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O ENGRAXATE – Por Wilton Emiliano Pinto

Jeverson
24 de outubro de 2026 às 15:23
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O ENGRAXATE  – Por Wilton Emiliano Pinto

Divulgação. Imagem gerada por IA

Uma viagem por mais de seis décadas de lembranças, dificuldades e saudade de um tempo que não volta.

Há lembranças que dormem quietinhas dentro da gente, guardadas em algum canto da memória, até que um pequeno acontecimento as desperte.
Às vezes, basta um cheiro, uma música, uma fotografia antiga ou, como aconteceu comigo, uma simples latinha de pasta para lustrar sapatos.

Hoje, fui conhecer o novo supermercado PRESUNIC, inaugurado aqui perto de casa.
Andava pelos corredores, observando as prateleiras e as novidades, quando parei diante dos produtos para engraxar sapatos.

Lá estava ela: uma pequena latinha de pasta para lustrar calçados.

Por alguns instantes, deixei de estar no supermercado.
Voltei mais de 68 anos no tempo.
Estava novamente na antiga Campininha, menino de uns doze anos, vivendo as dificuldades de uma família que lutava para sobreviver.

Eu havia chegado de Piracanjuba com minha família.
Meu pai não tinha emprego fixo.
Fazia pequenos fretes com seu caminhãozinho, um Ford 46, tentando garantir o sustento da casa.
Eram tempos difíceis, em que cada tostão tinha seu valor.

Eu queria ajudar em casa e também tinha meus pequenos desejos.
Queria comprar livros, estudar, aprender.
Mas, naquela idade, encontrar trabalho não era fácil.
Foi então que surgiu a possibilidade de engraxar sapatos.

Alguém, não me lembro bem quem, talvez meu próprio pai, fez para mim uma pequena caixa de engraxate.
Nela eu guardava as escovas, as latinhas de graxa preta e marrom e os panos necessários para aquele ofício que marcaria minha infância.

E lá ia eu pelas ruas de Campinas, percorrendo a Avenida 24 de Outubro e a Praça Joaquim Lúcio, procurando alguém disposto a me oferecer um par de sapatos para engraxar.

Naquele tempo, engraxar sapatos era um hábito comum.
Havia engraxatarias conhecidas, entre elas uma famosa que funcionava na Rua 8, hoje Rua do Lazer, no centro de Goiânia.
Também havia meninos como eu, que percorriam as ruas em busca de alguns trocados para ajudar em casa.

Não me lembro de todos os rostos, nem de quantos sapatos lustrei.
O tempo apaga muitos detalhes, mas conserva aquilo que realmente importa.
Lembro-me da luta diária, da esperança de conseguir algum serviço e da satisfação de voltar para casa com o dinheiro que, ao final do dia, entregava à minha mãe.

Foram cerca de três anos nessa vida.
Três anos de trabalho e andanças, de uma infância diferente daquela que hoje desejamos para nossas crianças.

E agora, tantos anos depois, aquela latinha me fez reviver tudo isso.

O que mais me impressionou foi perceber que ela continuava praticamente igual:
o mesmo tamanho, o mesmo formato, o mesmo jeito de abrir, a mesma marca, o mesmo desenho.

O mundo mudou muito.
Os sapatos já não são engraxados com a mesma frequência, as cidades cresceram e os costumes se transformaram.
Aquele menino de doze anos ficou para trás, perdido nas páginas do calendário.

Mas a latinha permaneceu.

Saí daquele corredor levando comigo muito mais do que a lembrança de uma antiga profissão.
Levei a imagem de meu pai e seu Ford 46, o rosto de minha mãe, a pequena caixa de madeira e os passos de um menino que, sem compreender inteiramente as dificuldades da vida, já aprendia a enfrentá-las.

Hoje, não sei quanto custa aquela latinha, nem quanto tempo ainda permanecerá nas prateleiras.
Sei apenas que, para mim, seu valor não está no preço, mas naquilo que ela guarda.

Porque existem objetos que servem para lustrar sapatos.
E existem outros, como aquela pequena latinha, que têm o poder de lustrar a memória, fazendo brilhar novamente os dias que julgávamos esquecidos.

Afinal, a infância passa, o tempo não volta, mas certas lembranças continuam novinhas em folha ou, quem sabe, brilhando como um sapato recém-engraxado.

Wilton escreve sobre memórias que resistem ao tempo, saudades que nunca envelhecem e as pequenas coisas que iluminam a vida.

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