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Soja e milho secam e sementes ‘cozinham’ nos campos gaúchos

Lavoura de soja atingida por seca no Rio Grande do Sul (Foto: Reuters)

Não parece fevereiro no interior da região norte do Rio Grande do Sul.
Numa época do ano em que as lavouras de soja costumam recobrir os campos de verde, com plantas na altura de 60 ou até 90 centímetros, a paisagem é de pés mirrados, a poucos centímetros do solo, alguns já secos.
As plantações de milho que ainda se encontram também são de plantas miúdas, que carregam espigas malformadas.
A região é uma das mais afetadas pela estiagem que perdura desde o final de 2021, época do início da plantação de soja, num estado onde cerca de um terço dos 497 municípios é de economia agrícola.
Até esta quinta-feira (17), 408 –mais de 8 em 10– haviam decretado situação de emergência.
Segundo dados do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), desde novembro do ano passado, as chuvas têm ficado abaixo do esperado no estado, especialmente na faixa oeste. A estiagem atual é a mais severa desde o verão de 2011/12.
Em Espumoso, a cerca de 260 km de Porto Alegre, a última “chuva boa”, com média acima de 20 milímetros, tinha sido registrada na última semana de outubro; depois vieram apenas pancadas.
Ou previsões, que iam se tornando miragens. No final de janeiro, algumas chuvas até atingiram essa marca, mas foram insuficientes para alterar o cenário.
Amilton Rosa, 56, chegou a tentar o replantio em alguns trechos da lavoura de soja que tem no município, mas desistiu totalmente de usar 80 de seus 280 hectares.
“Não adianta plantar, vai fazer o quê? O custo é maior do que iria tirar”, diz ele.
“Tem uns lugares que pegaram um pouco mais de chuva, mas tem outra lavoura nossa que achávamos que ia dar 8 sacos por hectare, mas dá 4 ou 5 e olhe lá, se chover bem daqui para a frente. Ano passado, ano bom de chuva, colhemos 60”, avalia.
No estado, a distribuição das chuvas é irregular, observa Alencar Rugeri, diretor-técnico da Emater-RS. Em alguns casos, dentro da própria região ou município, choveu de um lado da estrada enquanto o outro ficou seco.
Segundo técnicos agrícolas da região e produtores, o diferencial da estiagem atual é a longa duração e o início ainda na época de plantio e germinação. O período escasso de chuvas na safra costuma ocorrer entre janeiro e fevereiro, com as lavouras já estabelecidas.
“Tem estágios da cultura em que, se chover, já não têm mais reflexo, porque as perdas estão consolidadas. Em outras, estamos ainda em fase de desenvolvimento vegetativo, enchimento de grão, e aí precisa chover. Tem que chover, inclusive, durante a colheita, porque não tem a umidade mínima necessária”, diz ele.
“Em termos econômicos essa vai ser a estiagem com maior impacto, porque temos a maior área [de plantio] da história, com potencial produtivo maior”, afirma ele, citando outra situação crítica em 2004/05.
A segunda estimativa para a safra de verão (2021/22) da Emater-RS aponta queda de 54,7% na produção de milho, passando da projeção inicial de 6,1 milhões de toneladas para 2,7 milhões – com base na cotação de 10 de fevereiro, R$ 5,2 bilhões em perdas.
Na soja, com 88 mil produtores atingidos, a projeção é de corte de 43,8% na estimativa inicial de produção, passando de 19,9 milhões de toneladas para 11,1 milhões e com impacto de R$ 27,8 bilhões. Os dados são uma média do estado; em alguns municípios, as perdas chegam a 90%.
“É como pegar uma motosserra e cortar o tronco da árvore, porque o que tínhamos de projeto, o que tínhamos planejado, se foi tudo. Vamos precisar de auxílio do governo para criar raízes, ganhar força e produzir”, afirma Delmar Rambo, 62, agricultor em Mormaço, que calcula ter perdido 98% da lavoura de soja.
As contas também preocupam os irmãos Derli, 50, e Clair Fath, 55, que plantam 30 hectares cada um em Tio Hugo, arrendando terras dos pais, que também contam com a lavoura como renda.
” [Esperamos] alguma ajuda para a gente poder se manter ou um abate das dívidas”, diz Clair. “Vamos tentar recuperar na safra de inverno alguma coisa, se existir recurso liberado para isso”.
“É uma perda grande, não sei se vamos conseguir 8 a 10 sacos por hectare. Costuma ser de 60 para cima”, diz Derli. “A preocupação é grande, porque o custo é alto”.
Cláudio Carvalho, técnico agrícola da Emater-RS que atende o município, relata que os preços de insumos deram um salto nesta safra –a tonelada de adubo que costumava custar cerca de R$ 2.000, por exemplo, saltou para a margem entre R$ 4.000 e R$ 5.000 perto da plantação.
“O custo da lavoura por hectare aumentou mais de 60%”, diz ele, lembrando que a maioria dos produtores rurais depende de financiamentos.
O produtor Leoder Machado recorreu ao Proagro (seguro agrícola) para cobrir as perdas do milho que giram em torno de 70% e aguarda os impactos na lavoura de soja, onde apostou no replantio em alguns trechos.
“Tinha expectativa boa, fizemos um investimento bastante alto no milho, e tivemos rendimento de 15 sacos por hectare, algumas partes um pouco melhor, mas ainda ruim. Em ano normal, a média aqui é colher em torno de 160, 170 sacas”, conta ele. “Bastante frustrante.”
O que os governos dizem sobre a quebra da lavoura Agricultores ligados a movimentos sociais, como MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e o MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), protestaram em Porto Alegre nesta quarta cobrando ações dos governos federal e estadual diante da estiagem.
Entre as reivindicações, estavam liberação de crédito e auxílio emergencial, anistia das dívidas e a liberação de milho com valor subsidiado da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
A gestão Eduardo Leite (PSDB) anunciou investimentos em irrigação e diz que reforçou, junto ao governo federal, a preocupação dos produtores com a falta de crédito rural e as dificuldades para quitar pagamentos.
O governo gaúcho diz que aguarda o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) sobre linhas emergenciais de crédito e refinanciamento para socorrer produtores, e que foi informado de que a liberação depende de alocações orçamentárias internas da pasta e de créditos extraordinários.
O Mapa diz que estão sendo feitos encontros entre a pasta e o Ministério da Economia para viabilizar ações que possam mitigar os efeitos da estiagem nos três estados do Sul e em Mato Grosso do Sul.
O Rio Grande do Sul é o estado mais atingido na região Sul. No Paraná, a projeção do fim de janeiro do Departamento de Economia Rural, da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, era de redução de 39% na produção de soja e 36% na de milho de primeira safra.
As perdas de produtores rurais no estado devido ao clima podem ficar entre R$ 25 e R$ 30 bilhões.
Em Santa Catarina, a estimativa é de queda de 34,5% na safra do milho e de 21% na soja, segundo o Epagri/Cepa.
A estiagem também abateu a pecuária: fez Nei Kirschner, 64, desistir de trabalhar com a produção leiteira, que já vinha em situação difícil há tempos.
Ele é um dos 33,1 mil produtores do setor com dificuldades no estado –a queda registrada até aqui é de 2,4 milhões de litros de leite por dia.
“Na nossa comunidade, tinha 12 produtores, agora tem dois e eu estou largando”, diz ele.
Com a estiagem, a alimentação dos animais virou dificuldade extra, conta ele, que vendeu todas as novilhas do rebanho –o pasto não vingou e as perdas no milho foram grandes.
“Fiz silagem, em 8 hectares consegui tirar 15 toneladas, antes tirava em torno de 60 toneladas por hectare”, diz.
“Vamos terminar enquanto ainda sobra alguma coisa, porque se insistir mais, não sobra”.
O calor histórico também interferiu, chegando a “cozinhar” sementes no solo em alguns locais.
Estael Sias, meteorologista da MetSul, diz que 2022 é o segundo ano consecutivo com fenômeno La Niña (chuvas irregulares e com tendência à estiagem) e que os últimos 12 meses tiveram chuva abaixo da média histórica no estado, levando a um período longo de escassez.
“Alguma melhora em termos de chuva, que possa amenizar de fato e reverter o quadro de estiagem, muito provavelmente só no final do outono, início do inverno. O La Niña termina em meados de abril, maio e até lá vai deixando a chuva irregular. Quando a gente olha os prognósticos para os próximos meses, a probabilidade de chuva abaixo da média é bem alta”, afirma.

 

FERNANDA CANOFRE
ESPUMOSO, MORMAÇO, TIO HUGO, RS (FOLHAPRESS)

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