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O FIM DO CAMINHO DO CAMINHANTE: O CAMINHANTE – Prof. Dr. Elismar Bezerra Arruda

Jeverson
11 de julho de 2026 às 17:38
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O FIM DO CAMINHO DO CAMINHANTE: O CAMINHANTE   – Prof. Dr. Elismar Bezerra Arruda

Imagem gerada por IA

Da lata de carnes, Dona Adelina retirou uma boa porção, bem maior que o usual, e deitou-a numa panela grande que ardia sobre as labaredas vivas do fogão: o cheiro da carne e dos temperos na gordura quente invadiu a casa inteira, e transbordou para o terreiro, ganhando o mundo, até se dissipar, como tudo no mundo; ela preparava a comida para os parentes e aderentes que, avisados, prestativos e piedosos, solidários na situação incomum, acorreram ao chamado de Anastácio. Ao chegarem, as pessoas imergiam naquela ambiência singular, marcada pelo respeito triste à morte, contrastando com o cheiro bom da comida a plenificar os sentidos e lembrar coisas leves, alegres, e avivar os ânimos e desejos para mais vida gozosa; porque, o encontro de irmãos e tios e primos e filhos e afilhados, formava uma atmosfera de benquerenças revestidas da religiosidade de mais saber praticar, em obediências, resguardos, caridade e penitências, que o dizer palavras de rezas rezadas em catedrais…

Conhecidos, complanavam-se na satisfação de se reverem, ainda que na situação funesta; chegavam, apeavam dos animais e, sem o alarde da alegria costumeira, primeiramente cumprimentavam os donos da casa, depois, os demais, apertando-se as mãos, abraçando-se em abraços frouxos, dizendo à meia voz votos e relembranças. O caminhante, envolto noutra e nova ambiência, via tudo com estranheza e certo contentamento, à vista de tudo aquilo ser para ele-morto: um cuidado e zelo que não tivera na vida, aquela dedicação terna, amorosa e desinteressada do velho Anastácio e dos seus; que, diante dos parentes e de todos os que chegavam, comportavam-se como donos do defunto. Estava comovido com aqueles gestos e olhares condolentes, que expressavam uma tristeza saudosa de quem nem conheciam; talvez, porque intuíssem ter sido o seu caminhar, de solidão e doer, de buscas e de muito pouco ou nada achar, até ali: ao fim. Fim!? Perguntou-se a si, como a querer sair dali e ir além, seguir: retomar-se, por seu ser, pelo que era; aí, olhou e nada mais viu, nem sentiu – senão, um esmorecer gozoso, desfalecente, como um fumo que vai se desfazendo, até nada ser: não vendo, nem sentindo, nem sendo…

Pendia o sol para o ocaso, e o vento junino refrescava a tarde, aliviando o calor: pouco mais de uma dúzia e meia de pessoas adultas, mais um quase mesmo tanto de meninos e meninas formavam o cortejo fúnebre, que rumava ao Campo Santo. À frente da procissão ia o ataúde carregado por seis homens, que o seguravam pelas alças de lona, com o velho Anastácio e Mané Preto, seu compadre de muita consideração, à frente; o esforço para carregar o morto no caixão feito com tábuas lavradas, grossas, pesadas, por mestre carapina Pedro Serra, fazia irem devagar, em passos lentos, silentes, consternados. Atrás, num quase acalanto para não despertar quem dorme, todos os demais entoavam cantos de Encomendação das Almas, Benditos, em afinamentos sertanejos, melodiosos…

 

No cemitério, em que descansavam o pai, a mãe e dois ou três parentes de Anastácio, mais algumas crianças-anjinhos, natimortas, Eleutério, Romildo e Zé Ramiro aguardavam o cortejo com a cova cavada, em sete palmos medida. À beira da cova puseram o caixão e todos o rodearam para os cantos e rezas finais: acenderam os murrões (aquelas velas escuras, feitas de sebo de boi e carneiro), rezaram fervorosamente, conforme a fé que os unia no mesmo sentimento. Aí, em quase sussurro, lúgubre, passaram as cordas sob o féretro, suspenderam-no sobre o buraco, e foram descendo-o vagarosamente até assentá-lo no fundo da cova; puxaram as cordas de volta, deixando-o ali, para os gestos finais. Então, cada um dos presentes jogou três mãos de terra sobre o caixão, depois, os três coveiros, usando pá e enxada, arrastaram de volta pra cova, a terra cavada: o som soturno da terra caindo sobre o caixão se impôs a tudo, num silêncio que subtraía todos os sentidos; que foi diminuindo, com a terra enchendo a cova até cobrir tudo, e formar um pequeno monte de terra viva, vermelha – por fim, enfiaram na terra fofa, circundando toda a sepultura, velas em chamas vivas e quentes: estava sepultado, o caminhante…

Sim, é no Caminhar que gente vai se completando, fazendo e refazendo-se, engrandecendo-se do tempo e das distâncias que foram se entranhando pelas coisas todas que se viu, que se tocou, que se sentiu e fez e refez, formando o espírito que ri e chora em face do outro, no vivenciamento. Gente é feito de gente e povos e natureza, no admirar as maneiras de ser dos bichos e das aves e das plantas, do voar das nuvens, a aprender benquerenças, que é quando se faz belíssima, a pessoa; que até pega a rezar, pra não ser ruim, maldosamente. Mas, tudo carece de paciência pra ser o que é sonhado, pois, o que é, essencialmente, não se enxerga só de olhar: demora a brotação do saber. Gente é difícil de se fazer: não nasce naturalmente da carnalidade gozosa, não; o que é a pessoa sem o saber de si e do mundo? É no saber o mundo, que a Gente sabe de si e se faz livre: Liberdade é saber, amorosamente; assim, foi que depois de se entristecer por mais de quarenta noites e quarenta dias, insone, inapetente, no curso de cujo tempo se perdeu, remoendo-se doridamente, que Mayuan amanheceu-se…

Aí, desprendida das coisas, solta dos laços do interesse de querer além do necessário pra ser o que achou e creu lhe ser necessário, alegrou-se consigo e se amou, e quis amar mais à vista do que amava: deu-se à leveza de quase se rir do que seria, seguindo o curso em que sempre estivera subsumida, a cumprir as vontades e reluzir as posses patriarcais. Brotou na face o contentamento exibido do riso novo, resumo e sinal de todo o sentimento que a elevava livre do peso daquela herança bicentenária; aí, tomando-se pra destino próprio seguir, olhou o teto do quarto sobre a cama em lençóis de linho e conforto, despedindo-se: ia encontrar o que se dera à estrada condoído de si, machucado pelo desamparo que teve dela, e dizer-lhe tudo isso. Queria mostrar em corpo e amorosidade aquela sua maior criação, aquela arte que fizera de si mesma – e que viu se rindo-se, no espelho…

Ouviu silente os manifestos paterno-maternos de incredulidade, a pressagiar que as agruras do caminho lhe fariam voltar – e, com aquele riso-aberto no rosto, mostrando alma nova, partiu. No caminho foi sabendo mais de si, animando-se mais para nunca mais parar o caminhar próprio: empregou-se em serviços agrestes pela diária de pão e pouso, exibiu-se em praça como a artista que sempre pareceu ser: declamou escritos de Cervantes, Homero e Pessoa, contos e poemas guardados na memória, cantou árias, recitativos, com voz de encantar, à emoção, lugares e suas gentes; despertou olhares e ouvidos ignaros, que nunca tinham visto e ouvido aquelas maravilhas. Assim ia embrenhando-se mais no mundo, reconhecendo-se na alegria de ser o que estava sendo, até chegar em Brejos dos Jacus: ali soube que ele, não só estivera, mas, que ficara por quase mês, arranchado na pensão de Lázara Antônia: – Sim, ele teve aqui; mas, tem muito tempo isso: parecia ter entristecimento nele. Era muito ladino, muito sabido em tudo quanto era conversa; aí foi embora…

Com o instinto transcendente de mulher-em-construção, Mayuan seguiu auscultando os passos do caminhante na terra, guiada pelos cheiros conhecidos dele, entranhados no mais íntimo de si; pois, se o sentir carece do corpo pra ser, é na alma que ele se assenta e se guarda, reconditamente. Daí que, ouvindo e vendo a dona da pensão falar dele, lembrou mais e amorosamente o seu jeito manso, paciencioso, do falar medindo as palavras entremeadas com um riso bom; lembrando muito, deitou-se cedo, na boca da noite, e dormiu sono profundo. Acordou na madrugadinha e, da cama estreita do quartinho da pensão, a olhar o teto sem forro, ficou esperando a velha acordar para se levantar…

–Bom Dia, Dona Lázara! Cumprimentou a dona da pensão, sentando-se à mesa, próxima do fogão, e ficou a observa-la movimentando-se na cozinha, sem pressa: uma área ampla, coberta com palha piaçava, com uma única parede, que abrigava de chuva e vento o fogão a lenha; de móveis: a mesa grande com cadeiras ao redor, um armário com pratos e xícaras e colheres e conchas e panelas, além de outros utensílios de plástico e ágata: copos, bacias, tigelas, bules e chaleiras. Tomou o café e, ao se despedir da velha com palavras de agradecimento e lhe pagar o pouso, recebeu dela dois pedaços de bolo de puba enrolados em papel grosso, e uma pequena lata com farofa de carne: –É pra não passar fome no caminho, moça. Que Nosso Senhor lhe acompanhe.

Mayuan retomou o Caminho a cismar sobre Jacu dos Brejos: um lugar perdido do mundo, com umas cinco ou seis dezenas de casas e uma gente sem vontade de voltar ou ir além dali; e teve por certo que a vida não é só desassossego, nem o desesperar sem-fim das pessoas para terem o que lhes faria ser o que nem concebem bem o que seria. Não sabia quem chegou ali primeiro, mas, viu a verdade de que, ao se assentar nalgum ermo, e fazer daquele sítio o seu lugar de viver e sonhar, o vivente eleva o seu lugar a centro do mundo: ali as distâncias nascem e, dali ao além, é que são medidas, por necessidade, por interesse. Daí é que se estima as lonjuras com o tempo de viver e sonhar, e se formam as distâncias a serem cumpridas no caminhar de cada um; eis que, sem aquele vivente assentado lá, o caminho seguiria sem fim, sem a finalidade que o faz ser o que é.

Ela estava a caminho, indo para o que descobrira ser o centro do mundo: a liberdade de se dar ao amor por si, e ao que descobrira amar. Caminho é gente viva a caminhar, querendo chegar aonde acha que pode ser o sonhado; que não é um lugar: pela redondeza do mundo e da cabeça no mundo, onde estiver um, ali começa o mundo, e termina. Mayuan foi sabendo disso mais e mais, no chegar e pousar e partir dos sítios todos onde estivera; ia reparando o espanto dos que a acolhiam, e a ganhar entendimento do seu caminhar de mulher-só: “Uma mulher sozinha, a caminho? Certo, não é…”. Ouvia esses sussurros, e se ria; sabendo mais do mundo e de si, tecia-se: tramando a liberdade…

* Professor Dr. Elismar Bezerra Arruda. Doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense (2017). Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (2011). Possui Graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Mato Grosso (1986). Atualmente é efetivo – Secretaria de Estado de Educação e efetivo – Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá.
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