Contexto histórico: Da aliança militar à busca por autonomia
Desde a década de 1980, quando os Estados Unidos começaram a fornecer assistência militar significativa a Israel — consolidada em 1998 com o acordo de ajuda de US$ 3 bilhões anuais —, o país do Oriente Médio estruturou sua defesa sob a égide da parceria estratégica com Washington. Essa dependência, que atingiu US$ 3,8 bilhões anuais após ajustes recentes, incluiu financiamento para sistemas avançados como o sistema de defesa antimíssil Iron Dome e a aquisição de caças F-35. No entanto, a guerra contra o Irã, iniciada há mais de um ano, expôs fragilidades nessa relação, segundo analistas.
Netanyahu, que durante anos defendeu a manutenção dessa parceria como pilar da segurança israelense, agora argumenta que a guerra acelerou a necessidade de autossuficiência. A decisão, insinuada ainda em março de 2024 durante discussões internas no Likud, reflete uma mudança paradigmática: de um Estado que dependia 100% de tecnologia e financiamento estrangeiro para um projeto de soberania militar plena. Especialistas como o professor Avner Golov, do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel, destacam que a medida sinaliza uma transição para um modelo semelhante ao da Índia ou Coreia do Sul, que combinam parcerias estratégicas com desenvolvimento interno.
Desdobramentos geopolíticos: Ormuz e a reconfiguração do poder regional
A admissão de Netanyahu sobre a subestimação dos riscos no estreito de Ormuz — por onde transitam cerca de 20% do petróleo global — representa um marco na narrativa israelense sobre a guerra. Desde outubro de 2023, quando o Irã iniciou ataques diretos contra Israel em resposta a operações israelenses na Síria, a região tem sido palco de uma escalada sem precedentes. O estreito, já um ponto crítico durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), voltou a ser alvo de tensões após o Irã criar, em junho de 2024, o Gabinete de Proteção da Navegação, responsável por cobrar taxas de embarcações e fiscalizar tráfegos.
Dados da Energy Information Administration (EIA) indicam que a interrupção do fluxo no estreito poderia elevar os preços do petróleo em até 15%, impactando economias globais. Netanyahu, em sua entrevista à CBS News, minimizou o risco imediato, mas reconheceu que “a guerra não acabou” e que objetivos como a retirada de urânio enriquecido do Irã e a neutralização do Hezbollah ainda estão pendentes. A neutralidade de Teerã em relação a grupos como os houthis — que recentemente atacaram navios no Mar Vermelho — sugere uma estratégia iraniana de pressão indireta, segundo o analista militar Tal Beeri, da Algemeiner Journal.
Estratégia de autossuficiência: Tecnologia e alianças alternativas
O plano de Netanyahu para zerar a dependência militar dos EUA em dez anos envolve três eixos principais: desenvolvimento de sistemas de defesa próprios, expansão da indústria bélica nacional e diversificação de parceiros. Israel já produz 90% de seu arsenal, incluindo mísseis Arrow, drones Eitan e sistemas cibernéticos como o Stuxnet, criado para sabotar programas nucleares. No entanto, a lacuna em tecnologia stealth e satélites de comunicação ainda depende de importações.
Ainda em 2023, Israel assinou acordos com a Índia para cooperação em defesa, incluindo treinamento conjunto e transferência de tecnologia, e intensificou diálogos com a Alemanha para aquisição de submarinos classe Dolphin. Segundo o The Jerusalem Post, o governo alemão já teria aprovado a venda de quatro submarinos, com entrega prevista para 2028. Além disso, a normalização de relações com países árabes, mencionada por Netanyahu como um “efeito colateral positivo” da guerra, pode abrir portas para acordos de segurança com nações como os Emirados Árabes Unidos e Bahrein, conforme previsto nos Acordos de Abraham (2020).
Riscos e críticas: A fragilidade da transição
Apesar do otimismo, especialistas como o professor Efraim Inbar, do Jerusalem Institute for Strategy and Security, alertam para os riscos da transição. “A retirada abrupta de apoio financeiro pode deixar lacunas em sistemas críticos, como o Iron Dome, que depende de munição produzida nos EUA”, afirmou. O orçamento militar israelense, de US$ 24 bilhões anuais, já enfrenta cortes em áreas como saúde e educação para financiar a guerra, segundo relatório do Instituto de Democracia de Israel.
Outra crítica vem de setores da esquerda política israelense, que veem a medida como um sinal de isolamento. O deputado Yair Golan (Meretz) declarou à Haaretz que “Netanyahu está guiando Israel para uma rota de colisão, ao priorizar a autossuficiência em detrimento de alianças que garantem estabilidade”. A tensão com os EUA também se reflete em Washington, onde analistas do Center for Strategic and International Studies (CSIS) questionam se a medida não enfraqueceria a posição norte-americana na região.
Perspectivas futuras: Um novo equilíbrio ou uma armadilha?
A declaração de Netanyahu de que a queda do regime iraniano “é possível, mas não garantida” reflete a complexidade do cenário. Enquanto Israel avança com operações contra infraestrutura nuclear iraniana — incluindo o ataque a Natanz em abril de 2024 —, a comunidade internacional teme uma escalada nuclear. O diretor da AIEA, Rafael Grossi, afirmou em junho que o Irã já possui urânio enriquecido suficiente para produzir três armas nucleares.
No front diplomático, Israel tenta coordenar uma resposta multilateral. Em julho de 2024, o ministro das Relações Exteriores, Israel Katz, viajou à Arábia Saudita para discutir uma aliança regional contra o Irã, embora Riad ainda não tenha confirmado apoio a ações militares. Para Netanyahu, no entanto, a autossuficiência militar é um passo inevitável. “Israel não pode mais ser refém de ciclos eleitorais ou prioridades de outros governos”, declarou. A pergunta que permanece é se, em dez anos, o país terá construído uma defesa capaz de enfrentar sozinha as ameaças de um Irã nuclearizado e de grupos como o Hamas e o Hezbollah.
Conclusão: Entre a soberania e a vulnerabilidade
A decisão de Netanyahu marca um ponto de virada na história de Israel, mas seu sucesso dependerá de fatores além do controle doméstico: a estabilidade da aliança com os EUA, a evolução do programa nuclear iraniano e a capacidade de Israel de manter sua vantagem tecnológica em um cenário de crescente multipolaridade. Enquanto a guerra contra o Irã continua a redefinir as fronteiras da segurança regional, uma coisa é certa: o modelo de dependência militar total está sendo substituído por um novo paradigma — ainda incerto, mas repleto de desafios.




