Pessoas próximas ao senador relatam que a saída do país teria sido articulada por um advogado ligado à família Bolsonaro. A viagem, ainda não confirmada oficialmente, ocorre em meio a investigações criminais e após determinação do STF para entrega de passaportes.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial de 2026, teria deixado o Brasil em direção aos Estados Unidos, segundo informações atribuídas a integrantes de seu círculo político. O deslocamento teria ocorrido apenas dois dias depois do segundo turno das eleições, em meio ao agravamento de sua situação jurídica e às especulações sobre uma possível tentativa de escapar da Justiça brasileira.
De acordo com relatos publicados pela Folha de S.Paulo, aliados que afirmam ter conhecimento da movimentação sustentam que o parlamentar já estaria em viagem para território norte-americano, com previsão de desembarque nas horas seguintes. Até o momento descrito pela reportagem, entretanto, não havia confirmação independente sobre sua localização ou sobre a efetiva realização do voo.
A operação teria sido planejada com a participação de um advogado próximo à família Bolsonaro. Os interlocutores ouvidos pelo jornal afirmaram discordar da suposta decisão de deixar o país.
O desaparecimento do senador do debate público e a dificuldade de estabelecer contato com ele ampliaram as dúvidas sobre seu paradeiro. Rogério Marinho, responsável pela coordenação de sua campanha presidencial, inicialmente rejeitou as informações de que o candidato derrotado tivesse fugido do Brasil.
Determinação de Moraes teria precipitado decisão
A possível saída de Flávio Bolsonaro estaria diretamente relacionada a uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que ordenou o recolhimento de seus documentos de viagem.
Segundo a versão apresentada pelos aliados, a decisão de deixar o território brasileiro teria sido tomada na segunda-feira (26), depois da ordem judicial que alcançou tanto o passaporte brasileiro quanto o italiano do senador, detentor de dupla cidadania.
Nesta terça-feira (27), a Polícia Federal cancelou o passaporte brasileiro do parlamentar, após o descumprimento da determinação de entrega. O documento italiano, contudo, continuaria válido.
Diante das suspeitas de uma saída não autorizada, a PF também intensificou o monitoramento das fronteiras nacionais. A possibilidade de o senador já ter atravessado o território brasileiro antes da adoção dessas providências, entretanto, passou a integrar as preocupações das autoridades.
Passagem pela Argentina e suspeita de manobra para despistar autoridades
Uma das principais incógnitas envolve o itinerário que teria sido utilizado pelo senador para alcançar os Estados Unidos.
Informações iniciais apontaram para uma possível passagem por Puerto Iguazú, cidade argentina próxima à fronteira com o Brasil e o Paraguai. O nome de Flávio apareceu em uma relação de passageiros de um avião executivo Gulfstream, que, no entanto, não chegou a decolar.
Pessoas próximas ao parlamentar sustentam que a inclusão de seu nome nessa lista poderia ter integrado uma estratégia para desviar a atenção sobre o verdadeiro percurso da viagem.
Conforme esses relatos, Flávio teria embarcado em outra localidade da Argentina, sem que fossem revelados o aeroporto utilizado ou os detalhes da operação.
O governo argentino, presidido por Javier Milei, informou não possuir registros oficiais de entrada do senador no país. A declaração acrescentou um novo elemento de incerteza ao episódio, uma vez que não há comprovação pública de que o parlamentar tenha efetivamente utilizado território argentino como ponto de partida.
Milei mantém proximidade política com integrantes da família Bolsonaro e participou do lançamento da candidatura presidencial de Flávio.
Investigações criminais aumentam pressão sobre senador
O episódio ocorre em um momento de crescente exposição judicial para Flávio Bolsonaro, que enfrenta investigações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e outras possíveis irregularidades.
Entre as apurações mencionadas estão procedimentos associados ao caso do Banco Master e a suspeitas de desvios envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A existência dessas investigações, contudo, não representa comprovação de responsabilidade criminal do parlamentar.
A situação poderá assumir novos contornos em fevereiro de 2027, quando Flávio concluirá seu mandato no Senado pelo Rio de Janeiro. Com o encerramento da atividade parlamentar, haverá mudanças nas condições que atualmente fundamentam sua prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal.
A determinação de Moraes para que o senador entregasse seus passaportes foi confirmada pela Agência Brasil na segunda-feira (26). Na ocasião, Flávio declarou que não pretendia abandonar o país e afirmou que contestaria a medida judicial.
Derrota para Lula e contestação eleitoral
A controvérsia sobre o paradeiro de Flávio Bolsonaro surge depois de uma eleição presidencial marcada pela polarização e encerrada com a vitória de Lula.
Embora não tenha reconhecido expressamente o resultado das urnas, o senador desistiu de apresentar uma ação destinada a questionar a validade do segundo turno, inicialmente motivada pela ampliação excepcional do período de votação em determinadas localidades.
A Justiça Eleitoral autorizou a extensão do horário em razão de problemas no transporte de eleitores, sobretudo em municípios afetados pela insuficiência de ônibus. Segundo os dados mencionados na reportagem original, apenas 0,03% dos votos foram registrados durante as duas horas adicionais.
A desistência da contestação judicial, porém, não afastou as tensões políticas e jurídicas envolvendo o candidato derrotado.
Estados Unidos podem se tornar destino de reencontro com Eduardo Bolsonaro
Caso se confirme a viagem, uma das possibilidades levantadas por aliados é que Flávio procure o irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal que permanece nos Estados Unidos desde 2025.
Eduardo, condenado pelo Supremo Tribunal Federal, tornou-se um dos principais articuladores da família Bolsonaro junto a setores conservadores norte-americanos.
Sua atuação política no exterior incluiu iniciativas de pressão sobre instituições brasileiras e aproximação com integrantes do campo político ligado ao presidente Donald Trump.
Apesar das afinidades ideológicas com o bolsonarismo, Trump não formalizou apoio público à candidatura presidencial de Flávio. Depois do segundo turno, entretanto, o republicano levantou suspeitas sobre a lisura da eleição brasileira, sem apresentar elementos que comprovassem irregularidades capazes de comprometer o resultado.
O posicionamento não se traduziu, até aquele momento, em mudanças concretas na relação diplomática entre Brasília e Washington.
Integrantes da direita norte-americana, entre eles Steve Bannon, chegaram a defender medidas mais severas contra o governo brasileiro, incluindo o rompimento de relações diplomáticas. A hipótese, contudo, não encontrava respaldo em iniciativas oficiais da Casa Branca.
Histórico de Jair Bolsonaro volta ao centro das discussões
As suspeitas envolvendo Flávio também reacenderam referências a episódios anteriores protagonizados por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Condenado por participação em uma tentativa de ruptura institucional após a derrota eleitoral de 2022, Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar.
Em 2024, sua permanência por dois dias na Embaixada da Hungria, em Brasília, provocou questionamentos sobre uma eventual tentativa de evitar o alcance de medidas judiciais.
Naquele período, o país europeu era governado por Viktor Orbán, aliado político do ex-presidente brasileiro, que deixou o poder em 2026.
Embora os contextos sejam distintos, a trajetória judicial da família passou a integrar as avaliações sobre a possibilidade de Flávio permanecer fora do território nacional.
PF tenta esclarecer paradeiro; saída do Brasil continua sem confirmação
A principal questão ainda sem resposta é se Flávio Bolsonaro efetivamente deixou o território brasileiro e, em caso positivo, quando e por qual rota ocorreu o deslocamento.
A Polícia Federal busca esclarecer as informações sobre uma possível passagem pela Argentina. Conforme apurações divulgadas nesta terça-feira, autoridades migratórias argentinas não identificaram registro oficial da entrada do senador, enquanto interlocutores políticos apresentam versões contraditórias sobre sua localização.
Até que existam registros de viagem, confirmação oficial ou manifestação direta do parlamentar, a suposta fuga para os Estados Unidos permanece fundamentada em relatos de terceiros.
O esclarecimento do episódio será determinante para estabelecer se houve descumprimento da proibição judicial de deixar o país e quais poderão ser as consequências legais para o ex-candidato à Presidência da República.
( Com Agência Brasil e Folha de S.Paulo )




