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Pressão de Trump entra no centro da eleição brasileira e acende alerta sobre interferência externa

Jeverson
20 de setembro de 2026 às 12:32
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Pressão de Trump entra no centro da eleição brasileira e acende alerta sobre interferência externa

O senador Flávio Bolsonaro, Paulo Figueiredo e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington — Foto: Divulgação

Ações do governo americano, ameaças de sanções e aproximação com aliados de Flávio Bolsonaro alimentam debate sobre soberania; Lula incorpora tema à campanha enquanto experiências em outros países mostram efeitos imprevisíveis da atuação de Washington

A possibilidade de interferência estrangeira passou a ocupar um espaço incomum na reta final da eleição presidencial brasileira. Declarações do governo dos Estados Unidos, sanções, pressões diplomáticas e a proximidade de integrantes da administração Donald Trump com aliados de Flávio Bolsonaro (PL) transformaram a relação entre Brasília e Washington em um dos componentes da disputa política de 2026.

O tema ganhou nova dimensão em meio à crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal (STF) após a divulgação de mensagens envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes.

Ao contestar relatório apresentado pelo ministro André Mendonça, Moraes classificou o documento como uma “farsa” e sustentou que ele teria sido produzido “com auxílio de órgão externo, provavelmente estrangeiro”. Segundo o magistrado, haveria uma tentativa de utilizar o episódio para interferir no processo eleitoral. Moraes nega ter cometido irregularidades.

A acusação não comprova, por si só, a existência de participação estrangeira no caso. Ela, porém, trouxe novamente ao primeiro plano uma preocupação que acompanha instituições brasileiras desde antes do início formal da campanha: até onde o governo Trump estaria disposto a avançar na política interna do Brasil.

Pressões de Washington ultrapassam a agenda comercial

A tensão não começou durante a atual crise do Supremo.

Durante as negociações comerciais desencadeadas pelas tarifas impostas ao Brasil em 2025, representantes do governo americano chegaram a apresentar uma lista de exigências que incluía a participação de “dissidentes políticos” na eleição presidencial brasileira de 2026.

O governo brasileiro rejeitou a condição. A exigência, revelada posteriormente pela imprensa, estava inserida em um documento com diversos pontos que extrapolavam questões estritamente comerciais.

Desde então, a possibilidade de novas sanções contra autoridades brasileiras passou a acompanhar as relações entre os dois países.

A deterioração do ambiente no STF voltou a alimentar esse movimento. Eduardo Bolsonaro (PL), que está nos Estados Unidos, tem defendido medidas contra integrantes das instituições brasileiras e mantém interlocução com setores políticos ligados ao governo americano.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, explora eleitoralmente os embates envolvendo Moraes e procura associar a atuação do ministro ao governo Lula. Essa estratégia apareceu inclusive na propaganda eleitoral do candidato.

Em Washington, Eduardo afirmou recentemente ter conversado com autoridades do alto escalão americano. Segundo ele, haveria sinais de que ministros do Supremo estariam construindo argumentos para questionar uma eventual vitória de seu irmão. Trata-se de uma avaliação política apresentada pelo ex-deputado, e não de uma conclusão comprovada sobre a atuação do tribunal.

Outro foco de tensão surgiu quando o governo dos Estados Unidos enviou ao Congresso americano um relatório afirmando que o Brasil “falhou em confrontar” o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

A declaração provocou reação em setores do Ministério da Justiça e da Polícia Federal, cujos integrantes interpretaram a manifestação americana como politicamente vinculada ao cenário eleitoral. Essa é uma avaliação das autoridades brasileiras; Washington sustenta suas críticas com base em sua própria política de combate ao crime organizado.

Abin eleva nível de preocupação

O assunto deixou de ser apenas uma disputa retórica entre governo e oposição.

Relatório reservado elaborado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre “ameaças ao processo eleitoral de 2026” classificou a possibilidade de influência e interferência externa americana em um “nível de criticidade”.

O documento foi encaminhado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça no fim de agosto. Segundo informações divulgadas sobre o relatório, a agência avalia que setores da administração Trump buscam fortalecer governos conservadores na América Latina e reduzir a presença chinesa em áreas consideradas estratégicas pelos Estados Unidos.

Não há, contudo, um diagnóstico público conclusivo sobre quais ações Washington poderia adotar até a votação de outubro.

Entre integrantes do governo, especialistas e organizações que acompanham o processo eleitoral também existe a avaliação de que uma intervenção excessivamente ostensiva poderia produzir efeito contrário ao desejado e prejudicar eleitoralmente o candidato que pretendesse beneficiar.

Esse cálculo ajuda a explicar a dificuldade de antecipar os próximos movimentos da administração americana.

Soberania passa ao centro da estratégia de Lula

Diante desse cenário, Lula incorporou a defesa da soberania nacional como um dos eixos de sua campanha.

A estratégia busca apresentar o governo como defensor da autonomia brasileira diante das pressões externas e transformar eventuais conflitos com Washington em um debate sobre interesses nacionais.

A eficácia eleitoral dessa abordagem, entretanto, permanece incerta.

Pesquisa Datafolha divulgada em agosto mostrou que 50% dos entrevistados consideravam possível algum tipo de interferência estrangeira na eleição. Entre eles, 32% diziam enxergar essa possibilidade como um problema. Outros 43% descartavam o risco e 8% não souberam responder. O levantamento ouviu 2.058 eleitores e teve margem de erro de dois pontos percentuais.

Outro levantamento do instituto, realizado em julho, indicou que 52% dos entrevistados acreditavam que as tarifas impostas por Trump buscavam ajudar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Para 37%, essa não era a intenção.

Ao mesmo tempo, 51% consideravam que o governo Lula havia feito menos do que deveria durante as negociações com Washington.

Os números revelam uma percepção dividida: parte do eleitorado identifica motivação política nas decisões americanas, mas isso não significa adesão automática à forma como o governo brasileiro administra a crise.

Apoio a Trump também aparece nas ruas

Na outra ponta da disputa política, setores bolsonaristas tratam uma atuação mais incisiva do presidente americano como algo desejável.

Durante o ato de 7 de Setembro realizado na avenida Paulista, em São Paulo, manifestantes levaram um grande boneco inflável de Trump acompanhado de uma representação de Lula vestido como presidiário. Na estrutura podia ser lida, em inglês, a frase “Trump, liberte o Brasil”.

Nas redes sociais, conteúdos produzidos com inteligência artificial também passaram a simular cenários em que o presidente brasileiro seria preso por determinação do governo americano.

Esse tipo de manifestação expõe uma mudança relevante no discurso de parte da direita brasileira: a defesa de uma pressão estrangeira passou a conviver com o nacionalismo historicamente presente nesse campo político.

Uma política externa mais disposta a interferir

O que ocorre no Brasil está inserido em um movimento mais amplo.

No segundo mandato de Trump, os Estados Unidos passaram a demonstrar maior disposição para utilizar instrumentos econômicos, diplomáticos e políticos em disputas eleitorais estrangeiras.

O repertório inclui declarações públicas em favor de candidatos, ameaças econômicas, concessão ou retirada de apoio financeiro e pressões contra governos ideologicamente adversários.

Argentina, Canadá, Hungria, Polônia, Japão, Colômbia e outros países registraram episódios em que Trump ou integrantes de sua administração se manifestaram de maneira direta sobre suas disputas domésticas.

Os resultados, porém, estiveram longe de ser uniformes.

Rede de consultores desperta atenção na América Latina

A atuação política internacional também ocorre fora dos canais oficiais do governo americano.

Um dos personagens que passaram a chamar atenção é o consultor argentino Fernando Cerimedo, conhecido por sua participação em campanhas políticas e pelo uso intensivo de redes sociais.

Cerimedo foi preso na Bolívia em agosto, acusado de ordenar o ataque contra sua ex-companheira, Nadia Beller, que estava grávida. Ele nega o crime.

Segundo investigadores bolivianos, uma operação realizada em endereço associado ao consultor encontrou equipamentos descritos pelas autoridades como uma pequena estrutura de contas automatizadas, além de mais de US$ 40 mil em dinheiro.

As investigações sobre o caso acabaram levando as autoridades a examinar também suas atividades políticas.

Cerimedo é próximo de Eduardo Bolsonaro, participou do ambiente político que cercou a eleição presidencial brasileira de 2022 e foi citado em investigações relacionadas à disseminação de informações falsas sobre as urnas eletrônicas.

Também trabalhou na campanha de Javier Milei, na Argentina.

A conexão com o antigo comando digital de Trump

Outro elo relevante é Brad Parscale, ex-chefe de campanha de Donald Trump e empresário especializado em tecnologia eleitoral.

Cerimedo e Parscale mantêm relações comerciais e já atuaram em projetos políticos na América Latina.

“Brad montou toda a infraestrutura com a qual eu trabalho”, afirmou Cerimedo em mensagem atribuída a ele e publicada pela imprensa americana.

Nadia Beller disse acreditar que Parscale disponibilizou tecnologia ao argentino para campanhas na região.

Ela afirmou ainda, sem apresentar provas, que Cerimedo teria relatado trabalhos para a CIA. Também declarou que o ex-companheiro pretendia atuar em favor de Flávio Bolsonaro, trabalhou pela reeleição de Jair Bolsonaro em 2022 e manteve contatos recentes com Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

As afirmações de Nadia sobre inteligência americana não foram acompanhadas de evidências públicas e, portanto, permanecem no campo das alegações.

Ela também relacionou Cerimedo às campanhas do chileno José Antonio Kast e a atividades ligadas às eleições peruanas.

Especialista distingue influência de interferência

Para Guilherme Casarões, professor da Florida International University e coordenador do Observatório da Extrema Direita, é necessário estabelecer diferentes níveis de atuação estrangeira antes de definir um episódio como interferência eleitoral.

“Eu trataria a interferência a partir de uma gradação. Varia de uma mera influência política a graus muito mais graves, que envolveriam, por exemplo, mexer no sistema eleitoral de um determinado país ou interferir no processo de maneiras diretas ou indiretas. Há vários tons de cinza que é importante que a gente considere”, afirma.

Essa distinção é particularmente relevante no caso brasileiro.

Em julho de 2025, ao anunciar tarifas contra produtos do Brasil, Trump enviou uma carta na qual classificou Jair Bolsonaro como um “líder altamente respeitado” e disse que o ex-presidente era vítima de uma “caça às bruxas”.

“Acho que havia uma grande expectativa de reversão da inelegibilidade de Bolsonaro. Trump tomou essa decisão esperando atingir determinado objetivo político”, afirma Casarões.

Observadores americanos também provocaram tensão

Outro episódio elevou as desconfianças entre Brasília e Washington.

O governo americano pretendia enviar ao Brasil funcionários que acompanhariam o processo eleitoral. Segundo reportagem publicada nos Estados Unidos, havia entre autoridades brasileiras a preocupação de que esses representantes pudessem lançar dúvidas sobre a transparência das eleições.

O Itamaraty recusou os vistos.

Washington negou que houvesse intenção de interferir no pleito.

Pouco antes, Flávio Bolsonaro havia feito declarações falsas sobre as urnas eletrônicas durante evento com diplomatas e solicitado que governos estrangeiros enviassem observadores em grande número para acompanhar a votação.

Argentina mostra força do instrumento econômico

Na Argentina, a política externa americana assumiu contornos econômicos muito mais concretos.

Às vésperas das eleições legislativas de outubro de 2025, o governo dos Estados Unidos firmou com o Banco Central argentino um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões para auxiliar na estabilização do peso.

A medida ocorreu apenas seis dias antes da votação e integrou um pacote de apoio ao governo Javier Milei.

Trump também recebeu Milei na Casa Branca e fez uma declaração diretamente vinculada ao resultado eleitoral:

“Se ele vencer, vamos ficar com ele. Se não vencer, vamos embora”.

O episódio tornou-se um dos exemplos mais explícitos de associação entre apoio econômico americano e uma disputa eleitoral estrangeira.

Na Hungria, o resultado foi diferente

A Hungria apresentou outra dinâmica.

Apesar da proximidade política entre Trump e Viktor Orbán, o respaldo americano não impediu a vitória da oposição.

Péter Magyar concentrou sua campanha em questões internas e buscou apresentar Orbán como um dirigente distante dos problemas cotidianos do país.

“Sua mensagem foi de que Orbán não se importa com os húngaros comuns. Ele não atacou Trump, não tentou dizer que ter uma boa relação com Trump é problemático”, diz Péter Krekó, diretor da consultoria Political Capital.

“Foi uma jogada populista inteligente, no sentido de que Orbán foi retratado como parte de uma elite internacional, alienado de todos os húngaros.”

Trump chegou a isentar a Hungria de determinadas sanções ligadas à compra de petróleo e gás russos, mas o apoio ficou aquém das expectativas do então governo.

“Achei muito interessante que o envolvimento do governo Trump tenha realmente se mantido mais político e simbólico neste caso. Ficou muito aquém do que Orbán esperava”, afirma a pesquisadora Zsuzsanna Végh, associada ao German Marshall Fund.

Canadá registrou reação às ameaças americanas

No Canadá, analistas identificaram movimento distinto.

As declarações de Trump sobre a possibilidade de incorporar o país aos Estados Unidos e suas ameaças econômicas ajudaram a transformar a relação com Washington em questão eleitoral doméstica.

Nesse caso, avaliações de analistas indicaram que a pressão americana produziu reação nacionalista e contribuiu para fortalecer adversários de Trump, mostrando que a tentativa de influenciar outro país pode gerar consequências contrárias às pretendidas.

Colômbia teve acusações sem comprovação

A interferência americana também se tornou tema político na Colômbia após a eleição presidencial.

Aliados de Gustavo Petro e do candidato derrotado Iván Cepeda sustentaram que o apoio de Trump ao candidato conservador Abelardo de la Espriella e as críticas americanas ao antigo governo influenciaram a disputa.

Petro foi além e afirmou que empresas privadas de inteligência israelense teriam fraudado as eleições.

Até agora, não foram apresentadas provas públicas que sustentem essa acusação.

O advogado Luis Pérez, autor de uma ação destinada a tentar anular o resultado, também fez acusações semelhantes.

“O discurso de Trump pode ter influenciado de duas maneiras. Primeiro, porque as pessoas, por medo, votaram em Abelardo de la Espriella, pensando em ter alguma garantia de que poderiam ficar nos Estados Unidos caso ele vencesse. E também porque houve muitas irregularidades nesse processo eleitoral, na votação no exterior”, afirmou Pérez, sem apresentar evidências das supostas irregularidades.

Sergio Guzmán, diretor da consultoria Colombia Risk Analysis, reconhece que a margem apertada permite discutir eventual efeito das declarações americanas, mas rejeita a ideia de que elas tenham sido determinantes.

“O que acontece é que, neste momento, Petro está muito amargurado porque eles tinham a certeza de que iriam vencer a eleição. O problema é que isso simplesmente não aconteceu”, diz.

“Petro está procurando qualquer tipo de conspiração para tentar justificar sua nova tentativa de se opor a Espriella. Está se aliando a todos esses elementos: Israel, EUA, robôs etc. Mas isso não é o fator determinante.”

Governo Trump combina pragmatismo e ideologia

No Brasil, permanece em aberto qual será o grau de participação de Washington nas semanas finais da eleição.

Trump já fez declarações amistosas sobre o país e chegou a chamar Lula de “muito dinâmico”. Ao mesmo tempo, integrantes de sua administração adotaram iniciativas consideradas hostis pelo governo brasileiro.

“Desde julho do ano passado há uma clara motivação política em tudo o que Trump vem fazendo em relação ao Brasil. Mas eu não saberia dizer se tudo ou parte foram capítulos de uma tentativa deliberada de interferência eleitoral muito clara”, afirma Casarões.

A própria composição do governo americano ajuda a explicar essa ambiguidade.

Marco Rubio, secretário de Estado e antigo senador republicano, mantém uma postura especialmente crítica em relação aos governos de esquerda da América Latina e à expansão da influência chinesa na região.

Outros integrantes do círculo trumpista mantêm relações políticas mais próximas com Eduardo Bolsonaro e setores conservadores latino-americanos.

“No governo Trump existem aqueles como Rubio, por exemplo, que têm uma leitura mais política do problema e que acreditam que tirar Lula é a vacina contra o comunismo regional, para afastar a China da América Latina”, diz Casarões.

“E existem membros da Casa Branca, principalmente do segundo escalão, como Darren Beattie, Sebastian Gorka, Jason Miller, uma turma bastante próxima do Eduardo, que tem uma leitura mais ideológica, da salvação do mundo ocidental, da civilização judaico-cristã. Olham para a candidatura do Flávio Bolsonaro como redenção civilizatória.”

A afirmação expressa a análise do pesquisador sobre as correntes existentes no entorno de Trump e não uma posição oficial declarada pelo governo americano.

Doutrina Monroe retorna ao vocabulário de Washington

Esse novo momento da política externa americana também aparece no discurso institucional.

Em agosto, uma publicação do Departamento de Estado mencionou a Doutrina Monroe e afirmou que “o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”.

Criada em 1823, durante o governo de James Monroe, a doutrina tornou-se historicamente associada à tentativa dos Estados Unidos de limitar a presença de potências externas no continente americano.

Sua recuperação retórica ocorre num período de crescente disputa entre Washington e Pequim por influência econômica, recursos naturais e infraestrutura na América Latina.

Nesse ambiente, minerais estratégicos e terras raras ganharam importância nas relações bilaterais.

Flávio Bolsonaro já apresentou o Brasil, em evento conservador realizado nos Estados Unidos, como potencial fornecedor desses recursos para a economia americana.

Opinião pública impõe limite à influência de Trump

A receptividade do eleitor brasileiro ao presidente dos Estados Unidos é outro componente importante dessa equação.

Levantamento internacional do Pew Research Center, realizado entre fevereiro e maio de 2026 em 36 países, identificou uma avaliação predominantemente negativa de Trump em diferentes partes do mundo. A pesquisa entrevistou 42.151 pessoas.

No Brasil, os dados apresentados pelo instituto mostram elevada desconfiança em relação à condução da política internacional pelo presidente americano.

Essa percepção ajuda a explicar por que um apoio explícito a algum candidato brasileiro não pode ser automaticamente traduzido em vantagem eleitoral.

“Na América Latina ainda há uma certa receptividade ao Trump. A esquerda tem a fadiga no continente. No começo dos anos 2000 houve a onda rosa, que colocou muitos líderes de esquerda no poder. Alguns se mantiveram de maneira autoritária ou a desgastar sua própria popularidade. Isso acaba gerando uma simpatia às opções de extrema direita”, afirma Casarões.

O pesquisador também analisa com cautela o efeito específico sobre Flávio Bolsonaro.

Por meses, segundo ele, a campanha tentou construir a percepção de que apenas o candidato do PL seria capaz de restabelecer uma relação privilegiada com Washington.

“Acho que ele se beneficia marginalmente desse apoio americano porque dá a ele uma aparência de chefe de Estado que ele não tem. Mas acho que hoje fica cada vez mais claro, até pelas pesquisas de opinião, que o apoio de Trump não é exatamente benéfico para a candidatura de Flávio.”

A avaliação é do pesquisador e não permite estabelecer, isoladamente, qual será o comportamento dos eleitores nas urnas.

Efeito nacionalista tem alcance incerto

As primeiras tarifas impostas por Washington, em 2025, coincidiram com uma melhora temporária em indicadores de avaliação de Lula.

Uma das explicações discutidas à época foi o chamado “rally ‘round the flag”, expressão empregada na ciência política para descrever situações em que crises internacionais levam parte da população a se aproximar do governo nacional.

A campanha petista procurou aproveitar esse ambiente ao reforçar o discurso sobre soberania.

O fenômeno, entretanto, costuma ser condicionado pela duração da crise, pela percepção do eleitor sobre seus custos e pela avaliação doméstica do governo.

As novas tarifas impostas em 2026 não produziram, até o momento, uma mudança equivalente e claramente identificável nas pesquisas.

O cenário brasileiro, portanto, continua aberto.

Há evidências de crescente pressão dos Estados Unidos sobre temas diretamente relacionados à agenda política nacional, há articulação de aliados de Flávio Bolsonaro com integrantes do ecossistema trumpista e existem alertas formais de órgãos brasileiros sobre riscos externos.

Isso não equivale, porém, à demonstração de que Washington tenha capacidade para determinar o resultado da eleição ou de que todos os movimentos americanos façam parte de uma operação coordenada com esse objetivo.

A experiência internacional mostra precisamente essa incerteza: em alguns países, a atuação de Trump esteve associada a benefícios políticos para seus aliados; em outros, provocou reação nacionalista ou teve impacto limitado.

No Brasil, o efeito final dependerá não apenas do que Washington decidir fazer até outubro, mas também de como os próprios eleitores interpretarão qualquer tentativa estrangeira de influenciar uma escolha que, em última instância, será feita nas urnas.

 

( Com Ana Luiza Albuquerque / Folha de S.Paulo )

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