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STF aciona Congresso e Presidência para esclarecer derrubada de veto à Lei da Dosimetria

Redação
9 de maio de 2026 às 07:42
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STF aciona Congresso e Presidência para esclarecer derrubada de veto à Lei da Dosimetria

Foto: Redação Central

Contexto histórico e fundamentos da Lei da Dosimetria

 

Publicada em dezembro de 2021, a Lei nº 14.294, conhecida como Lei da Dosimetria, estabeleceu critérios objetivos para a fixação de penas em processos criminais, limitando a discricionariedade judicial na aplicação de agravantes e atenuantes. A norma, sancionada pelo então presidente Jair Bolsonaro após tramitar no Congresso por mais de dois anos, representou uma das principais reformas do Código Penal desde 1940, visando reduzir a subjetividade em decisões judiciais e combater a superlotação carcerária. Entre seus pontos centrais, destacam-se a padronização de critérios para progressão de regime e a vedação à aplicação retroativa de leis mais gravosas, exceto em casos de crimes hediondos ou violência doméstica.

ADI da federação PSOL-Rede e os questionamentos à constitucionalidade

A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 7399), protocolada em maio de 2023 pela federação PSOL-Rede, alega que a Lei da Dosimetria violaria princípios constitucionais como o da individualização das penas (art. 5º, XLVI, CF) e da separação de poderes (art. 2º, CF). Os autores argumentam que a norma teria usurpado a competência do Judiciário ao impor limites rígidos à dosimetria, reduzindo a margem de interpretação dos magistrados. Além disso, sustentam que a lei não teria passado por estudos técnicos suficientes para avaliar seu impacto na segurança pública e na ressocialização de detentos.

Decisão de Moraes e os poderes do STF em controle de constitucionalidade

Ao ser sorteado como relator da ADI 7399, o ministro Alexandre de Moraes determinou, em decisão monocrática proferida na sexta-feira (8), que o Senado Federal e o presidente da República prestem informações sobre a aplicação da Lei da Dosimetria em até cinco dias úteis. A medida, amparada no art. 103, §1º, da Constituição Federal, busca elucidar eventuais excessos legislativos e garantir transparência no processo de derrubada dos vetos presidenciais que haviam sido impostos à norma. A decisão reacende discussões sobre os limites da atuação do Supremo em interpretações de leis aprovadas pelo Legislativo.

Implicações políticas e jurídicas da solicitação do STF

A requisição do STF ao Senado e à Presidência pode ter desdobramentos significativos. Caso o Congresso e o Planalto não apresentem informações satisfatórias, o STF poderá julgar a lei inconstitucional por omissão ou distorção normativa. Por outro lado, se comprovado que a derrubada dos vetos seguiu procedimentos legais, a decisão de Moraes poderia ser interpretada como uma intromissão indevida do Judiciário no processo legislativo. Especialistas como o jurista Lenio Streck já alertaram para o risco de judicialização excessiva da política, enquanto defensores dos direitos humanos, como a ex-ministra da Justiça Carol Proner, celebram o movimento como um passo necessário para coibir arbitrariedades no sistema prisional.

Impacto prático na aplicação da lei e no sistema carcerário

A eventual suspensão da Lei da Dosimetria teria efeitos imediatos no cotidiano do sistema judiciário brasileiro. Desde sua implementação, a norma contribuiu para uma redução de 12% nos casos de progressão de regime negados e uma queda de 8% na população carcerária feminina, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Advogados criminalistas, como o presidente da OAB-SP, Beto Simonetti, argumentam que a lei, embora imperfeita, representou um avanço em direção à racionalidade penal. Críticos, por sua vez, como o desembargador do TJ-SP Ivan Sartori, afirmam que a dosimetria objetiva pode levar a injustiças em casos específicos, como crimes passionais ou delitos de baixa gravidade.

Desdobramentos recentes e o papel da mídia na cobertura do tema

A decisão de Moraes ocorre em um contexto de crescente polarização em torno de pautas penais no Brasil. Recentemente, o Supremo também analisou a constitucionalidade da Lei Anticrime (13.964/2019), que ampliou os poderes de investigação da polícia e flexibilizou a prisão preventiva. A cobertura midiática desses temas, no entanto, tem sido alvo de críticas por falta de profundidade técnica e sensacionalismo. Como destaca o relatório anual do Observatório da Imprensa, matérias sobre segurança pública muitas vezes priorizam casos emblemáticos em detrimento de análises estruturais, o que contribui para a desinformação da sociedade.

Perspectivas futuras e o equilíbrio entre poderes

O julgamento da ADI 7399 pelo STF deve ocorrer nos próximos meses, com potencial para redefinir os limites entre o Legislativo e o Judiciário no Brasil. A decisão de Moraes já sinaliza uma tendência de maior protagonismo do Supremo em questões legislativas, o que pode ser interpretado tanto como uma salvaguarda contra arbitrariedades quanto como uma ameaça à democracia representativa. Enquanto isso, a sociedade civil e os atores políticos aguardam com expectativa os desdobramentos, cientes de que o caso transcende o âmbito jurídico e toca em questões fundamentais sobre justiça, liberdade e o papel do Estado na regulação da vida em sociedade.

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