Contexto histórico e religioso na Sri Lanka
A Sri Lanka, ilha localizada no oceano Índico, possui uma sociedade profundamente marcada pela convivência entre a religião budista — que representa aproximadamente 70% da população — e minorias étnicas e religiosas, como hindus, muçulmanos e cristãos. O budismo theravada, maioritário no país, exerce influência significativa não apenas na esfera cultural, mas também em estruturas de poder locais e nacionais. Historicamente, mosteiros e líderes religiosos budistas desfrutam de prestígio social e, em muitos casos, de imunidade simbólica frente ao escrutínio público. Contudo, episódios recentes têm evidenciado que a autoridade moral e espiritual nem sempre está alinhada à conduta ética exigida por leis civis e direitos humanos fundamentais.
Crime e denúncia: a vítima e as circunstâncias
Segundo relatos oficiais da Autoridade de Proteção à Criança e Desenvolvimento da Sri Lanka (NCPD), uma adolescente de 16 anos teria sido vítima de estupro por parte de um monge budista identificado como Venerável Ampitiye Samantha Thero, vinculado a um templo na província de Sabaragamuwa. A denúncia teria sido apresentada inicialmente em outubro de 2023, mas a polícia local teria se recusado a instaurar inquérito por meses, sob alegações de falta de provas ou pressão social. A NCPD, contudo, classificou a inação policial como ‘gravemente negligente’ e ‘potencialmente criminosa’, ao violar o artigo 365 do Código Penal do país, que criminaliza a omissão de autoridades em casos de crimes contra menores.
Em comunicado emitido em 12 de março de 2024, a NCPD acusou publicamente a polícia de ‘proteger interesses de grupos religiosos’ em detrimento da justiça. A autoridade, que atua como órgão consultivo do governo para políticas de infância, afirmou ter reunido ‘provas substanciais’, incluindo depoimentos da vítima, testemunhas e registros médicos que confirmariam a agressão. A prisão preventiva do monge, ocorrida na manhã desta segunda-feira, foi autorizada pelo Tribunal Superior de Ratnapura, que considerou os indícios ‘suficientes para configurar crime de estupro qualificado’.
Pressões institucionais e resistência social
A prisão do monge gerou reações conflitantes na sociedade cingalesa. Enquanto organizações de direitos humanos, como a Rede de Advogados pela Justiça na Ásia (LAJ), comemoraram a decisão como ‘um marco na luta contra a impunidade religiosa’, setores conservadores ligados a associações budistas tradicionalistas protestaram contra o que classificaram como ‘perseguição a figuras sagradas’. Em declaração à imprensa, o Movimento pela Preservação da Tradição Budista (MPTB) afirmou que ‘a justiça deve ser aplicada sem distorcer os valores espirituais’, gerando tensão com ativistas que exigem celeridade processual.
Falhas no sistema de justiça: um padrão recorrente
O caso do monge Venerável Samantha não é isolado. Em 2021, outro líder religioso budista, o monge Galagoda Aththe Gnanasara, foi condenado por assédio e agressão contra uma mulher, após anos de impunidade. A lentidão judicial em casos envolvendo figuras religiosas contrasta com a rapidez em processos contra civis, levantando suspeitas de viés institucional. Especialistas como a socióloga Nandani Senanayake, da Universidade de Colombo, destacam que ‘a cultura de reverência aos monges cria um ambiente propício à impunidade, mesmo em crimes hediondos’.
O relatório anual da NCPD de 2023 apontou que 42% das denúncias de violência sexual contra menores na província de Sabaragamuwa não resultaram em investigação formal, em grande parte devido à relutância de vítimas e testemunhas em depor contra acusados com status religioso. A organização também denunciou que policiais frequentemente ‘aconselham’ vítimas a retirar as acusações para ‘evitar escândalos públicos’.
Desdobramentos legais e expectativas
Com a prisão do monge, o Ministério Público da Sri Lanka anunciou que o caso será encaminhado ao Tribunal Superior de Colombo, onde poderá ser julgado por um júri popular. A promotoria já solicitou exames de DNA de amostras coletadas da vítima e do acusado, além de perícias psicológicas para avaliar o estado emocional da adolescente. Advogados da defesa, contudo, já manifestaram intenção de alegar ‘imunidade religiosa’, baseando-se em interpretações controversas do artigo 10 da Constituição cingalesa, que garante liberdade religiosa, mas não isenta líderes religiosos de responsabilização criminal.
Impacto internacional e cobrança por reformas
O caso ganhou repercussão internacional, com a Anistia Internacional emitindo nota condenando a ‘sistemática falha do Estado em proteger menores’. A organização cobrou reformas no sistema judiciário, incluindo a criação de uma unidade especializada em crimes sexuais contra crianças. A Comissão de Direitos Humanos da ONU também instou o governo a ‘rever políticas de promoção de monges que violem direitos humanos’, citando o caso como exemplo de ‘abuso de poder simbólico’.
Perspectivas futuras: entre a justiça e a tradição
Enquanto aguarda julgamento, o monge permanece detido em uma prisão de segurança máxima na província de Ratnapura. O caso reacendeu debates sobre a necessidade de revisão das leis cingalesas que regulamentam o status dos monges, especialmente aquelas que os tornam intocáveis perante investigações policiais. Para especialistas como o jurista Lakshman Peiris, ‘a sociedade cingalesa enfrenta um dilema: como conciliar a preservação de valores culturais com a aplicação universal da lei?’.
O desfecho desse caso poderá definir não apenas o futuro de dezenas de vítimas de violência sexual no país, mas também o grau de maturidade institucional da Sri Lanka em garantir justiça para todos, independentemente de posição social ou religiosa.




