A relatoria do caso “Dark Horse” no STF coloca o ministro no centro de um processo com potencial para produzir efeitos jurídicos e políticos durante a campanha eleitoral
Relatoria amplia exposição de ministro indicado por Bolsonaro
A designação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para relatar as apurações relacionadas ao caso “Dark Horse” colocou o magistrado em uma posição sensível. A investigação envolve possíveis repasses do empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, à produção de um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro e ocorre em meio ao embate público entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Mendonça mantém relação de amizade com Michelle, construída ainda durante o governo Bolsonaro, quando ocupava o cargo de advogado-geral da União. A proximidade entre os dois, associada à ausência de vínculo mais estreito com Flávio, passou a ser observada com atenção por aliados do senador e por integrantes do próprio Supremo.
Embora o inquérito ainda não tenha sido formalmente instaurado, o ministro afirmou a interlocutores que conduzirá o caso com base nos elementos apresentados pela Polícia Federal. Segundo pessoas próximas, Mendonça sustenta que eventuais decisões serão tomadas a partir das provas reunidas nos autos, sem interferência de preferências pessoais, afinidades políticas ou relações privadas.
Decisões podem repercutir em disputa familiar
Nos bastidores, aliados de Flávio demonstram preocupação com a possibilidade de que uma medida judicial contra o senador seja interpretada como reforço à ofensiva política de Michelle. A ex-primeira-dama e o filho mais velho de Jair Bolsonaro romperam publicamente em razão de divergências sobre alianças do PL nas eleições para o Governo do Ceará.
O ponto mais agudo da crise ocorreu em 24 de junho, quando Michelle publicou vídeos nas redes sociais nos quais acusou Flávio de desrespeitá-la e de tratá-la de forma inadequada. Desde então, integrantes do entorno do senador afirmam que a ex-primeira-dama estaria atuando para desgastar sua pré-candidatura e insinuando possuir informações capazes de afetar sua imagem pública.
Ministros do Supremo ouvidos sob reserva avaliam que qualquer decisão de Mendonça desfavorável a Flávio poderá ser explorada no ambiente político. Para parte desses magistrados, o caso representa um dos principais testes da atuação do ministro desde sua chegada ao STF, em 2021, por indicação do então presidente Jair Bolsonaro.
Amizade com Michelle fica sob escrutínio
Mendonça reconhece, em conversas reservadas, a relação de amizade com Michelle Bolsonaro, mas rejeita que esse vínculo possa interferir em sua atuação judicial. O ministro também afirma não manter proximidade com Flávio Bolsonaro a ponto de comprometer sua imparcialidade.
A ligação com a ex-primeira-dama se consolidou no início da gestão Bolsonaro, em um contexto de afinidade religiosa. Ambos são evangélicos, e Michelle teve participação relevante na articulação que levou Mendonça a ser indicado ao Supremo. À época, Flávio Bolsonaro defendia outro nome para a vaga: o do então procurador-geral da República Augusto Aras.
PGR ainda precisa se manifestar sobre investigação
A abertura formal de um inquérito contra Flávio Bolsonaro no STF depende de manifestação da Procuradoria-Geral da República. Na semana passada, Mendonça pediu parecer do órgão sobre o pedido de investigação apresentado pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). Não há prazo definido para o envio da resposta.
O ponto central da apuração envolve o financiamento de “Dark Horse”, produção audiovisual sobre Jair Bolsonaro. Flávio procurou Daniel Vorcaro para buscar recursos destinados ao filme. O empresário teria repassado R$ 61 milhões à produção, mas um áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil revelou o senador cobrando novos valores para concluir o longa-metragem.
A suspeita investigada é de que os recursos possam ter origem em fraudes financeiras atribuídas ao Banco Master, caso que resultou na prisão preventiva de Vorcaro. A Polícia Federal também apura se parte do dinheiro teria sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
Flávio e Eduardo negam irregularidades
Flávio Bolsonaro nega qualquer ilegalidade. O senador afirma que sua relação com Vorcaro se limitou à tentativa de captar recursos para a realização do filme. Segundo ele, a informação não foi compartilhada com aliados em razão de uma cláusula de confidencialidade prevista em contrato.
Eduardo Bolsonaro também rejeita as suspeitas levantadas pela Polícia Federal. O ex-deputado classificou a linha de investigação sobre ele como “tosca”.
Caso pode atravessar campanha eleitoral
Auxiliares de Mendonça reconhecem que as apurações envolvendo o Banco Master e seus desdobramentos tendem a avançar sobre o calendário eleitoral. Nesse cenário, eventuais decisões do ministro poderão produzir efeitos para além do campo jurídico, interferindo diretamente no ambiente político e nas movimentações de partidos e candidaturas.
No Congresso, parlamentares já avaliam que Mendonça terá papel decisivo no desfecho do caso e, possivelmente, no equilíbrio de forças durante a disputa de outubro. A relatoria, portanto, coloca o ministro em uma posição de alta exposição institucional, em um processo que combina investigação financeira, tensão familiar e impacto eleitoral.
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