Estados como Ceará, Espírito Santo e Santa Catarina estão entre os mais prejudicados
Impacto regional das sobretaxas
O levantamento realizado a partir de dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) revela que Ceará, Espírito Santo e Santa Catarina figuram entre os estados mais afetados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos. A medida, anunciada em 23 de julho, acrescentou uma cobrança de 12,5% sobre produtos brasileiros, somando-se em muitos casos aos 25% já aplicados pela seção 301, que investiga práticas comerciais consideradas desleais.
Ceará: dependência elevada do mercado americano
O Ceará desponta como um dos casos mais críticos. O estado direciona 46% de suas exportações aos EUA, e 91,3% desse comércio está sujeito às sobretaxas, o que representa 42% de todas as vendas externas. “O Ceará foi muito afetado desde o início das tarifas porque grande parte da sua pauta de exportação é da indústria siderúrgica, tarifada pela seção 232. Além disso, a pauta exportadora é muito concentrada nos EUA”, afirma João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre.
Entre os principais produtos atingidos estão semimanufaturados de aço, mel, granito e calçados de borracha. Apesar disso, o grau de abertura da economia cearense é de apenas 9,8%, segundo estudo da Fipe. Ainda assim, o impacto é significativo devido à complexidade da cadeia siderúrgica. “Como a siderurgia mobiliza energia, logística, insumos, serviços especializados e emprego ao longo da cadeia, um choque sobre as exportações de aço dificilmente fica restrito ao valor vendido ao exterior. Ele pode se propagar para fornecedores, trabalhadores e atividades ligadas à operação industrial e portuária”, observa Cavalcante, pesquisador da Fipe.
Espírito Santo: economia altamente aberta
O Espírito Santo apresenta o maior grau de abertura comercial do país, com exportações e importações equivalendo a 62,7% do PIB estadual. Nesse cenário, 68,6% das vendas aos EUA são afetadas, representando 18,5% das exportações totais. “A abertura comercial do Espírito Santo é praticamente o dobro da média brasileira, e há produtos com muito peso na pauta exportadora. As tarifas afetam em cheio a nossa economia”, declara Antônio Ricardo Freislebem da Rocha, diretor do Instituto Jones dos Santos Neves.
Os principais itens atingidos são semimanufaturados de ferro ou aço, pedras de cantaria e pastas químicas de madeira. Rocha, contudo, ressalta: “Mas o impacto das tarifas não é sinônimo de fechamento do mercado. Pode haver diversificação para outros países ou os americanos podem se manter como compradores, já que para certos produtos somos os únicos fornecedores.”
Santa Catarina: exportações diversificadas, mas atingidas
Santa Catarina aparece em terceiro lugar entre os estados mais prejudicados. O estado destina 12,1% de suas exportações aos EUA, das quais 80,7% estão tarifadas, impactando 9,7% das vendas totais. Entre os produtos afetados estão madeira e componentes para veículos automotores. O grau de abertura da economia catarinense é de 45,3%.
Outros estados e desigualdade regional
Alagoas registra 98,4% de seu comércio com os EUA afetado, principalmente pelo açúcar de cana. Já São Paulo, maior exportador nacional, tem 41,5% das vendas aos americanos tarifadas, mas apenas 7,7% do total de exportações impactadas, graças à isenção de produtos da indústria aeronáutica e do suco de laranja. No Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso estão entre os menos atingidos, beneficiados pela isenção das exportações de carne. “Fala-se muito nas perdas do Brasil, mas olhando de forma regional, vê-se diferenças expressivas. Há regiões que sofreram menos, como o Centro-Oeste, e outras mais afetadas, como o Nordeste”, afirma França.
Necessidade de diversificação
Para especialistas, o impacto desigual reforça a urgência de diversificar a pauta exportadora e ampliar os destinos comerciais. A análise classificou como “taxados” os itens sujeitos a pelo menos uma das alíquotas (25% ou 12,5%), utilizando a classificação do Sistema Harmonizado de seis dígitos, padrão internacional da Organização Mundial das Alfândegas.




