A experiência relatada por milhares de pacientes que utilizam medicamentos injetáveis à base de GLP-1 — popularmente chamados de ‘canetas emagrecedoras’ — ganhou respaldo científico com a publicação de estudo na British Medical Journal
A pesquisa, conduzida pela Universidade da Pensilvânia com dados de 50.000 pacientes com diabetes tipo 2 tratados entre 2019 e 2024, identificou uma correlação estatisticamente significativa entre o uso desses fármacos e a ocorrência de alopecia não cicatricial, especialmente em regimes terapêuticos associados a perda ponderal superior a 10% do peso corporal.
Mecanismo proposto: deficiências nutricionais ou estresse metabólico?
Os autores do estudo sugerem que a queda capilar estaria vinculada a dois fenômenos concomitantes: a depleção de micronutrientes essenciais — como ferro, zinco e vitaminas do complexo B — decorrente de dietas restritivas e absorção intestinal reduzida durante o uso prolongado do fármaco, e o estresse fisiológico imposto pelo emagrecimento acelerado, que desencadearia a entrada precoce de folículos pilosos na fase telógena (queda). A semaglutida, por exemplo, já foi associada a reduções na absorção de nutrientes em estudos anteriores.
Risco absoluto baixo, mas impacto psicossocial relevante
Embora o estudo destaque que o risco absoluto de alopecia permaneça inferior a 5% na população analisada — significativamente menor do que os benefícios cardiovasculares e glicêmicos comprovados —, a magnitude do impacto emocional para os pacientes é considerável. Casos como o de uma paciente que perdeu 14 kg em seis meses e relatou encontrar fios de cabelo ‘do tamanho de um palito de fósforo’ em locais cotidianos ilustram a dissonância entre os objetivos terapêuticos e efeitos colaterais não previstos inicialmente.
Recomendações clínicas: monitoramento e ajustes necessários
Diante das evidências, especialistas recomendam que profissionais de saúde incluam exames de dosagem de ferritina, vitamina D e zinco no acompanhamento de pacientes em uso de GLP-1, especialmente aqueles que apresentam perda de peso superior a 10% ou queixam-se de fadiga e queda capilar. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) ainda não emitiu diretriz formal, mas orienta que a decisão de interromper ou ajustar a dose deve seguir avaliação individualizada, ponderando riscos e benefícios.




