Contexto histórico e ascensão do One Nation
Fundado em 1997 pela ex-deputada federal Pauline Hanson, o One Nation emergiu como uma força política disruptiva ao combater políticas de imigração, multiculturalismo e acordos comerciais internacionais. Em sua gênese, o partido representava uma reação às mudanças sociais aceleradas na Austrália dos anos 1990, quando a globalização reconfigurava os mercados de trabalho e as identidades culturais. Hanson, então parlamentar independente, foi eleita em 1996 com um discurso anti-establishment que contrastava com o bipartidarismo vigente entre o Partido Liberal e o Partido Trabalhista.
Naquele período, o One Nation obteve resultados expressivos nas eleições estaduais do Queensland em 1998, conquistando 11 assentos no legislativo local. No entanto, divisões internas, escândalos de corrupção e a estigmatização como partido racista levaram a uma queda acentuada nos anos seguintes. Após décadas de ostracismo eleitoral, a sigla ressurgiu com força renovada nas eleições federais de 2022, quando elegeu quatro senadores. Agora, com a vitória em 2024, o partido consolida sua presença como terceira maior força no Parlamento australiano, atrás apenas dos dois partidos tradicionais.
Estratégia eleitoral e apelo aos descontentes
A campanha do One Nation em 2024 foi marcada por uma narrativa anti-sistema, com ênfase em três pilares: imigração, impostos e soberania nacional. O candidato eleito em New South Wales, John Farley, exemplificou esse discurso ao declarar, em entrevista ao ClickNews, que havia “perdido um pouco da fé nos partidos majoritários”. “Eles dizem uma coisa na campanha e fazem outra no Parlamento”, afirmou Farley, ecoando uma crítica recorrente entre eleitores de classes média e trabalhadora, desiludidos com promessas não cumpridas.
Analistas políticos apontam que o sucesso do One Nation decorre de uma combinação de fatores: o desgaste dos partidos tradicionais, a crise de custo de vida e a percepção de que Canberra não representa os interesses das regiões rurais e industriais. Em Queensland, estado tradicionalmente dominado pelo Partido Nacional, o One Nation elegeu dois deputados federais, enquanto no oeste da Austrália conquistou um assento no Senado. Os dados eleitorais revelam um padrão geográfico claro: o partido prospera em áreas economicamente estagnadas e com alta concentração de trabalhadores demitidos da indústria mineira.
Impacto nas políticas migratórias e econômicas
A vitória do One Nation já reverbera nas discussões parlamentares sobre o Migration Act, legislação que regula a entrada de estrangeiros no país. A sigla defende a redução de 40% nos vistos de trabalho temporário e a priorização de trabalhadores locais em setores como mineração e agricultura. Além disso, propõe um imposto de 10% sobre remessas de lucros de empresas multinacionais para o exterior, medida que atraiu apoio de setores sindicais.
No entanto, especialistas em relações internacionais alertam para os riscos de uma política migratória mais restritiva. “A Austrália depende de mão de obra estrangeira em setores-chave, como saúde e construção. Restrições abruptas podem agravar a escassez de profissionais qualificados”, afirmou a economista da Universidade de Sydney, Dra. Laura Chen. Já o ex-primeiro-ministro Malcolm Turnbull (2015-2018) criticou o One Nation por “simplificar problemas complexos”, como a crise habitacional, que segundo ele não será resolvida apenas com redução de imigração.
Reações da classe política e cenário futuro
Os partidos tradicionais reagiram com cautela ao avanço do One Nation. O líder do Partido Trabalhista, Anthony Albanese, classificou os resultados como um “alerta sobre a desconexão entre Canberra e as comunidades regionais”. Já o Partido Liberal, que governou a Austrália por cerca de 20 dos últimos 25 anos, admitiu a necessidade de revisar suas políticas de comunicação com o eleitorado.
O cientista político da Australian National University, Prof. Mark Kenny, avalia que o One Nation não tem força suficiente para formar governo, mas seu crescimento impõe um dilema aos partidos dominantes: como recuperar a confiança dos eleitores sem ceder a pautas populistas. “O fenômeno One Nation é um sintoma de uma democracia em crise, onde a desinformação e a polarização corroem a capacidade de diálogo”, analisa Kenny. A próxima eleição federal, prevista para 2025, será um teste crucial para determinar se o partido consegue se consolidar como alternativa viável ou se sua ascensão foi um fenômeno passageiro.
Perspectivas regionais e internacionais
O sucesso do One Nation não se limita à Austrália. Partidos de extrema-direita em países como Canadá, Reino Unido e Estados Unidos observam com atenção os resultados australianos, buscando replicar estratégias similares. Na Europa, o fenômeno é comparado ao avanço de siglas como a Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha ou o Rassemblement National (RN) na França, que também se beneficiaram do descontentamento com as elites políticas.
Para a Austrália, o desafio imediato é equilibrar as demandas por mudanças estruturais com a manutenção de sua reputação como destino migratório seguro. O governo Albanese já anunciou um pacote de investimentos em infraestrutura regional, buscando atender às regiões que impulsionaram o One Nation. Enquanto isso, o partido prepara sua bancada parlamentar para 2025, com promessas de radicalizar ainda mais suas propostas.




