O início precoce e a internalização dos padrões de beleza
A carreira de Luciana Gimenez na indústria da beleza teve início aos 13 anos, quando ingressou no mercado como modelo. Nas décadas de 1980 e 1990, período em que despontou, o setor era regido por critérios rígidos de estética, com corpos esguios, proporções simétricas e juventude como requisitos quase obrigatórios. Estudos da American Psychological Association (APA) sobre padrões de beleza em modelos demonstram que profissionais desse ramo apresentam taxas significativamente superiores de transtornos dismórficos corporais e ansiedade em comparação à população geral. A exposição prolongada a ambientes onde a aparência é constantemente avaliada — e muitas vezes rejeitada — pode gerar um fenômeno conhecido como internalização da pressão social, no qual o indivíduo passa a incorporar os julgamentos externos como verdades absolutas sobre si mesmo.
A autocrítica como legado de uma carreira construída sob escrutínio
Em depoimento à apresentadora Maya Massafera, Luciana Gimenez admitiu que, após 43 anos de trajetória, ainda luta contra uma autocrítica incessante. “Eu exijo muito, nunca está bom. Não é que eu me ache bonita, estou sempre me criticando”, declarou. Essa fala reflete um padrão comportamental documentado em pesquisas da Universidade de Harvard, que identificou que profissionais expostos a ambientes de alta performance estética desenvolvem mecanismos de autoavaliação hipercríticos, muitas vezes desproporcionais à realidade. A psicóloga clínica Dra. Ana Carolina Peuker, especialista em distúrbios alimentares, explica que “a comparação constante com padrões inalcançáveis leva a um ciclo de frustração, no qual a pessoa jamais se sente suficiente”.
A paradoxal relação entre dom profissional e autoexigência
Luciana Gimenez, que transformou a beleza em sua principal ferramenta de trabalho, enfrenta um paradoxo: o que antes foi seu instrumento de sucesso agora se tornou fonte de angústia. “É difícil você abrir mão de uma coisa que sempre foi o seu dom”, afirmou em referência à pressão para manter padrões de juventude. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) indicam que mulheres acima de 50 anos representam 22% dos procedimentos estéticos realizados no Brasil, um reflexo da dificuldade em lidar com as mudanças naturais do envelhecimento. No entanto, a apresentadora revelou temer recorrer a tais procedimentos, temendo não gostar dos resultados — um fenômeno conhecido como síndrome do resultado insatisfatório, comum em pacientes que buscam correções estéticas após anos de exposição a imagens idealizadas.
O peso do tempo e a busca por um equilíbrio frágil
A fala de Gimenez sobre a “beleza passageira” toca em um tema sensível: a depreciação do valor profissional com o avançar da idade. Segundo a socióloga da Universidade de São Paulo (USP) Dra. Maria Aparecida Baccega, “a mídia e a indústria cultural perpetuam a ideia de que a mulher deve ser eternamente jovem, o que contribui para a desvalorização de trajetórias que transcendem a estética”. A apresentadora, que atualmente comanda programas de televisão e radiofonia, exemplifica como a sociedade tende a reduzir a relevância de mulheres maduras a aspectos meramente visuais, ignorando suas contribuições em outras esferas. A psicóloga Dra. Evelyn Eisenstein, coordenadora do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA), alerta que “a obsolescência imposta às mulheres com mais de 50 anos é um constructo social, não uma verdade biológica”.
Os desdobramentos de décadas de exposição pública
O impacto psicológico de uma carreira dedicada à imagem não se limita à autoimagem. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP identificaram que modelos e apresentadoras com trajetórias semelhantes à de Gimenez apresentam maior propensão a desenvolver transtornos alimentares, depressão e dependência de substâncias para lidar com a pressão. A apresentadora não detalhou se buscou acompanhamento profissional, mas sua fala sugere uma conscientização tardia dos efeitos da indústria sobre sua saúde mental. “Acho que talvez eu seja exigente demais com o meu peso e com essa questão da aparência”, confessou. Especialistas como a nutricionista Dra. Sophie Deram destacam que “a hipervalorização da magreza e a demonização de certos tipos corporais podem levar a distorções alimentares permanentes”.
A indústria da beleza em transformação: há espaço para a redefinição de padrões?
Nos últimos cinco anos, movimentos como Body Positive e Aging Empowerment têm ganhado força, contestando os padrões unilaterais de beleza. Marcas internacionais, como Dove e Getty Images, passaram a incluir em suas campanhas modelos com mais de 50 anos, idosos, pessoas com deficiência e corpos não convencionais. No entanto, a mudança ainda é lenta: segundo relatório da McKinsey & Company, apenas 12% das mulheres acima de 50 anos se sentem representadas em campanhas publicitárias. Para a jornalista e ativista Jout Jout, “a inclusão não pode ser apenas um discurso de marketing; é preciso que as estruturas de poder dentro da indústria — agências, produtoras e veículos de comunicação — sejam repensadas”.
Perspectivas para o futuro: entre a aceitação e a resistência
Luciana Gimenez encerrou sua entrevista com uma nota de esperança, embora ainda cautelosa: “Uma hora, eu vou falar: agora o medo é menor do que a vontade de melhorar”. Essa fala pode ser interpretada como um sinal de que, mesmo tardiamente, a apresentadora está buscando um novo equilíbrio. Pesquisas da Universidade de Cambridge indicam que mulheres na faixa dos 50 a 60 anos que desenvolvem autocompaixão apresentam melhora significativa em índices de satisfação corporal. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), por exemplo, tem se mostrado eficaz no tratamento de distorções de autoimagem, ajudando indivíduos a desafiar pensamentos automáticos negativos. Enquanto isso, o público aguarda se a trajetória de Gimenez — que já foi sinônimo de beleza inatingível — poderá, em seus próximos anos, servir de exemplo de resiliência, em vez de um alerta sobre os custos emocionais da indústria da imagem.




