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Política

Lula encara disputa acirrada e busca reverter desvantagem inédita no segundo turno

João
7 de outubro de 2026 às 08:45
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Lula encara disputa acirrada e busca reverter desvantagem inédita no segundo turno

Foto: Reprodução/Ricardo Stuckert/Vittor Sales

Diferença de apenas 1,9% para Flávio Bolsonaro reduz distância histórica, mas força política da oposição impõe obstáculos ao presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao segundo turno das eleições deste ano em uma posição que combina desvantagem eleitoral e uma distância relativamente pequena em relação ao primeiro colocado. Embora tenha terminado a primeira etapa da disputa atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o petista terá pela frente uma tarefa sem precedente desde a retomada das eleições presidenciais diretas no país: superar no segundo turno um adversário que terminou à frente no primeiro.

A diferença registrada nas urnas, porém, distingue o atual cenário de outras disputas presidenciais desde a redemocratização. Lula recebeu 2,2 milhões de votos a menos que Flávio Bolsonaro, o equivalente a 1,9% dos votos. Trata-se da menor distância entre os dois primeiros colocados em uma eleição presidencial brasileira desde 1989.

“Embora nunca tenha havido uma virada de segundo turno em eleições presidenciais no Brasil, também nunca houve uma diferença tão pequena”, avalia o cientista político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Apesar da proximidade numérica, especialistas consideram que a reversão do resultado continua sendo uma possibilidade de baixa probabilidade. A vantagem do candidato adversário, somada à força demonstrada pelo bolsonarismo nas urnas, cria um cenário especialmente complexo para o atual presidente.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, o presidente tem uma “missão improvável” pela frente. “Mas não é impossível”, destaca o cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral.

A questão central, portanto, é saber se a menor diferença registrada entre os líderes de um primeiro turno pode oferecer a Lula condições mais favoráveis para tentar uma recuperação histórica na segunda etapa da eleição.

Uma desvantagem menor não elimina os obstáculos

A diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro aparece como um dos principais elementos que podem favorecer o presidente na nova fase da campanha. Em disputas anteriores, candidatos que chegaram ao segundo turno em segundo lugar precisaram superar desvantagens mais expressivas.

Outro fator que entra no cálculo eleitoral é o elevado número de eleitores que não compareceram às urnas. Ao todo, 33,4 milhões de pessoas deixaram de votar no primeiro turno, correspondente a 21,08% do eleitorado apto.

“Em termos numéricos, o Lula está com vantagem [em comparação a eleições anteriores], porque ele tem, por exemplo, uma diferença muito menor do que o Jair Bolsonaro tinha dele no primeiro turno em 2022. Mas talvez seja a única diferença. Lula e Bolsonaro foram mandatários que estavam no poder, mas nenhum conseguiu se projetar à frente na disputa”, diz a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV).

A condição de presidente em exercício também pode representar uma vantagem para Lula durante a campanha pelo segundo turno. Na avaliação de Barbosa, a estrutura política e institucional associada ao cargo pode desempenhar papel relevante na tentativa de alterar o resultado da primeira votação.

“Ele tem o uso da máquina, e vimos que isso pode ser um fato relevante mesmo em tempos digitais. Em 2022, por exemplo, o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu diminuir significativamente a diferença para o Lula, que então estava na oposição, fazendo isso ao longo do segundo turno.”

Ao mesmo tempo, o desempenho de Flávio Bolsonaro acrescenta dificuldades à estratégia petista. O resultado obtido pelo candidato do PL superou expectativas e reforçou a presença eleitoral do campo bolsonarista.

“A força que Flávio demonstrou nas urnas, diz Barbosa, dificulta o futuro de Lula na Presidência do país. “O Flávio teve um desempenho acima do esperado. Terminou na frente do Lula. Vindo como candidato da oposição, ele está demonstrando uma força enorme. E eu penso que não apenas o desempenho dele foi melhor do que o do pai em 2022, como a direção geral das eleições está mostrando o crescimento do bolsonarismo no país.”

Tempo curto exige mudança rápida de estratégia

A campanha de Lula terá pouco tempo para tentar modificar a correlação de forças estabelecida no primeiro turno. A necessidade de alcançar eleitores que não foram conquistados anteriormente torna a segunda etapa particularmente decisiva para o presidente.

O desafio envolve não apenas ampliar a votação entre os eleitores que participaram da primeira rodada, mas também tentar atrair segmentos que ficaram distantes da campanha petista ou que eventualmente mudaram de posição ao longo da disputa.

O atual presidente tem poucos dias para mudar o cenário a seu favor, lembra Souza. “Qual é a dificuldade nesse processo? É que, basicamente, precisa ser feito em um espaço de tempo muito curto, de menos de 20 dias, para a campanha alcançar grupos que não alcançou até aqui ou que, em algum sentido, foram suavemente perdidos durante esse primeiro turno.”

Abstenção abre espaço para disputa por novos votos

O elevado número de eleitores ausentes no primeiro turno representa um contingente expressivo que poderá ser alvo das duas campanhas. A abstenção, entretanto, não pode ser automaticamente interpretada como uma reserva de votos favorável a Lula.

Parte desse eleitorado pode retornar às urnas e optar por qualquer um dos dois candidatos. Por isso, a mobilização dos ausentes dependerá da capacidade de cada campanha de apresentar argumentos capazes de estimular o comparecimento e direcionar a escolha.

“Esse nível de abstenção significa dizer que você tem alguma esperança, porque tem um estoque de votos alto. Lembrando que o Flávio também vai potencialmente ter um número maior de votos”, diz Souza.

A busca pelos eleitores que não compareceram integra, assim, a estratégia de ambos os concorrentes. Ainda assim, especialistas ponderam que transformar abstencionistas em eleitores efetivos pode ser uma tarefa mais difícil do que simplesmente conquistar votos de quem já participou da eleição.

“Eu não acho que a abstenção seja tão fácil de tocar via campanha de um candidato, porque ela é histórica. As pessoas sabiam dos candidatos, elas já passaram por esses embates antes e podem ter, por diferentes motivos, decidido se abster”, ressalta Veiga.

A avaliação é de que o comportamento desse eleitorado não deverá sofrer uma alteração substancial apenas pela realização do segundo turno. O histórico recente reforça essa possibilidade. Em 2022, por exemplo, 32,7 milhões de eleitores não votaram no primeiro turno, ou 20,95% do eleitorado. Na segunda rodada, foram 32,2 milhões, equivalentes a 20,59%.

Apoios políticos podem redefinir a disputa

Outra frente importante da campanha será a tentativa de conquistar o eleitorado dos candidatos eliminados no primeiro turno. A formação de alianças e a declaração de apoio de antigos adversários tradicionalmente desempenham papel relevante na segunda etapa das eleições presidenciais.

Neste ano, contudo, nem todos os candidatos que ficaram pelo caminho decidiram escolher um dos dois concorrentes. Augusto Cury (Avante), que recebeu 2,89% dos votos, e Renan Santos (Missão), com 2,24%, afirmaram que não apoiarão nem Lula nem Flávio Bolsonaro.

Outros candidatos, por outro lado, já indicaram preferência pelo candidato do PL. Ronaldo Caiado (PSD), que alcançou 2,18%, e Romeu Zema (Novo), com 0,27%, declararam apoio a Flávio.

Na avaliação dos especialistas, as alianças anunciadas podem contribuir para ampliar a base eleitoral de Flávio, enquanto a ausência de apoio de Cury e Santos pode ser explorada politicamente pela campanha de Lula.

“Ao não ter a dinâmica de que são todos contra o Lula, o Lula pode dizer: ‘Olha, o Flávio não é um candidato tão bom à direita, porque, se ele fosse bom mesmo, esses outros caras que estão se colocando como direita estariam no palanque dele'”, afirma Souza.

Veiga, porém, apresenta uma interpretação diferente sobre o comportamento esperado dos eleitores que apoiaram candidatos de direita no primeiro turno. Para ela, parte desse eleitorado já poderia ter uma preferência definida para a segunda etapa.

“Eleitores de Caiado, Cury e Santos escolheram não votar em Flávio no primeiro turno, aproveitando o sistema de dois turnos: no primeiro, vota-se em quem se vê representado. O voto útil, para evitar o que mais se rejeita, fica para o segundo. Ao final, dizem: ‘Nem Lula nem Flávio são meus preferidos’. Muitos, no entanto, já sabiam que, em um segundo turno, tenderiam a votar em Flávio, pela proximidade ideológica.”

Resultado do primeiro turno vai além da diferença presidencial

A leitura do cenário eleitoral não deve se limitar à distância de 2,2 milhões de votos entre os dois candidatos que avançaram ao segundo turno. Para Veiga, a composição do Congresso Nacional e o desempenho do PL também revelam uma correlação de forças mais ampla, que pode ter impacto sobre a disputa presidencial.

O resultado legislativo obtido pelo partido de Flávio Bolsonaro é apontado como um dos sinais da força conquistada pela oposição durante o primeiro turno. A legenda elegeu 121 deputados federais e 19 senadores, ampliando sua presença no Legislativo.

“Não são apenas 2,2 milhões de votos a menos para Lula. O PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores. Foi uma vitória muito avassaladora para reduzirmos a análise a esses 2,2 milhões de votos”, afirma.

Dessa forma, embora a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro seja historicamente pequena, a disputa pelo segundo turno envolve fatores que vão além da contagem presidencial. O desempenho das forças políticas no Congresso, o comportamento dos eleitores que se abstiveram, a transferência de votos dos candidatos derrotados e a capacidade de mobilização das campanhas serão elementos decisivos para determinar se o presidente conseguirá transformar a desvantagem inicial em uma virada.

(Fonte: DW – Deutsche Welle)

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