A economia brasileira vive, há um bom tempo, um verdadeiro paradoxo econômico com contornos shakespearianos: ao mesmo tempo que colhe safras recordes de soja, milho, trigo, feijão e arroz, mandioca, vê os preços dos alimentos aumentarem, pressionando a inflação e o orçamento doméstico das famílias, principalmente as de menores rendas.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou, na última quinta feira (11), dados da safra de grãos, cereais e leguminosas. Segundo a Conab, a safra de grãos de 2026 chegará ao recorde de 359 milhões de toneladas, liderada pela soja e milho. A produção de soja, principal produto agropecuário do país, chegará a 180 milhões de toneladas e a de milho será de 140 milhões, ocupando a segunda posição. A safra de arroz será de 11 milhões de toneladas, a de trigo de 6,5 milhões, ajudando a reduzir a dependência de importações, já que o consumo nacional é de 12 milhões de toneladas. A produção de feijão deve repetir a boa safra de 2025 que foi de 3,2 milhões de toneladas, suficientes para atender a demanda doméstica.
Todavia, os bons números da produção de grãos e cereais básicos não está sendo suficiente para manter ou reduzir os preços finais dos alimentos nas gôndolas dos mercados e, por conseguinte, aliviar a pressão desse item nas despesas mensais das famílias, especialmente as famílias mais pobres.
Os dados da inflação, medida pelo IPCA (IBGE) relativos ao mês de maio confirmam que, enquanto o índice geral ficou em 0,58%, menor que o aumento de 0,67% de abril, os preços dos alimentos subiram 1,65%, levando a inflação dos últimos doze meses a 4,72%, acima do teto de tolerância da meta que é de 4,5%.
Chamada de “inflação do supermercado”, a alta dos preços dos alimentos é a porção mais sensível ao bolso das famílias e fator decisivo para a formação da percepção da população em relação à inflação.
Essa “inflação do supermercado” é bem diferente da inflação medida pela variação geral dos preços. Enquanto a inflação oficial é medida por indicadores que mensuram a variação de preços de quatrocentos produtos e serviços em determinado período, ponderados pelo peso de cada um desses produtos e serviços no conjunto do índice e no orçamento familiar, a “inflação do supermercado” registra simplesmente a percepção dos consumidores sobre se os preços dos bens mais consumidos em mercados e feiras ficaram mais altos, mais baixos ou estáveis em determinado período.
Segundo especialistas que acompanham cotidianamente as oscilações de preços e formação dos índices de preços aos consumidores, há uma forte tendência de continuidade da sensação de desconforto do consumidor com a pressão dos alimentos sobre o orçamento doméstico ao longo do segundo semestre, com suáveis oscilações para baixo em julho e agosto, altas moderadas em setembro e outubro e altas mais fortes em novembro e dezembro. Assim, estima-se que a inflação chegará em dezembro em 5%. Mas o item alimentação no domicílio terá alta acumulada de 7,5% de janeiro a dezembro de 2026.
São variados os fatores que impulsionam os preços dos alimentos. Os mais diretos são o expressivo aumento de custos de produção causados pela guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã que elevaram drasticamente os custos de fertilizantes e combustíveis e de toda a cadeia logística mundial e doméstica. Boa parte do aumento dos custos de produção e de logística foram repassados aos preços finais, chegando à ponta da cadeia de consumo que são os supermercados e feiras.
As consequências da alta de preços dos alimentos vão, naturalmente, além das inflacionárias. A percepção das famílias sobre a alta de preços dos alimentos tem consequências políticas e costumam produzir efeitos políticos negativos que são amplificados em anos eleitorais.

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