Contexto histórico: da campanha vitoriosa à reeleição
O ‘Samba do Jero’, composto originalmente como jingle da campanha de Jerônimo Rodrigues ao governo da Bahia em 2022, tornou-se um marco na estratégia de comunicação do PT baiano. A música, que mescla ritmo tradicional com letras ufanistas sobre desenvolvimento social e político, foi determinante na construção da imagem de Rodrigues como candidato conectado às raízes culturais e sociais do estado. A vitória do petista naquele ano, com 52,3% dos votos válidos no segundo turno, consolidou a canção como símbolo de sua gestão, sendo posteriormente incorporada a atos governamentais e eventos partidários.
Evento político reafirma unidade partidária
O ato realizado no sábado (9.mai.2026) na Plenária Territorial do Programa de Governo Participativo do Portal do Sertão, na cidade de Feira de Santana, reuniu lideranças históricas do PT baiano. Além do governador Jerônimo Rodrigues, participaram o ex-ministro Rui Costa, pré-candidato ao Senado, e o senador Jaques Wagner, que busca a reeleição. A presença do vice-governador Geraldo Júnior (MDB-BA) — que integra a chapa de Rodrigues — sinalizou a manutenção de alianças interpartidárias, essenciais para a governabilidade em um estado com forte polarização política.
A dança ao som do ‘Samba do Jero’ não foi mera performance midiática, mas uma estratégia deliberada de reforçar a identidade da chapa governista. Especialistas em comunicação política consultados pela ClickNews destacam que a repetição de símbolos associados ao sucesso eleitoral anterior visa minimizar críticas sobre eventual desgaste da gestão atual, especialmente em um cenário de eleições apertadas e possível fragmentação de votos.
Disputas eleitorais de 2026: legado em jogo
As eleições de outubro de 2026 na Bahia apresentam um cenário de alta concorrência, com o PT buscando manter o controle do Executivo estadual após oito anos de gestão. Jerônimo Rodrigues e Geraldo Júnior formalizaram suas candidaturas à reeleição em março deste ano, enquanto Rui Costa anunciou sua candidatura ao Senado em abril, após deixar o Ministério da Casa Civil. A decisão de Costa, ex-governador do estado, foi interpretada como um movimento para capitalizar o capital político acumulado durante seus mandatos anteriores.
Para o cientista político da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Fernando Guerreiro, a estratégia de reviver o ‘Samba do Jero’ reflete a intenção de ‘vender uma narrativa de continuidade’. ‘Em um estado onde o PT já governou por 16 anos ininterruptos, a reeleição depende não apenas de resultados concretos, mas de uma imagem de estabilidade’, analisa Guerreiro. A presença do MDB na chapa, contudo, introduz nuances na narrativa, exigindo que a campanha enfatize a união acima das divergências ideológicas.
Análise crítica: entre a nostalgia e a necessidade de inovação
Críticos do partido, entretanto, questionam a eficácia de recorrer a símbolos do passado em um contexto de mudanças sociais aceleradas. O sociólogo da UFBA, Marcos Lima, argumenta que ‘o ‘Samba do Jero’ é um lembrete de um momento específico, mas não responde às demandas atuais por transparência e accountability’. Ele cita pesquisas de opinião que indicam queda na aprovação do governo Rodrigues em 2025, possivelmente relacionada a crises na saúde pública e no setor educacional.
A estratégia de comunicação do PT baiano, segundo Lima, corre o risco de ser interpretada como ‘estagnação’. ‘O uso repetitivo de um jingle vitorioso pode soar como um recurso de baixa criatividade, especialmente quando o cenário exige propostas concretas para problemas como a seca no sertão ou a violência urbana’, avalia. A ClickNews apurou que, durante o evento, não foram apresentadas novas diretrizes de governo, o que reforça a tese de que o foco permaneceu na evocação emocional.
Perspectivas: alianças e riscos
O evento também reacendeu discussões sobre as alianças do PT com o MDB na Bahia, tradicionalmente pragmáticas. Geraldo Júnior, vice-governador pelo MDB, tem sido um dos principais articuladores da chapa, mas enfrenta resistência em setores do partido que defendem uma postura mais crítica ao governo federal. A proximidade das eleições, contudo, tende a amenizar tais divergências, conforme avaliação de analistas políticos.
Enquanto isso, a campanha de Rui Costa ao Senado enfrenta desafios na construção de uma identidade própria, já que seu nome está fortemente associado à gestão de 2011-2014. ‘Ele precisa se desvincular da imagem de um passado distante para se apresentar como uma alternativa moderna’, observa a analista política Carla Reis. A ClickNews verificou que, durante o evento, Costa enfatizou temas como ‘coesão social’ e ‘desenvolvimento sustentável’, sem detalhar como aplicaria essas pautas em Brasília.
Conclusão: o ‘Samba do Jero’ como espelho da Bahia política
A dança das lideranças petistas ao som do jingle de 2022 simboliza mais do que uma celebração: é um retrato das tensões e estratégias que definirão o futuro político da Bahia. Em um estado onde a música e a política sempre caminharam juntas — desde as canções de protesto dos anos 1980 até os hinos partidários atuais —, o ‘Samba do Jero’ tornou-se um instrumento de poder. Resta saber se, em 2026, ele será suficiente para garantir a continuidade ou se a Bahia exigirá uma nova melodia.




