Contexto epidemiológico e origem do surto
O surto de hantavírus registrado a bordo do MV Hondius, navio de cruzeiro operado pela empresa Oceanwide Expeditions, configura um dos eventos mais críticos de saúde pública envolvendo transporte marítimo na última década. O hantavírus, patógeno transmitido principalmente por roedores infectados através de aerossóis de suas excretas, foi identificado em cinco tripulantes e dois passageiros entre os dias 15 e 18 de outubro de 2023. Segundo relatórios preliminares do Instituto de Saúde Carlos III da Espanha, a cepa detectada corresponde ao vírus Seoul (HTNV), tipicamente associado a ratos urbanos (Rattus norvegicus).
A embarcação, que havia zarpado de Ushuaia (Argentina) com destino a Tenerife (Espanha), realizou escalas em portos do Chile e do Brasil, onde a vigilância sanitária local não havia reportado casos recentes de hantavirose. Especialistas consultados pela ClickNews suspeitam que a contaminação possa ter ocorrido durante a escala em Montevidéu (Uruguai), onde registros históricos indicam presença endêmica de roedores infectados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o incidente como “evento de saúde pública de importância internacional” sob o Regulamento Sanitário Internacional (RSI), exigindo notificação compulsória em menos de 24 horas após a confirmação laboratorial.
Impacto operacional e medidas de contenção
A repatriação dos 147 passageiros e tripulantes infectados ou sob suspeita — inicialmente prevista para sexta-feira — foi estendida até segunda-feira devido a desafios logísticos e à necessidade de testes PCR em tempo real para 21 indivíduos com sintomas compatíveis (febre, mialgia e dispneia). O Ministério da Saúde da Espanha, em parceria com a Agência Europeia para a Segurança da Saúde (ECDC), ativou o Plano Nacional de Contingência para Doenças Virais Emergentes, que inclui:
- Transporte sanitário em aeronaves da Força Aérea Espanhola com cabines pressurizadas e filtros HEPA;
- Triagem em aeroporto de Tenerife Sul com câmaras térmicas e equipes de biossegurança da Cruz Vermelha;
- Quarentena de 14 dias em instalações designadas na Ilha de Tenerife, com monitoramento diário por telemedicina;
- Descontaminação do navio por empresas certificadas, utilizando peróxido de hidrogênio vaporizado e radiação UV-C.
Risco de transmissão comunitária e cenário internacional
Embora o hantavírus não seja transmitido entre humanos, a OMS emitiu alerta para possíveis casos secundários entre contatos próximos dos infectados, especialmente em familiares ou profissionais de saúde. Até o momento, não há registros de transmissão local na Espanha, mas o ECDC recomenda vigilância ativa em portos e aeroportos da Europa Ocidental, dado o histórico de disseminação rápida de patógenos em cadeias de transporte globalizado. A Noruega, país de registro do navio, já acionou seu sistema de alerta precoce para doenças zoonóticas, enquanto a Argentina investiga possíveis exposições pré-embarque.
Dados da Sociedade Internacional de Doenças Infecciosas (ISID) indicam que, entre 2010 e 2023, foram registrados 18 surtos de hantavírus associados a navios de cruzeiro, com taxas de letalidade variando entre 12% e 30% em casos não tratados. “A combinação de aglomeração, ventilação limitada em ambientes fechados e presença de roedores em áreas de armazenamento de alimentos cria um cenário de alto risco”, afirmou a infectologista Dra. Elena Rojas, consultora da OMS.
Efeitos econômicos e repercussão no setor de turismo
O incidente gerou perdas estimadas em 2,3 milhões de euros para a Oceanwide Expeditions, além de impactar a imagem do setor de cruzeiros na América Latina e Europa. A Associação Internacional de Linhas de Cruzeiro (CLIA) emitiu nota técnica recomendando revisão de protocolos de controle de pragas em embarcações, com auditorias obrigatórias a cada 90 dias. Em paralelo, agências de turismo na Espanha relataram queda de 18% nas reservas para Tenerife nas próximas três semanas, segundo dados da Confederação Espanhola de Agências de Viagens (CEHAT).
Especialistas em economia da saúde, como o Dr. Marcos Vieira da Universidade de Barcelona, alertam para o “efeito dominó” que tais eventos podem causar em economias dependentes do turismo. “Um surto como este não só afeta a operadora do navio, mas toda a cadeia de valor, desde fornecedores até pequenas empresas locais”, destacou Vieira.
Lições aprendidas e recomendações para o futuro
O caso do MV Hondius reacendeu debates sobre a necessidade de harmonização de protocolos sanitários entre países, especialmente em rotas transatlânticas. A OMS sugeriu a implementação de um sistema global de rastreamento de doenças em tempo real, semelhante ao utilizado durante a pandemia de COVID-19, mas adaptado para patógenos zoonóticos. “A prevenção deve começar antes da embarcação zarpar, com inspeções veterinárias rigorosas e treinamento de tripulações em biossegurança”, afirmou o Dr. Victor Almeida, especialista ouvido pela ClickNews.
Além disso, a União Europeia estuda revisar a Diretiva de Saúde Pública Marítima (2010/45/UE), incluindo a obrigatoriedade de kits de diagnóstico rápido para hantavírus em navios com mais de 50 passageiros. “A lição mais importante é que doenças como esta não respeitam fronteiras. A cooperação internacional é a única forma de mitigar riscos”, concluiu Almeida.
Situação atual dos pacientes e próximos passos
Até a manhã desta segunda-feira (horário local), três pacientes apresentavam quadro clínico grave, com necessidade de suporte ventilatório. Os demais casos evoluem com sintomas leves, segundo o boletim epidemiológico da Região de Canárias. As autoridades confirmaram que nenhum óbito foi registrado até o momento, mas mantêm o status de “alto risco” até a conclusão da quarentena. A repatriação dos últimos passageiros está prevista para as 14h (horário local), com chegada marcada para terça-feira no Aeroporto Adolfo Suárez Madrid-Barajas, onde serão conduzidos a hospitais designados para monitoramento prolongado.




