Um marco na gestão rural sustentável
O Índice de Sustentabilidade Auera (ISA), desenvolvido pela Embrapa Clima Temperado em parceria com a Philip Morris Brasil e apoio da Fapeg, representa um avanço significativo na avaliação e promoção da sustentabilidade em propriedades familiares rurais. Diferentemente de índices genéricos, a ferramenta inova ao integrar três dimensões fundamentais: econômica, social e ambiental, reunindo 182 indicadores específicos para a gestão rural. O projeto, vinculado à iniciativa Auera, analisou mais de 5.283 propriedades no Sul do Brasil, com um escore médio de 78% entre as avaliadas, indicando um patamar satisfatório de sustentabilidade, embora com desafios persistentes em manejo de resíduos e conservação de recursos hídricos e solos.
Estrutura pioneira e metodologia inclusiva
O ISA é composto por nove eixos temáticos, que abrangem desde a gestão financeira até a preservação da agrobiodiversidade. Os eixos incluem: solo e água, manejo de resíduos, saúde e segurança no trabalho, biodiversidade, qualidade de vida, diversificação produtiva, gestão econômica, governança e inovação tecnológica. Para a construção da ferramenta, foram realizadas três etapas distintas: pré-diagnóstico (5.283 propriedades), diagnóstico detalhado (101 propriedades) e intervenção/monitoramento (11 propriedades). Essa estrutura permite não apenas uma avaliação inicial, mas também a proposição de ações corretivas e o acompanhamento de sua implementação, garantindo um ciclo contínuo de melhoria.
Resultados revelam potencial e gargalos
Os dados do ISA demonstram que a agricultura familiar na Região Sul do Brasil apresenta um nível médio de sustentabilidade de 78%, com destaque para os aspectos sociais e econômicos. No entanto, os maiores desafios concentram-se em conservação do solo (erosão e compactação), gestão de resíduos agroquímicos, uso eficiente da água e diversificação produtiva. A avaliação também identificou oportunidades, como a adoção de sistemas agroflorestais, rotação de culturas e técnicas de agricultura de precisão, que podem aumentar a resiliência das propriedades frente às mudanças climáticas e flutuações de mercado.
Capacitação como pilar da transformação
Um dos diferenciais do projeto Auera foi a capacitação de 1.200 técnicos extensionistas e 5.000 agricultores em boas práticas agrícolas e gestão sustentável. Os treinamentos abordaram temas como conservação do solo, manejo integrado de pragas, uso racional de insumos e comercialização de produtos diversificados. Segundo levantamentos internos da Embrapa, as propriedades que participaram dos cursos apresentaram uma melhora média de 12% em seu escore de sustentabilidade após 12 meses, comprovando a eficácia da abordagem extensionista.
Impacto além do tabaco: um modelo replicável
Embora a iniciativa tenha se originado da necessidade de avaliar propriedades produtoras de tabaco — setor estratégico para a Philip Morris Brasil —, o ISA foi desenhado para ser adaptável a qualquer sistema produtivo. O projeto mapeou não apenas as áreas dedicadas ao cultivo do tabaco, mas toda a propriedade rural, reconhecendo que a sustentabilidade depende de um equilíbrio sistêmico. Essa abordagem holística permitiu identificar, por exemplo, que propriedades com diversificação produtiva (horticultura, pecuária leiteira, apicultura) apresentavam escores até 20% superiores em comparação àquelas monocultoras.
Desafios e o futuro da agricultura familiar
Apesar dos avanços, o ISA revelou que 68% das propriedades familiares ainda dependem de apenas uma cultura principal, o que as torna vulneráveis a crises de preços e eventos climáticos. Além disso, 35% dos agricultores entrevistados relataram dificuldades no acesso a mercados diferenciados, como certificações orgânicas ou selos de comércio justo. Para enfrentar esses entraves, o projeto Auera propôs a criação de redes de comercialização coletiva e a integração com programas governamentais, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
Legado e perspectivas
O Índice de Sustentabilidade Auera já é considerado um modelo de referência para políticas públicas e iniciativas privadas voltadas à agricultura familiar. Sua metodologia está sendo replicada em outros estados brasileiros, como Minas Gerais e Paraná, e despertou interesse de instituições internacionais, como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura). Para 2024, a Embrapa Clima Temperado planeja lançar uma versão digital do ISA, com georreferenciamento e inteligência artificial para análise preditiva de riscos.
Conclusão: sustentabilidade como caminho para a resiliência
Os resultados do ISA demonstram que a agricultura familiar no Sul do Brasil tem potencial para ser economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente responsável. No entanto, a transição para sistemas mais sustentáveis exige não apenas investimentos em tecnologia e capacitação, mas também políticas públicas integradas e parcerias público-privadas inovadoras. Projetos como o Auera mostram que, com dados precisos e ações direcionadas, é possível aliar produtividade, conservação ambiental e bem-estar social — pilares essenciais para o futuro do campo brasileiro.




