Ofensiva inédita emprega o Orechnik, armamento projetado para cenários nucleares, em meio à crescente tensão entre Moscou, Europa e Otan
Bombardeio de larga escala atinge Kiev e deixa mortos e feridos
A Rússia realizou, na madrugada deste domingo (24), uma das maiores ofensivas aéreas desde o início da guerra contra a Ucrânia, utilizando pela primeira vez o míssil hipersônico Orechnik em um ataque direcionado à região de Kiev. A operação deixou ao menos quatro mortos e cerca de 80 feridos, segundo autoridades ucranianas.
O Ministério da Defesa russo classificou a ação como uma resposta ao bombardeio ocorrido na sexta-feira (22), que atingiu um dormitório estudantil em Lugansk, território ocupado por Moscou no leste ucraniano, causando 18 mortes.
“Foi uma noite terrível em Kiev”, afirmou o prefeito da capital ucraniana, Vitali Klitschko, em publicação no Telegram. De acordo com autoridades locais, o ataque envolveu aproximadamente 90 mísseis e 600 drones, concentrando o maior volume de destruição na capital e em cidades vizinhas.
Orechnik estreia em combate e reforça ameaça nuclear russa
O principal elemento da ofensiva foi o uso do Orechnik, míssil balístico de alcance intermediário desenvolvido para cenários de guerra nuclear. O armamento havia sido utilizado anteriormente apenas duas vezes durante o conflito, em novembro de 2024 e janeiro deste ano.
Projetado para transportar múltiplas ogivas capazes de reentrar na atmosfera em velocidades hipersônicas, o sistema é considerado extremamente difícil de interceptar por sistemas convencionais de defesa aérea.
Na ofensiva deste domingo, segundo informações russas, foram empregadas ogivas sem carga explosiva, cujo potencial destrutivo decorre exclusivamente da energia cinética gerada pelo impacto em altíssima velocidade. O alvo principal teria sido a cidade de Bila Tservka, localizada a cerca de 64 quilômetros ao sul de Kiev. Também houve relatos não confirmados de um segundo disparo direcionado à capital ucraniana.
O nome Orechnik faz referência à aveleira, árvore conhecida na Rússia, mas seu simbolismo militar vai além da nomenclatura: o armamento passou a integrar a estratégia de intimidação geopolítica do Kremlin diante da Europa e da Otan.
Exercícios nucleares antecederam ofensiva russa
A utilização do supermíssel ocorre poucos dias após Moscou promover o maior exercício nuclear desde o fim da Guerra Fria. As manobras incluíram testes de mísseis estratégicos e táticos em conjunto com Belarus, aliado direto do Kremlin e vizinho de países integrantes da Otan.
A demonstração de força teve como destinatários não apenas os governos europeus, mas também o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês Xi Jinping, que recebeu Vladimir Putin em visita oficial durante a semana passada.
O Orechnik amplia esse cenário de pressão militar por possuir capacidade de atingir capitais europeias em poucos minutos. A reação foi imediata. O chanceler alemão Friedrich Merz classificou a ação russa como uma “escalada irresponsável” em publicação na rede X.
Arsenal hipersônico foi empregado quase integralmente
Além do Orechnik, Moscou mobilizou parte significativa de seu arsenal hipersônico operacional. Entre os armamentos utilizados estão os mísseis Kinjal, lançados a partir de aeronaves, e os Tsirkon, disparados de sistemas costeiros Bastion adaptados para operações terrestres no sul da Rússia.
Também foram empregados mísseis balísticos Iskander-M, com alcance aproximado de 500 quilômetros. Parte desse sistema encontra-se posicionada em Belarus, permitindo cobertura militar sobre extensas áreas do Leste Europeu, incluindo regiões próximas a Berlim.
O governo de Aleksandr Lukachenko mantém apoio logístico e territorial às forças russas, autorizando o uso do espaço aéreo e do território belarusso para operações militares contra Kiev, embora ainda sem participação direta no conflito.
Kremlin enfrenta desgaste militar e pressão interna
Apesar do reforço financeiro proporcionado pelo aumento das exportações de petróleo russo — impulsionado pela crise no Oriente Médio após a guerra entre Estados Unidos e Irã — o governo de Vladimir Putin enfrenta dificuldades para obter avanços decisivos no campo de batalha.
Após conquistas localizadas no início do ano, as tropas russas passaram a enfrentar resistência crescente e derrotas pontuais em regiões estratégicas da linha de frente, que permanece relativamente estável.
O cenário provocou manifestações incomuns dentro do próprio ambiente político alinhado ao Kremlin. Nesta semana, o analista geopolítico Vitali Kachin publicou artigo na revista Rússia nos Assuntos Globais defendendo a abertura imediata de negociações de paz.
Segundo ele, nenhuma das partes possui condições reais de alcançar vitória absoluta no conflito. “O melhor caminho para o Kremlin seria consolidar os 20% do território já conquistados e negociar a neutralidade militar da Ucrânia”, argumentou o especialista.




