras.
Operações anteriores e evolução do caso
Em dezembro do ano passado, a Polícia Federal já havia deflagrado a operação “Rent a Car”, com buscas em endereços ligados a assessores dos dois deputados. A investigação apontou, à época, possíveis fraudes na celebração e prorrogação de contratos de locação de veículos.
Conversas analisadas pelos investigadores indicam tratativas para renovação de contratos com valores ajustados e menções a pagamentos extracontratuais. Para a PF, esses elementos reforçam a suspeita de continuidade do esquema.
Gastos acima da média parlamentar
Levantamento realizado no fim de 2024 mostrou que Sóstenes teve despesas com aluguel de veículos próximas do dobro da média registrada por outros deputados. Ao longo do ano, seus gastos somaram cerca de R$ 137,9 mil, enquanto a média geral ficou em torno de R$ 76,8 mil. No caso de Jordy, as despesas com a mesma rubrica alcançaram aproximadamente R$ 65,4 mil, abaixo da média da Câmara e do próprio partido.
A investigação segue em andamento e apura possíveis crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.



