Contexto histórico e epidemiológico da asma no Brasil
A asma, doença crônica das vias aéreas caracterizada por inflamação e obstrução reversível do fluxo aéreo, afeta cerca de 20 milhões de brasileiros, segundo dados do Ministério da Saúde. Embora a condição seja controlável com tratamento adequado, a persistência de práticas clínicas defasadas tem perpetuado um cenário de subdiagnóstico e manejo inadequado nos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS). Historicamente, a abordagem brasileira baseou-se em protocolos internacionais desatualizados, priorizando o alívio sintomático imediato em detrimento de estratégias preventivas e terapêuticas baseadas em evidências. Essa lacuna, agravada pela falta de capacitação contínua de profissionais e pela escassez de recursos diagnósticos, resultou em uma crise silenciosa: a progressão irreversível da doença.
Metodologia e descobertas do Projeto CuidAR
Um levantamento inédito do Projeto CuidAR, conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento (Porto Alegre/RS) em parceria com o Ministério da Saúde, analisou 400 pacientes asmáticos atendidos em Unidades Básicas de Saúde (UBS) de cinco estados brasileiros. Os resultados, publicados em julho de 2024, revelaram que 60% dos adultos e 33% das crianças apresentavam função pulmonar reduzida, condição que não foi revertida mesmo após a administração de broncodilatadores de curta ação (SABA) durante testes de espirometria. O pneumologista pediátrico Paulo Pitrez, coordenador da pesquisa, alerta para a gravidade do cenário: “Os dados indicam que o dano pulmonar já pode ser irreversível em muitos casos, resultado de anos de tratamento inadequado”.
O paradoxo do ‘resgate imediato’ e seus danos a longo prazo
Conforme as diretrizes da Iniciativa Global para Asma (GINA), os broncodilatadores de curta ação (SABA) — popularmente chamados de ‘bombinhas de resgate’ — devem ser utilizados apenas como medicação de alívio temporário, jamais como tratamento único. No entanto, o estudo constatou que mais de 50% dos pacientes analisados faziam uso exclusivo desses fármacos, prática que mascara a inflamação subjacente e eleva o risco de exacerbações graves, hospitalizações e até óbitos. A GINA recomenda, desde 2019, a adoção de protocolos baseados em corticoides inalatórios associados a broncodilatadores de longa ação (LABA), estratégia comprovadamente eficaz na redução da inflamação e na prevenção de crises.
Sistema público de saúde em xeque: falhas estruturais e soluções possíveis
A persistência de métodos defasados no Sistema Único de Saúde (SUS) reflete um conjunto de desafios: desde a resistência à atualização de protocolos até a falta de insumos básicos para diagnósticos precisos. Segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), menos de 30% das UBSs brasileiras possuem equipamentos de espirometria, ferramenta essencial para monitorar a função pulmonar. Além disso, a rotatividade de profissionais e a ausência de programas de educação continuada perpetuam a utilização de práticas clínicas desatualizadas. “É necessário não apenas implementar medicamentos adequados, mas também reformular os fluxos de atendimento, garantindo acesso a exames e consultas especializadas”, afirma Pitrez.
Impacto socioeconômico e recomendações internacionais
A asma mal controlada representa um encargo financeiro significativo para o sistema de saúde. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que, globalmente, a doença gera custos anuais de US$ 80 bilhões — valor que inclui hospitalizações, medicamentos e perda de produtividade. No Brasil, a taxa de internações por asma em pacientes com mais de 60 anos cresceu 15% entre 2020 e 2023, conforme relatório do DataSUS. Diante desse cenário, a GINA e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) recomendam a adoção imediata de estratégias como o ‘Plano de Ação para Asma’, que inclui educação do paciente, monitoramento regular e uso de dispositivos inalatórios adequados.
Depoimento de especialistas: ‘Temos uma dívida com os pacientes’
Para a pneumologista Dra. Ana Clara Gomes, presidente da SBPT, a crise atual evidencia a necessidade de políticas públicas mais assertivas. “O SUS já possui diretrizes atualizadas, mas a implementação enfrenta barreiras burocráticas e orçamentárias. Precisamos de um plano nacional de qualificação profissional e distribuição de medicamentos essenciais”, declara. Já o Ministério da Saúde, em nota oficial, afirmou estar revisando os protocolos de atendimento à asma e ampliando a oferta de corticoides inalatórios nas UBSs até 2025.
Perspectivas e alerta para a sociedade
Os achados do Projeto CuidAR servem como um chamado à ação para pacientes, profissionais de saúde e gestores públicos. A asma, quando tratada corretamente, permite uma vida normal; quando negligenciada, pode levar a complicações irreversíveis. A sociedade civil organizada, por sua vez, deve pressionar por maior transparência na alocação de recursos e fiscalizar a aplicação de políticas baseadas em ciência. Enquanto isso, especialistas reforçam: o tempo de agir é agora. “Cada dia de atraso na adoção de protocolos adequados representa um risco a mais para os milhões de brasileiros que dependem do SUS”, conclui Pitrez.




