O mundo da gastronomia e da defesa do meio ambiente perdeu nesta segunda-feira uma de suas vozes mais influentes: Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food e presidente da organização por quase quatro décadas, faleceu aos 76 anos. Sua morte, confirmada pela família, encerra uma trajetória marcada pela ruptura com os padrões alimentares industrializados e pela promoção de sistemas alimentares justos e regenerativos.
A gênese de uma revolução alimentar
Petrini nasceu em 1949 em Bra, pequena cidade italiana que se tornaria o epicentro de uma das mais significativas transformações culturais do século XX. Em 1986, após o lançamento da McDonald’s em Roma, Petrini fundou o Slow Food como resposta direta à homogeneização dos hábitos alimentares e ao apagamento das tradições locais. O que começou como um protesto simbólico contra a padronização do paladar rapidamente evoluiu para um movimento estruturado, com presença em mais de 160 países.
Do manifesto à rede global: a arquitetura de um movimento
Sob sua liderança, o Slow Food não se limitou a criticar o fast food. Petrini construiu uma rede complexa de iniciativas, incluindo a criação de Arcos da Comunidade, feiras de produtores locais e a fundação da Universidade das Ciências Gastronômicas em Pollenzo, Itália. Seu trabalho transcendeu fronteiras ao demonstrar que a alimentação poderia ser um vetor de desenvolvimento econômico sustentável, preservação ambiental e justiça social. “Comer é um ato agrícola e político”, tornou-se um de seus mantras.
A influência que ultrapassou os limites da cozinha
Petrini construiu pontes improváveis: sua rede de contatos incluía desde camponeses até monarcas e líderes religiosos. Tornou-se amigo pessoal do Rei Charles III, com quem compartilhava a visão de que a alimentação saudável é direito fundamental. Sua relação com o Papa Francisco, outro crítico da globalização alimentar, levou à inclusão de temas como agroecologia na agenda vaticana. Em 2016, foi nomeado Cavaleiro da Grande Cruz da Ordem do Mérito da República Italiana, reconhecimento que coroou sua contribuição para a cultura e a identidade nacional.
Legado: o que permanece após a partida do mestre
Embora Petrini tenha deixado a presidência do Slow Food em 2017, seu legado continua vivo em iniciativas como o Terra Madre Salone del Gusto, a maior feira internacional de alimentação sustentável, e nos 160 países onde o movimento mantém presença ativa. Analistas destacam que sua maior contribuição foi demonstrar que a gastronomia pode ser uma ferramenta de transformação social quando alinhada a princípios éticos. “Petrini não apenas mudou como comemos, mas como pensamos sobre comida”, avalia a antropóloga italiana Elisabetta Moro.
O futuro do Slow Food sem seu fundador
Com a ausência de Petrini, o movimento enfrenta o desafio de manter sua coesão em um mundo cada vez mais polarizado entre a busca por soluções tecnológicas para a fome e as demandas por sistemas alimentares ancestrais. Especialistas ouvidos pela ClickNews apontam que o vazio deixado por Petrini será preenchido, em parte, pela geração de jovens ativistas que cresceram sob a influência de suas ideias. “O Slow Food sobrevive porque se tornou maior que uma pessoa”, argumenta o chef brasileiro Alex Atala, membro honorário do movimento desde 2012.




