Há famílias que passam pelo mundo como quem atravessa uma estrada qualquer.
E há aquelas que ficam.
Ficam na terra.
Na memória.
No exemplo.
Criam raízes tão profundas que nem o tempo, nem as perdas, nem as distâncias conseguem arrancar.
A família Emiliano/Garcia é assim.
Sua história não se mede por datas frias.
Mede-se por mãos calejadas.
Por olhares cheios de fé.
Por corações que, mesmo feridos, nunca desistiram de recomeçar.
Era 1925.
João Estulano Garcia chegava a Goiás com sua família.
Pouso Alto, hoje Piracanjuba, abria-se em campos largos, terras férteis e um horizonte que parecia não ter fim.
Ali, sem saber, o destino preparava sementes.
Em 1936, dois caminhos se uniram.
Benedito Emiliano e Arlinda Garcia.
Dois jovens.
Dois sonhos simples.
Um mesmo propósito: viver com dignidade.
Da união nasceu mais que uma família.
Nasceu um modo de viver feito de trabalho, honestidade e amor silencioso.
Na Fazenda da Mata, em Estulânia, a vida seguia o ritmo da terra.
Plantava-se arroz.
Feijão.
Mandioca.
Gergelim.
Do engenho vinham o melado, a rapadura, a pinga.
Do terreiro, a galinhada fumegante reunia todos em volta da mesa.
A comida era simples.
O afeto, abundante.
Ali se aprendia, sem discursos, que a verdadeira fartura mora na união.
Em 1943, Benedito, com o apoio de João Estulano, ergueu o grupo escolar de Estulânia.
Não era apenas um prédio.
Era visão.
Era generosidade.
Era fé no amanhã.
Educação como herança coletiva, plantada para quem ainda nem havia chegado.
Mas o tempo também cobra.
Em 1951, a partida precoce do primogênito Barsanulfo trouxe um silêncio difícil de suportar.
A dor quase parou o mundo.
Mas não parou a família.
Transformou-se em força.
Vieram então os anos duros entre 1953 a 1955.
A seca levou lavouras.
Levou o gado.
Levou sonhos.
Restaram poucas coisas.
Um caminhão Ford 1946.
Uma casa simples em Campinas, bairro da jovem Goiânia.
E uma coragem teimosa de seguir em frente.
Em dezembro de 1957, a mudança definitiva.
Goiânia não era promessa, era realidade.
Ruas abertas mais pela esperança do que pelo asfalto.
E, mais uma vez, foi a fé que sustentou tudo.
Os filhos cresceram.
Formaram seus lares.
Espalharam pelo mundo os valores aprendidos na simplicidade.
Alguns partiram cedo.
Vanda.
Enéas.
Hélio.
Mas ninguém vai embora por completo quando deixa amor.
Eles permanecem.
Nas lembranças.
Nas preces silenciosas.
Nos reencontros em que o sorriso vem acompanhado de lágrimas mansas.
Hoje, o que permanece não é apenas uma história antiga.
É um legado vivo.
A família Emiliano/Garcia é como uma árvore antiga.
Raízes firmes.
Tronco marcado pelo tempo.
Galhos apontando para o céu.
Cada geração é um novo broto.
Cada lembrança, uma flor que insiste em não murchar.
Porque a verdadeira herança não se guarda em cofres.
Ela mora no exemplo.
Na fé.
Na coragem de recomeçar quando tudo parece perdido.
E enquanto houver alguém disposto a contar essa história,
enquanto houver quem se emocione ao lembrá-la,
ela continuará viva. Florescendo.
Como a própria vida.
Dura. Bela.
E teimosa em continuar.




